Todo mundo sabe que o México vai estrear a Copa do Mundo em casa, no Azteca, no dia 11 de junho, contra a África do Sul. O que pouca gente conta é o que aconteceu nos bastidores para chegar até aqui — e por que a Federação Mexicana de Futebol (FMF) precisou de uma punição da Fifa, poucos dias antes da abertura, para finalmente colocar Hugo Sánchez na frente das câmeras com uma mensagem que o futebol mexicano devia há duas décadas.
A Fifa bloqueou ingressos e a FMF lançou uma campanha no mesmo dia
Na sexta-feira, 22 de maio, a FMF confirmou que recebeu uma sanção da Fifa relativa a cânticos homofóbicos registrados nos amistosos contra Equador e Paraguai, disputados em outubro e novembro de 2025. A punição foi direta: bloqueio na venda de ingressos para determinados setores do Estádio Cuauhtémoc, em Puebla, onde o México enfrenta Gana nesta mesma data. Nas arquibancadas bloqueadas, faixas com o slogan "Ola sí, el grito no" cobriram os assentos vazios — uma imagem que resume, em pixels, o tamanho do problema.
A campanha havia sido lançada oficialmente na quinta-feira, um dia antes da sanção ser tornada pública. O timing não é coincidência: a FMF anunciou a ação "A ola, sim, o grito, não" com Hugo Sánchez, Javier Aguirre e outros membros do elenco de 1986 justamente quando o cerco institucional se fechava. Na Copa de 2018, na Rússia, a entidade já havia sido multada em US$ 10 mil após a estreia contra a Alemanha. No Catar, em 2022, a conta subiu para 100 mil francos suíços — cerca de R$ 500 mil.
"A FMF apresenta uma nova campanha para incentivar o apoio nos estádios: #ALaOndaSimAoGritoNão. 'A Ola' é uma linda maneira de apoiar, que nos caracteriza como torcida desde 1986, como contam os jogadores da seleção daquele ano."
Vinte anos de grito 'puto' mostram por que a ola precisa de dados, não só de nostalgia
O cântico discriminatório — o "eeeeh, puto" direcionado ao goleiro adversário no momento do tiro de meta — apareceu pela primeira vez em partidas oficiais da seleção no torneio pré-olímpico de 2004. Ganhou escala global na Copa do Brasil, em 2014, e nunca mais saiu. Em 2024, durante amistoso nos Estados Unidos, o goleiro Alisson foi o alvo. A partida foi paralisada aos 13 minutos do segundo tempo e o telão exibiu mensagem pedindo a interrupção das ofensas.

Do ponto de vista comportamental, o caso mexicano tem uma métrica interessante que analistas de dados esportivos costumam ignorar: a persistência de um comportamento de torcida mesmo sob punição financeira crescente. No SportNavo, mapeamos as sanções: multa em 2018 (US$ 10 mil), multa em 2022 (100 mil francos suíços) e agora bloqueio de ingressos em 2026. A escalada sugere que punições puramente financeiras têm baixo efeito de dissuasão quando o comportamento está enraizado em ritual coletivo — o grito funciona como um trigger automático no momento do tiro de meta, independente de contexto competitivo.
A Concacaf e a FMF já haviam criado um protocolo de três fases para seus torneios: interrupção da partida, retirada temporária dos jogadores para o vestiário e suspensão definitiva do jogo. Quando faz a interrupção acontecer, o protocolo gera constrangimento público imediato. Quando gera constrangimento público, a pressão social sobre os próprios torcedores aumenta — e é exatamente esse o mecanismo que a campanha tenta ativar com a substituição pela ola.
A ola como ferramenta de redirecionamento coletivo antes do Azteca
A escolha da ola como símbolo não é arbitrária. O movimento — espectadores que se levantam brevemente com os braços erguidos, criando uma onda que percorre as arquibancadas — foi popularizado globalmente durante o Mundial de 1986, no México, e virou marca registrada da torcida do país. Usar esse patrimônio cultural como substituto direto ao grito é uma estratégia de behavioral nudge: redirecionar energia existente para um canal diferente, sem pedir que a torcida simplesmente fique em silêncio.
Quando faz a campanha estruturada em duas etapas, a FMF demonstra um nível de planejamento acima do habitual. A primeira fase, de 21 a 31 de maio, traz jogadores como Fernando Quirarte e Luis Flores. A segunda, de 1º a 30 de junho, coloca Hugo Sánchez e Javier Aguirre como porta-vozes principais — os nomes de maior apelo emocional para a torcida mexicana. A veiculação acontece em plataformas digitais e nos últimos amistosos de preparação: contra Gana (22 de maio, em Puebla), Austrália (30 de maio, em Pasadena) e Sérvia (4 de junho, em Toluca).
"Esta campanha visa conscientizar os torcedores sobre a importância de apoiar a seleção mexicana com 'a ola', em vez de fazê-lo com cânticos discriminatórios, os quais estão sujeitos a sanções da Fifa", comunicou a FMF.
O México está no Grupo A ao lado de África do Sul, Coreia do Sul e República Tcheca. A estreia no Azteca, no dia 11 de junho, será o primeiro jogo da Copa — e o palco mais simbólico possível para medir se a ola de 1986 tem força suficiente para silenciar um grito que dura desde 2004. Se os setores bloqueados em Puebla voltarem a ter ingressos disponíveis e os próximos amistosos passarem sem incidentes, a FMF terá o argumento que precisa para mostrar à Fifa que a campanha funciona. Se o grito aparecer no Azteca no dia da abertura, com o mundo inteiro assistindo, a punição seguinte pode ser muito mais do que setores bloqueados — e aí a pergunta concreta é: a Fifa aplicaria portões fechados em um jogo de estreia de Copa do Mundo, com o país-sede em campo?








