A última vez que dois camisa 10 de geração se encontraram numa Copa do Mundo carregando o peso de um ciclo inteiro nas costas foi em 2006, quando Zinedine Zidane e Ronaldinho Gaúcho cruzaram seus caminhos nas quartas de final na Alemanha — ambos em seu último Mundial, ambos ainda capazes de mudar o jogo com um toque. Dezoito anos depois, o Lumen Field em Seattle recebe um encontro de mesma estatura: Kevin De Bruyne pela Bélgica e Mohamed Salah pelo Egito, num duelo do Grupo G que pode ser a última vez que esses dois gênios disputam palmo a palmo numa Copa do Mundo.
Uma rivalidade forjada na Premier League e temperada no Chelsea
Antes de se tornarem adversários históricos, De Bruyne e Salah foram colegas de clube — ainda que brevemente e sem brilho. Os dois passaram pelo Chelsea de José Mourinho, sem espaço suficiente para mostrar ao que vinham. De Bruyne saiu em 2014 para o Wolfsburg, onde explodiu, antes de chegar ao Manchester City em 2015. Salah foi emprestado à Fiorentina e depois à Roma, onde a carreira tomou outro rumo, até o Liverpool de Jürgen Klopp o contratar em 2017 por 42 milhões de euros. A partir daí, o Chelsea virou apenas uma nota de rodapé na biografia dos dois.
Entre as temporadas 2017/18 e 2024/25, Manchester City e Liverpool monopolizaram a Premier League de forma que não se via desde os anos 80, quando Liverpool e Everton dividiam o domínio inglês. City e Liverpool somaram sete títulos nesse período — seis para o clube de Manchester, dois para o de Merseyside (2019/20 e 2024/25) —, e De Bruyne e Salah foram os protagonistas dos dois lados desse confronto. Para se ter a dimensão do domínio: nessas oito temporadas, os dois clubes acumularam juntos mais pontos do que todos os demais times do top-4 combinados. A hegemonia só foi quebrada pelo Arsenal, que conquistou o título inglês na temporada 2025/26.
De Bruyne no Napoli, Salah sem clube — o fim de uma era inglesa
O encontro no Grupo G chega envolto numa atmosfera de encerramento de ciclo que vai além das seleções. Em junho de 2025, De Bruyne deixou o Manchester City após dez anos e assinou com o Napoli, encerrando uma das passagens mais dominantes de um meio-campista na história do futebol inglês. São números que resistem ao tempo: 160 assistências na Premier League, média de participação direta em gol superior a qualquer meia das últimas três décadas no campeonato. Salah, por sua vez, anunciou que deixará o Liverpool ao fim do contrato, mas preferiu adiar a decisão sobre o próximo clube até o término do torneio. Com 33 anos completos e o 34º chegando no dia 27 de junho — justamente a data da última rodada do Grupo G —, o egípcio sabe que esta pode ser sua última chance numa Copa.
"Quero focar no torneio agora. Depois da Copa, decido o futuro", disse Salah, sem revelar propostas concretas, mas deixando claro que o Mundial vem antes de qualquer negociação de mercado.
De Bruyne, por sua vez, chegou ao Napoli com a missão de repetir o que Diego Maradona fez nos anos 80 com a camisa azzurra: transformar um clube de Sul da Itália numa potência continental. A comparação é ousada, mas a cidade de Nápoles, que nunca foi tímida em criar mitos, já parece disposta a aceitar o belga nesse papel.
O que está em jogo para Bélgica e Egito além da classificação
Tecnicamente, o duelo de estilos continua fascinante mesmo numa fase de grupos. De Bruyne sempre operou como o que os italianos chamam de regista avançado — um jogador que lê o espaço antes de ele existir e entrega passes que desmontam blocos defensivos inteiros. Salah é o oposto em termos de construção: ele não cria o jogo, ele o finaliza. A velocidade explosiva, a habilidade de cortar para o pé direito e a frieza na conclusão fizeram dele o artilheiro de sua seleção em Copas Africanas, com 10 gols somados nas últimas quatro edições do torneio continental — mais do que qualquer jogador egípcio desde Hossam Hassan, que marcou 8 gols em Copas do Mundo entre 1990 e 1998.
"Este é o jogo mais importante da minha carreira em Copas. Precisamos vencer", declarou o técnico da seleção egípcia, Hector Cuper — que já havia comandado o Egito em 2018, na Copa da Rússia —, segundo apurado pelo SportNavo antes do embarque da delegação.
A Bélgica, que nunca venceu uma Copa do Mundo apesar de ter chegado ao terceiro lugar em 2018 derrotando a Inglaterra por 2 a 0, entra como favorita no Grupo G, que conta ainda com Irã e Nova Zelândia. O Egito, por sua vez, retorna ao Mundial após a ausência de 2022 e carrega o peso de uma nação que não passa das fases de grupo desde 1990, quando foi eliminado pela Irlanda e pela Holanda.
O calendário que pode transformar junho em lenda ou despedida
A sequência do Grupo G deixa pouco espaço para erro. Após a estreia desta segunda-feira, ambas as seleções voltam a campo no domingo, dia 21, pela segunda rodada, e encerram a fase de grupos no dia 27 — quando Salah completará 34 anos. Seria um roteiro de cinema: o maior jogador da história egípcia marcando no dia do aniversário para garantir a classificação inédita às oitavas de final. A história do futebol adora esses momentos, mas raramente os entrega com tanto pontualidade.
Para quem quer entender o que está em jogo além dos pontos na tabela, o jogo desta segunda-feira, às 16h no Lumen Field, é o tipo de partida que merece gravação integral — porque daqui a dez anos, quando se falar na última Copa de De Bruyne e Salah, este será o jogo que vai aparecer primeiro na memória.








