A última vez que um jogador brasileiro dominou o debate de uma Copa do Mundo sem pisar em campo foi em 1982, quando Zico passou 90 minutos no banco contra a Nova Zelândia e a imprensa europeia já o chamava de melhor do torneio antes mesmo de sua primeira titularidade. Quarenta e quatro anos depois, Endrick repetiu o fenômeno com uma escala que o Brasil de Zico jamais poderia imaginar: 600 mil novos seguidores no Instagram em menos de 24 horas, número que, segundo dados da plataforma Brandwatch, dobra a soma do que Vini Jr. e Neymar ganharam juntos no mesmo período após o empate do Brasil com Marrocos por 1 a 1, no sábado, 13 de junho, em Nova Jersey.

O empate que não aconteceu em campo, mas explodiu nas redes

O placar contra Marrocos foi 1 a 1, mas o verdadeiro confronto da noite aconteceu fora do gramado do MetLife Stadium. Enquanto Vini Jr. marcava o gol brasileiro e a Seleção desperdiçava chances de virar, a câmera insistia em enquadrar Endrick no banco — 19 anos, olhar fixo, luvas nas mãos, pronto para entrar a qualquer momento. Carlo Ancelotti usou todas as substituições sem acionar o atacante, e o Brasil terminou o jogo sem a virada.

Cremonese - Como

A reação nas redes sociais foi imediata e avassaladora. O nome de Endrick se tornou o mais mencionado tanto nas plataformas sociais quanto nos mecanismos de busca, superando Vini Jr. — autor do único gol brasileiro — e Neymar, ausente da partida e historicamente o jogador com maior base de fãs no país. Nesta segunda-feira, 15 de junho, Endrick acumula 19,5 milhões de seguidores no Instagram, consolidando uma presença digital incompatível com seu status de reserva na Copa.

A coletiva de imprensa de Ancelotti, realizada horas após o jogo, transformou a ausência do atacante em tema central. Questionado diretamente sobre a decisão de não utilizá-lo, o técnico italiano não escondeu o incômodo com a pergunta.

O empate que não aconteceu em campo, mas explodiu nas redes Endrick ganha 600 mi
O empate que não aconteceu em campo, mas explodiu nas redes Endrick ganha 600 mi
"Eu não estou aqui para falar individualmente de um jogador, falo da equipe. A equipe no primeiro tempo não jogou bem, no segundo tempo foi melhor. Tivemos algumas oportunidades. Temos que acertar mais", disse Ancelotti na ocasião.

A resposta evasiva alimentou ainda mais o debate público. Ancelotti, que convive com Endrick no Real Madrid desde 2024, conhece o atacante melhor do que qualquer outro técnico — e ainda assim optou por Matheus Cunha como substituto. A escolha virou meme instantâneo nas redes brasileiras.

O histórico que a torcida não esquece

Há uma razão objetiva para a pressão popular: os números de Endrick pela Seleção Brasileira constroem um argumento difícil de rebater. Em 17 jogos desde sua primeira convocação, em 2023, o atacante soma quatro gols e uma assistência. O dado mais revelador, porém, está no contexto de cada participação: todas as vezes em que marcou ou contribuiu diretamente para um gol, o Brasil estava empatando ou perdendo no segundo tempo. Endrick não é apenas um talento — é um jogador que entra quando o resultado está em aberto e muda o jogo.

Esse padrão transforma sua ausência contra Marrocos em questão tática, não apenas emocional. O Brasil terminou o jogo com 1 a 1 no placar, resultado insatisfatório que teria exigido exatamente o perfil de jogador capaz de alterar o equilíbrio — e esse jogador estava sentado no banco com luvas nas mãos, segundo imagens que circularam nas redes e foram captadas pelo programa Fantástico no domingo, 14 de junho.

A comparação que a torcida brasileira levantou nas redes remete a outro dilema histórico: o de Felipão entre Vitor Roque e Pablo em uma Copa anterior, situação marcada pela teimosia técnica diante de evidências de desempenho. O paralelo é duro para Ancelotti, mas a matemática dos quatro gols em situações de pressão sustenta a analogia.

600 mil seguidores e uma escalação que Ancelotti precisa explicar

O fenômeno digital em torno de Endrick revela algo que vai além do marketing esportivo. A torcida brasileira não está apenas consumindo conteúdo sobre o atacante — está construindo pressão institucional sobre o técnico. A diferença entre os 600 mil seguidores ganhos por Endrick e a soma dos ganhos de Vini Jr. e Neymar no mesmo período não é apenas uma estatística de engajamento: é um termômetro de expectativa coletiva que Ancelotti não pode ignorar.

Neymar, o jogador brasileiro mais popular das redes sociais historicamente, ficou em segundo plano neste episódio. Vini Jr., autor do gol e titular indiscutível, também foi superado em menções pelo companheiro que não entrou. Isso não acontece por acidente — acontece porque a ausência de Endrick gerou uma narrativa de injustiça percebida, combustível perfeito para o engajamento digital.

A pressão por mudança na escalação é unânime entre torcedores e começa a ganhar eco em análises técnicas. Os quatro gols em situações de virada ou empate constroem um perfil de impacto imediato que se encaixa precisamente no que a Seleção não teve contra Marrocos nos minutos finais.

"Se eu pudesse, eu entrava", disse Endrick, em frase captada por leitura labial e exibida pelo Fantástico — sorriso no rosto, mas peso nas palavras.

O Brasil volta a campo na sexta-feira, 19 de junho, às 21h30, contra o Haiti, na Filadélfia. Ancelotti terá cinco dias para decidir se a pressão de 600 mil seguidores, quatro gols em situações decisivas e uma coletiva de imprensa desconfortável são argumentos suficientes para escalar Endrick como titular. Em 19 de junho, o banco reserva uma resposta.