A confiança dentro do futebol italiano de que Pep Guardiola será o próximo técnico da Azzurra cresceu de forma significativa nas últimas semanas. Segundo a La Gazzetta dello Sport, pessoas próximas ao catalão acreditam que ele repetirá o movimento de Carlo Ancelotti — que trocou o Real Madrid pela seleção do seu país — e aceitará o desafio de reconstruir uma Itália que ficou de fora de duas das últimas três Copas do Mundo, em 2018 e 2022.
Uma relação construída ao longo de décadas
A ligação de Guardiola com o futebol italiano não é recente nem superficial. O catalão viveu na Itália entre 2001 e 2003, quando defendeu o Brescia e, em seguida, a Roma. Naquele período, construiu amizades sólidas com nomes do calibre de Roberto Baggio e Luca Toni — figuras que até hoje transitam nos bastidores do futebol italiano e que, segundo a Gazzetta, alimentam a expectativa de que Guardiola retorne ao país com status de selecionador.
Segundo pessoas próximas ao técnico, Guardiola quer se sentir desejado e apoiado por um sistema inteiro — da forma como sempre foi no Manchester City.
Esse sentimento de pertencimento é um critério inegociável para o treinador. Ao longo de sua carreira no Barcelona, no Bayern de Munique e no City, Guardiola sempre exigiu autonomia técnica plena e suporte institucional robusto. A seleção italiana precisaria demonstrar que pode oferecer exatamente isso — o que, dadas as turbulências internas da FIGC nos últimos anos, representa um desafio considerável.
O nó financeiro e a eleição que trava tudo
O maior obstáculo concreto não é a vontade de Guardiola, mas a capacidade financeira da Federação Italiana de Futebol (FIGC). Amigos do técnico que o conheceram no período do Brescia alertam que a federação precisaria de patrocinadores externos para cobrir o salário do catalão — estimado em valores que superam a estrutura de custo habitual de uma seleção europeia. Guardiola, por sua vez, declarou que não quer que a decisão se reduza a questões financeiras, o que abre espaço para uma negociação criativa.
A cronologia também importa. Qualquer abordagem formal da FIGC a Guardiola depende do desfecho de uma eleição presidencial interna que ainda não tem data definida. Dois candidatos disputam o cargo: Giovanni Malagò, ex-presidente do Comitê Olímpico Italiano (CONI) e favorito dos clubes da Série A, e Giancarlo Abete, ex-mandatário da própria FIGC, que conta com o apoio das divisões inferiores. O perfil do novo presidente moldará diretamente a política de contratação do técnico, e Guardiola sinalizou que vai escutar o que a federação tem a oferecer — mas somente após essa definição interna.
Nas palavras de pessoas do entorno do técnico, Guardiola não está com pressa e avaliará a proposta italiana no momento certo, levando em conta o projeto esportivo, não apenas os números do contrato.
O contrato com o City e uma ruptura histórica possível
Tecnicamente, Guardiola ainda tem vínculo com o Manchester City até junho de 2027. Contudo, a permanência do catalão no Etihad Stadium por mais uma temporada é considerada incerta por fontes do clube inglês. Se Guardiola deixar o City antes do término do contrato, será a primeira vez em toda a sua carreira de treinador — que inclui passagens pelo Barcelona B, Barcelona, Bayern de Munique e Manchester City — que ele rompe um vínculo antes do prazo acordado.
Na avaliação do SportNavo, o peso simbólico dessa ruptura não deve ser subestimado. Guardiola construiu sua reputação também na consistência e na lealdade contratual. Uma saída antecipada sinalizaria não apenas o fim de um ciclo no futebol de clubes, mas uma mudança de paradigma pessoal: a busca por um desafio que o dinheiro e os títulos de Champions League já não conseguem oferecer.
O que Guardiola poderia transformar na Itália
A Itália chega a essa discussão em um momento delicado. A seleção conquistou a Eurocopa em 2021 sob Mancini, mas o ciclo seguinte foi catastrófico: eliminação nas eliminatórias para a Copa de 2022 e um desempenho abaixo das expectativas na Euro 2024, com queda diante da Suíça nas oitavas de final. Luciano Spalletti, atual técnico, enfrenta crescentes críticas internas.
O modelo de jogo que Guardiola desenvolveu ao longo de mais de 15 anos como técnico principal — baseado em posse qualificada, pressing intenso e flexibilidade posicional — seria uma revolução para uma seleção historicamente organizada em estruturas defensivas sólidas. A Itália tem jogadores de alto nível na Premier League e na Serie A, como Federico Chiesa, Sandro Tonali e Nicolò Barella, que se encaixariam bem no estilo guardioleano. O levantamento do SportNavo sobre os últimos três ciclos da seleção italiana indica que o país não tem deficiência de talentos individuais, mas carência crônica de identidade coletiva — exatamente a especialidade do catalão.

A FIGC deve formalizar o contato com o entorno de Guardiola assim que a eleição presidencial interna for concluída, o que deve ocorrer até o início de 2026. Caso Guardiola confirme a saída do Manchester City ao término da atual temporada, em junho, a janela de negociação se abrirá de forma concreta — e a Itália estará na pole position para conquistar o técnico mais estudado do futebol mundial.









