Quarta-feira, 3 de junho de 2026. Cerca de 200 torcedores vestidos de amarelo acompanhavam, do outro lado das grades do Columbia Park Training, em Morristown, Nova Jersey, uma cena que pode definir o Brasil da Copa do Mundo: Carlo Ancelotti parado na beira do campo, observando Lucas Paquetá circulando pelo lado direito do ataque enquanto Igor Thiago ocupava o centro da área.

O treino foi aberto ao público por exigência da FIFA, que impõe às seleções participantes uma ação de integração com as comunidades locais durante a competição. Mas o que aconteceu dentro do gramado não tinha nada de protocolar. Ancelotti promoveu alterações em todos os setores — defesa, meio e ataque — e deixou dúvidas reais sobre quem vai a campo no amistoso contra o Egito.

SERÁ QUE VAI TER PRESSÃO NA SELEÇÃO BRASILEIRA? 👀🇭🇹🇧🇷 #shorts

O que levou Ancelotti a mexer no time antes do Egito

O ponto de partida foi a ausência de Thiago Silva e a liberação de Marquinhos e Gabriel Magalhães da final da Champions League. Os dois zagueiros não estiveram disponíveis no amistoso contra o Panamá — goleada por 6 a 2 — e agora voltam à disputa pela titularidade. A dupla apareceu entre os titulares no treino desta quarta e deve ser a escolha de Ancelotti para o miolo da defesa.

Na lateral esquerda, Douglas Santos ganhou espaço no lugar de Alex Sandro, o que representa uma mudança de perfil: mais dinâmico, com capacidade maior de fazer sobreposição. Quem acompanha as métricas de progressive passes (passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário) sabe que esse tipo de lateral muda completamente a largura do jogo — e abre espaço para o meia-atacante que joga pelo mesmo lado recuar e conectar o meio.

Segundo o capitão Marquinhos, a experiência recente com o PSG no Mundial de Clubes de 2025 serve de referência direta para a preparação.

"O calor, o cansaço e o desgaste foram fatores importantes, principalmente para quem chegou até a final. Uma final jogada à tarde, em um calor absurdo. Foram fatores que influenciaram nos resultados e no jogo", disse o zagueiro em entrevista nesta quarta-feira.

A final da Copa do Mundo de 2026 está marcada para a tarde de 19 de julho, no MetLife Stadium — o mesmo estádio onde o PSG perdeu por 3 a 0 para o Chelsea na decisão do Mundial de Clubes. Coincidência que Ancelotti e Marquinhos certamente não ignoram.

O que levou Ancelotti a mexer no time antes do Egito Igor Thiago e Paquetá ganha
O que levou Ancelotti a mexer no time antes do Egito Igor Thiago e Paquetá ganha

Paquetá pelo lado direito e o que os números dizem sobre Igor Thiago

A movimentação mais interessante do treino foi a de Igor Thiago no comando do ataque. O centroavante do Club Brugge — que marcou 19 gols na Premier League 2025/26 — assumiu a vaga de Matheus Cunha, que vinha sendo testado como referência ofensiva.

A diferença entre os dois passa por um dado simples de xG (expected goals), a métrica que mede a qualidade das chances criadas a partir da posição e do tipo de finalização. Igor Thiago tem um perfil de centroavante que finaliza de dentro da área, com alto xG por chute — o que significa que ele converte oportunidades de alta probabilidade com consistência. Matheus Cunha, por sua vez, gera mais volume, mas com xG por chute menor, priorizando movimentação e construção.

Para um Brasil que quer ser mais direto e vertical na Copa do Mundo, a escolha por Igor Thiago faz sentido tático. E a goleada sobre o Panamá reforçou essa impressão: o atacante participou ativamente das jogadas de transição rápida.

Já Paquetá apareceu aberto pelo lado direito, mas com liberdade para circular pelo centro — o que, na prática, libera Wesley para avançar constantemente pelo corredor. Esse tipo de movimentação se encaixa no conceito de pass network, a rede de conexões entre jogadores que define como o time circula a bola. Com Paquetá flutuando entre as linhas, o Brasil ganha um ponto de conexão entre o meio-campo e o ataque que Luiz Henrique, por exemplo, não oferece da mesma forma.

Luiz Henrique, aliás, foi retirado dos titulares durante os testes desta quarta-feira.

  • xG por 90 minutos de Igor Thiago na temporada 2025/26: consistentemente acima de 0.55 — entre os melhores da Premier League na posição
  • Progressive passes de Paquetá no West Ham: média de 6.2 por 90 min, reflexo do papel de construção que Ancelotti quer dele
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva) do Brasil contra o Panamá: abaixo de 8, indicando pressão alta eficiente — esquema que favorece centroavantes que pressionam a saída de bola

O que muda no panorama do Brasil depois desse treino

A estrutura tática de Ancelotti não sofreu alteração significativa — o 4-2-3-1 segue como base. O que mudou foi o perfil dos jogadores dentro desse esquema, e isso tem peso real. Como registrado pelo SportNavo ao longo da preparação, o técnico italiano tem testado variações de peças sem mexer no sistema, o que é coerente com sua filosofia de gestão de elenco.

Alisson segue como goleiro titular absoluto. Apesar de críticas à sua forma física recente — inclusive após o treino aberto desta quarta, quando foi superado em finalizações de Matheus Cunha e Martinelli —, o camisa 1 chega à sua terceira Copa do Mundo como titular, igualando Gilmar e Taffarel.

"Chego bem para a Copa. Tive uma lesão com uma gravidade maior, mas trabalhei muito para estar 100% no Mundial", afirmou o goleiro do Liverpool.

O amistoso contra o Egito, último teste antes da estreia no Mundial, serve como vitrine final para Ancelotti bater o martelo. Com Marquinhos e Gabriel Magalhães de volta, a zaga ganha solidez. Com Douglas Santos na esquerda e Wesley na direita, o Brasil tem laterais com perfil mais ofensivo. E com Paquetá e Igor Thiago testados entre os titulares, a frente de ataque pode ter uma cara completamente diferente da que estreou contra o Panamá.

Quem não tem cão caça com gato — e Ancelotti, sem Neymar disponível para a viagem a Cleveland, encontrou em Paquetá e Igor Thiago duas respostas que, pelos números, fazem sentido. O amistoso contra o Egito acontece nos próximos dias, ainda nos Estados Unidos, antes da estreia do Brasil na fase de grupos da Copa do Mundo.

Uma receita não se define pelos ingredientes separados, mas pelo ponto certo de cozimento — e Ancelotti ainda está ajustando o fogo.