Treinar um clube pequeno numa competição grande é, paradoxalmente, a tarefa mais difícil — e a que mais revela um treinador. Gustavo Alberto Lema, nascido em novembro de 1968, compreendeu isso antes de o futebol sul-americano ter uma linguagem para descrever o fenômeno.

O esquema que ele sempre busca rodar

Há uma coerência quase incômoda na maneira como Audax Italiano se posiciona em campo sob o comando de Lema. O bloco é compacto, a linha defensiva alta o suficiente para comprimir o espaço entre as linhas, e a transição para o ataque acontece em poucos toques — o que, para quem acompanhou o futebol europeu da última década, lembra menos o tiki-taka de Guardiola e mais o modelo de pressing alto que Klopp popularizou em Liverpool e que hoje contamina boa parte dos clubes que disputam a Copa Sudamericana. Lema não chegou a esse sistema por imitação: chegou por convicção, que é a única maneira de fazê-lo funcionar de verdade.

O esquema preferido organiza o time em três linhas bem definidas, com um meio-campo de três que opera em triângulo — ora com a ponta voltada para baixo, protegendo a saída de bola, ora invertida, alimentando os atacantes em profundidade. Essa flexibilidade dentro de uma estrutura fixa é o que distingue treinadores de método de treinadores de circunstância.

Como ele monta o time dentro desse esquema

A montagem do time por Lema segue uma lógica que privilegia a leitura coletiva sobre o talento individual isolado. Jogadores que entendem o posicionamento sem bola têm prioridade — e isso, num contexto sul-americano onde o futebol ainda supervaloriza a genialidade individual, representa uma escolha editorial clara sobre o que é futebol moderno.

O lateral, em seu modelo, não é um defensor que eventualmente avança: é um meio-campista que eventualmente recua. Essa distinção, aparentemente semântica, muda tudo na hora de escalar, de treinar e de cobrar. O volante de contenção precisa ser mais inteligente do que rápido — precisa antecipar, não apenas reagir. E o centroavante precisa ser o primeiro defensor da equipe, pressionando a saída de bola adversária antes que a jogada se desenvolva. É gegenpressing aplicado ao orçamento de um clube chileno numa competição continental, o que é, convenhamos, uma ambição considerável.

Gustavo Alberto Lema (Audax Italiano)
Gustavo Alberto Lema (Audax Italiano)

Onde o esquema funciona melhor (e onde quebra)

O modelo de Lema funciona excepcionalmente bem contra equipes que gostam de construir desde o goleiro — times que precisam de tempo e espaço para organizar o jogo. Contra esses adversários, o pressing alto do Audax Italiano transforma o campo numa armadilha: a bola recuperada perto da área adversária encurta a distância entre erro e gol de uma forma que clubes com maior orçamento demoram a compreender.

A fragilidade aparece quando o adversário resolve o pressing com qualidade técnica individual ou com bolas longas precisas — situação em que a linha alta fica exposta e a velocidade dos atacantes contrários passa a ser o fator decisivo. A distância entre o zagueiro e o goleiro, nesse momento, pode ser tão grande quanto a que separa Manaus de Salvador, e qualquer erro de posicionamento custa caro. Esse é o risco calculado que Lema aceita como parte do contrato tático que assina com seus jogadores.

Treinadores que optam por blocos baixos conseguem minimizar esse risco — mas abrem mão da iniciativa, da intensidade e, no médio prazo, da identidade. Lema, ao que os jogos do Audax Italiano na Copa Sudamericana de 2026 indicam, não está disposto a fazer essa troca. Comentado em matéria do SportNavo quando o clube avançou nas primeiras fases da competição, o time manteve a estrutura ofensiva mesmo em condições adversas, o que é uma assinatura reconhecível de treinador com convicção.

Os jogadores que ele privilegia para fazer funcionar

Lema tem um tipo claro de jogador que ele privilegia, e esse tipo raramente é o mais caro ou o mais famoso do elenco. É o jogador que corre quando não tem a bola, que fecha o espaço quando o adversário está em transição, e que entende que pressionar um zagueiro no minuto 80 é tão importante quanto criar uma chance de gol no minuto 20.

Os meias que ele escalou ao longo da campanha na Copa Sudamericana têm em comum a capacidade de circular rapidamente — de receber de costas, girar e progredir em dois ou três toques. Não é o meia-dez clássico do futebol sul-americano; é o meia de transição que o futebol europeu normalizou há pelo menos uma década e que ainda encontra resistência cultural em parte do continente.

Os laterais precisam ter pulmão e coragem tática — avançar quando a equipe está com a bola, recuar quando perde, e fazer esse ciclo repetido dezenas de vezes por jogo sem perder a qualidade de execução. É uma demanda física e cognitiva alta, e o fato de o Audax Italiano mantê-la numa competição continental diz algo concreto sobre o trabalho de preparação que Lema realiza nos treinos.

Gustavo Alberto Lema (Audax Italiano)
Gustavo Alberto Lema (Audax Italiano)
  • Volante de leitura: preferência por jogadores que antecipam e interceptam, não apenas marcam
  • Lateral como ala: presença ofensiva constante, recuo disciplinado
  • Centroavante pressionador: primeiro defensor, não apenas finalizador
  • Meia de transição: circulação rápida, poucos toques, progressão vertical

Gustavo Alberto Lema tem 57 anos e um método que resiste ao tamanho do clube que comanda — O sistema está maduro e rodando. Falta, agora, o palco que o confirme ao continente.