Um gesto de aprovação virou prova de acusação. Shaun Evans, árbitro assistente do VAR na partida entre Alemanha e Curaçao pela Copa do Mundo de 2026, apareceu nas câmeras fazendo o sinal de "OK" com a mão direita durante a apresentação oficial da equipe de arbitragem — e aquele momento de alguns segundos se transformou no maior escândalo de arbitragem do torneio até agora. O paradoxo é este: o gesto mais banal do mundo se tornou o mais perigoso. E entender por que isso aconteceu exige olhar para um histórico que o futebol preferia ter esquecido.
O que Shaun Evans fez e por que a Fifa não dorme mais desde sábado
Estava fazendo calor em Kansas City na tarde de 14 de junho quando o vídeo começou a circular nas redes sociais. Evans, australiano, posicionado diante dos monitores do VAR, ergueu a mão direita em forma de círculo — polegar e indicador unidos, os outros três dedos estendidos. Para muita gente, nada demais. Para uma parcela considerável do público, principalmente nos Estados Unidos, o sinal carrega uma carga simbólica específica: os três dedos estendidos formam a letra "W" de white (branco), e o círculo remete ao "P" de power (poder), criando a expressão white power.
A ADL (Liga Antidifamação), organização americana que monitora crimes de ódio e movimentos extremistas, reconhece que a associação do sinal de "OK" ao supremacismo branco ganhou força a partir de 2017, impulsionada por campanhas na internet — mas ressalva que o gesto não possui conotação extremista em todos os contextos. A Fifa, no entanto, não pode se dar ao luxo de trabalhar com ambiguidades numa Copa do Mundo realizada em solo norte-americano, com o holofote global inteiro apontado para cada detalhe do torneio.
A entidade acompanha o episódio desde o sábado (14) e estuda quais medidas disciplinares poderão ser adotadas. A resposta mais silenciosa, porém mais reveladora, já veio: nas partidas seguintes — Holanda x Japão e Costa do Marfim x Equador —, os árbitros do VAR permaneceram estáticos, voltados para os monitores, sem repetir a dinâmica de apresentação que expôs Evans. O protocolo foi alterado sem nenhum comunicado oficial. Na Copa, até o silêncio faz barulho.
O futebol já viu esse filme antes — e nem sempre deu certo
Quando faz um gesto sem pensar nas câmeras, um atleta de alto nível coloca em risco anos de construção de imagem. Quando faz o mesmo gesto num palco de 5 bilhões de espectadores, coloca em risco a imagem de uma instituição inteira. O futebol tem uma lista de casos que provam exatamente isso.
Quando faz um sinal com a mão que pode ser lido como ofensivo, o jogador entra num campo minado que a Fifa leva cada vez mais a sério. Paul Pogba, durante sua passagem pela Juventus, foi multado pela UEFA após gestos considerados inadequados durante partidas da Champions League — punições que variaram entre suspensões de jogos e valores financeiros não divulgados oficialmente, mas estimados em dezenas de milhares de euros. Mauro Icardi, atacante argentino, já recebeu advertências formais por comportamentos considerados desrespeitosos em campo, incluindo gestos direcionados a torcidas adversárias que geraram processos disciplinares em 2019 e 2020.
No caso mais emblemático envolvendo conotação política, o zagueiro turco Merih Demiral foi suspenso por dois jogos pela UEFA na Eurocopa de 2024 após fazer o gesto dos "Lobos Cinzentos" — símbolo associado ao movimento ultranacionalista turco — ao comemorar um gol contra a Áustria. A punição foi rápida, a repercussão foi global, e o debate sobre onde termina a expressão cultural e começa o discurso de ódio nunca foi resolvido de forma satisfatória.
"A UEFA tomou a decisão com base nos regulamentos que proíbem qualquer manifestação de natureza política, ideológica, religiosa ou ofensiva durante os jogos", comunicou a entidade à época, sem citar explicitamente o nome do movimento associado ao gesto de Demiral.
No Brasil, o ditado diz que quem não tem cão caça com gato — e a Fifa, sem uma legislação interna específica sobre gestos de conotação supremacista, precisou buscar amparo nos artigos genéricos do seu Código Disciplinar para punir casos anteriores. Esse vazio normativo é exatamente o que torna o caso Evans tão delicado: a entidade pode querer agir com firmeza, mas ainda não tem a ferramenta certa na mão.
O efeito cascata que um gesto de árbitro pode causar
A diferença entre o caso Evans e os episódios envolvendo jogadores é estrutural. Um jogador que faz um gesto polêmico representa a si mesmo e, por extensão, seu clube ou seleção. Um árbitro do VAR representa a própria integridade do jogo. Quando a suspeita recai sobre quem deveria ser a figura mais neutra do campo, o efeito sobre a credibilidade da arbitragem é multiplicado.
Alemanha venceu Curaçao por 8 a 0 — o placar mais elástico da fase de grupos até agora. Nenhuma das decisões do VAR naquela partida foi contestada publicamente. Mas a questão que fica no ar, inevitável, é: se o árbitro assistente de vídeo carrega um viés ideológico, mesmo que inconsciente, como isso afeta suas análises em situações de alta pressão? A pergunta não precisa ter resposta confirmada para causar dano. O dano já está feito.
"A integridade do processo arbitral depende não apenas das decisões tomadas dentro do campo, mas da percepção pública sobre quem as toma", afirmou um representante da organização Fair Game Initiative, especializada em governança esportiva, ao ser consultado por veículos internacionais sobre o caso.
A mudança silenciosa no protocolo de apresentação dos árbitros do VAR — implementada já nos jogos seguintes ao incidente — sugere que a Fifa reconheceu a gravidade do episódio antes mesmo de qualquer comunicado oficial. A alteração protege os próximos árbitros de situações semelhantes, mas não resolve o caso Evans.
O que a Fifa decide agora define o precedente para a arbitragem global
A decisão que a Fifa tomar sobre Shaun Evans vai além do árbitro australiano. Ela estabelece o parâmetro para todos os casos futuros envolvendo gestos de conotação ambígua — e numa era em que qualquer movimento é capturado por dezenas de câmeras em alta definição, esses casos serão cada vez mais frequentes.
Se a entidade optar por uma punição leve, como advertência formal, corre o risco de ser acusada de omissão diante de um símbolo que grupos supremacistas realmente utilizam. Se optar por uma suspensão severa sem provas concretas de intenção, abre precedente para punir gestos pela aparência, não pelo contexto — o que cria um problema jurídico considerável. O meio-termo — processo disciplinar completo, com direito de defesa, análise de contexto e decisão fundamentada — é o caminho mais trabalhoso, mas o único que resiste a contestações legais.
Evans ainda não se pronunciou publicamente sobre o episódio. A Fifa tem até o encerramento da fase de grupos, previsto para o final de junho, para anunciar uma posição oficial — ou o silêncio institucional vai se tornar, ele mesmo, a manchete mais incômoda da Copa.








