Se o amistoso desta quinta-feira (4) em Nantes fosse uma disputa doméstica, Guéla Doué teria ganado de lavada. O atacante da Costa do Marfim marcou o gol do empate aos 53 minutos, deu a assistência para o segundo gol de Amad Diallo aos 84 e saiu do Stade de la Beaujoire como o nome do jogo — enquanto seu irmão mais novo, Désiré Doué, do PSG e da seleção francesa, foi substituído sem ter conseguido mudar o rumo de nada. A Costa do Marfim venceu por 2 a 1, de virada, e encerrou uma invencibilidade de quase um ano dos Bleus.

A noite em que Nantes virou palco de um duelo de família

O primeiro tempo foi da França. Com Kylian Mbappé liderando o ataque e Rayan Cherki dando trabalho pela esquerda, os Bleus dominaram a posse e criaram as melhores chances. Aos 45 minutos, Cherki driblou marcadores e finalizou com precisão para abrir o placar — e a torcida no Beaujoire, que estava fria, aqueceu. Antes disso, Maignan havia salvado uma finalização cara a cara de Adingra, que tinha roubado a bola de Tchouaméni. Era o aviso. Ninguém ouviu.

"QUE EU POSSA AJUDAR NA DEFESA..." ANCELOTTI TÁ APERFEIÇOANDO O WESLEY PRA COPA DO MUNDO! #shorts

O segundo tempo chegou com dez substituições do técnico Didier Deschamps — uma rotatividade que mudou completamente o ritmo da França. A equipe perdeu fluidez. E foi exatamente nesse vácuo que Guéla Doué apareceu. Aos 53 minutos, ele apareceu bem na área, finalizou e deixou tudo igual. Désiré estava no banco naquele momento, assistindo ao irmão empatar o jogo em que ele próprio deveria ser protagonista. É o tipo de cena que dói diferente — como o trânsito da Avenida Paulista às 18h numa sexta-feira: você está parado, e o mundo passa por você.

A noite em que Nantes virou palco de um duelo de família Guéla Doué marca e dá a
A noite em que Nantes virou palco de um duelo de família Guéla Doué marca e dá a

Como Guéla escolheu os Elefantes e mudou a narrativa da família Doué

A história dos dois irmãos é um capítulo peculiar do futebol moderno. Nascidos na França, ambos tiveram a opção de defender os Bleus. Désiré, 20 anos, optou pela seleção francesa e hoje é um dos nomes da nova geração convocados por Deschamps para a Copa do Mundo — integra a lista ao lado de Ousmane Dembélé, Bradley Barcola, Lucas Hernández e Warren Zaïre-Emery, todos campeões europeus pelo PSG. Guéla, mais velho, fez o caminho inverso: em 2024, decidiu defender a Costa do Marfim, terra de origem da família.

Essa escolha era vista com curiosidade até esta quinta-feira. Agora virou argumento. Guéla não só participou dos dois gols da virada como foi o jogador mais perigoso da partida na segunda etapa — numa Costa do Marfim que integra o Grupo E da Copa ao lado de Alemanha, Curaçao e Equador, e que chega ao torneio com uma campanha impecável nas Eliminatórias Africanas. Nas palavras que circularam na imprensa francesa após o jogo, a atuação de Guéla foi descrita como a de um jogador que apareceu no momento certo para ser o "buteur et passeur décisif" — artilheiro e assistente decisivo.

O que a derrota francesa revela antes da Copa do Mundo

A França não perdia há quase 12 meses. O último revés tinha sido na final da Liga das Nações, contra a Espanha, em junho de 2025 — uma derrota por 4 a 5 que já havia soado como alerta. Desde então, foram nove jogos de invencibilidade, oito vitórias e um empate. Esse ciclo acabou em Nantes, a menos de duas semanas do início do Mundial.

A comissão técnica francesa tratou o amistoso como laboratório. Deschamps promoveu dez alterações ao longo da partida, testou diferentes formações e observou alternativas ao esquema base em 4-1-4-1. O problema é que o laboratório explodiu: Thuram levou perigo em pelo menos três ocasiões sem converter, e aos 84 minutos, Diallo se antecipou à defesa e finalizou de pé direito para selar a virada. O Beaujoire silenciou. A França, que busca seu terceiro título mundial após 1998 e 2018, entra no Grupo I ao lado de Iraque, Noruega e Senegal com um sinal de alerta aceso na comissão técnica.

"Fim de série e inquietações para os Bleus nesta preparação", registrou o L'Équipe logo após o apito final — um diagnóstico seco para uma noite que prometia ser ensaio geral e virou derrota para o arquivo.

O que muda para Costa do Marfim e França na reta final de preparação

Para os Elefantes, a vitória tem peso psicológico concreto: derrotar uma das principais seleções do mundo às vésperas de uma Copa é o tipo de resultado que entra no vestiário e não sai mais. O técnico Emerse Faé utilizou um 4-4-2 com Kessié no meio e Wahi na frente, e a equipe mostrou organização para suportar o primeiro tempo difícil e crescer quando o adversário rotacionou demais.

A França, por sua vez, ainda tem um amistoso pela frente antes da estreia no Mundial: recebe a Irlanda do Norte na próxima segunda-feira (8), em Lille, às 21h10 — adversário sem Copa do Mundo, o que torna o jogo mais um teste de afinação do que de pressão real. Désiré Doué deve ter mais minutos. Mas a noite de Nantes ficou com o irmão mais velho.

Num canto do vestiário do Beaujoire, a camisa 11 da Costa do Marfim com o número 53 no marcador já era história. Guéla Doué cruzou o corredor com a bola embaixo do braço, e em matéria do SportNavo, ninguém ainda sabe se o irmão mais novo foi o primeiro a mandar mensagem.