Quando o árbitro apitou o encerramento do jogo no Estádio UNO, em La Plata, o placar de 1 a 1 entre Estudiantes e Flamengo gerou reações bem distintas nas duas margens do Rio da Prata. Do lado argentino, os principais veículos esportivos do país — Olé, Infobae e Rádio Mitre entre eles — trataram o resultado como uma espécie de conquista moral, enquanto reservavam espaço considerável para um tema que transcende a Libertadores: a fratura na clavícula de Arrascaeta e o fantasma que ela lança sobre a Copa do Mundo.

O ponto que a Argentina leu como vitória

Há uma lógica particular na forma como o futebol sul-americano se enxerga. Empatar em casa costuma ser sinônimo de tropeço, mas a equação muda completamente quando o visitante carrega a reputação de bicho-papão do continente. O Olé, tablóide esportivo de Buenos Aires que funciona como espécie de bíblia do torcedor argentino — algo próximo ao papel que o Sport de Barcelona cumpre na Catalunha —, foi direto ao ponto.

"De frente para o campeão da Libertadores, o bicho-papão da América do Sul. Se um ponto em casa parecia atraente antes, tornou-se ainda mais depois que o Estudiantes começou sofrendo um gol nos próprios domínios", escreveu o Olé.

O gol que abriu o marcador foi construído com a qualidade que o Flamengo costuma exibir nas noites de Libertadores: Luiz Araújo finalizou sem marcação após uma jogada brilhante de Bruno Henrique, conforme narrou o próprio Olé. O clube carioca, porém, recuou nos minutos finais e cedeu o empate — e ali a narrativa argentina se inverteu definitivamente.

O ponto que a Argentina leu como vitória Imprensa argentina vê empate do Estudia
O ponto que a Argentina leu como vitória Imprensa argentina vê empate do Estudia

Agustín Rossi, o herói que os argentinos reivindicam

Curiosamente, parte do protagonismo da noite ficou com um argentino que defende as cores do Flamengo. O goleiro Agustín Rossi foi exaltado tanto pelo Olé quanto pelo Infobae, portal digital de grande penetração no país. Na cobertura do Infobae, o arqueiro foi descrito como decisivo ao realizar duas defesas fundamentais na reta final da partida, justamente quando o Estudiantes pressionava em busca da virada no Estádio UNO. Rossi carrega aquela característica do goalkeeper de alto nível europeu: a capacidade de crescer nos momentos de maior pressing adversário, transformando a pressão em nulidade.

"O arqueiro argentino foi decisivo ao fazer duas defesas importantes na reta final da partida, quando o Estudiantes buscava a virada no placar no Estádio UNO", afirmou o Infobae.

A sombra sobre Arrascaeta e a seleção uruguaia

A lesão de Arrascaeta foi o tema que ganhou conotação além das fronteiras da Libertadores. O meia uruguaio fraturou a clavícula durante o jogo da terceira rodada do Grupo A, e a gravidade do diagnóstico reacendeu um debate que já circulava nos bastidores: qual é o grau de dependência da seleção uruguaia em relação ao camisa 14 do Flamengo?

A Rádio Mitre, uma das emissoras de maior audiência da Argentina, colocou números na discussão. Sob o comando de Marcelo Bielsa — o técnico rosarino que transformou a seleção celeste numa máquina de gegenpressing sul-americano —, Arrascaeta havia marcado três gols em 17 partidas, uma taxa que o Mitre classificou como recorde e evidência de sua importância ofensiva para o esquema do Loco.

"A lesão ocorreu em La Plata e colocou em dúvida a participação do meia no torneio. Sob o comando de Marcelo Bielsa, o atleta marcou três gols em 17 partidas, um recorde que demonstra a importância ofensiva para a seleção", analisou a Rádio Mitre.

A preocupação dos veículos argentinos tem lógica geopolítica clara: uma seleção uruguaia enfraquecida modifica o equilíbrio de forças no Grupo C das Eliminatórias Sul-Americanas, onde Argentina e Uruguai historicamente disputam a hegemonia regional. Conforme análise exclusiva do SportNavo, o tempo de recuperação de uma fratura de clavícula varia entre seis e dez semanas dependendo do tratamento — o que coloca a participação do jogador nas próximas rodadas das Eliminatórias sob real interrogação, para além da própria continuidade na Libertadores.

O Flamengo entre dois torneios e uma baixa sensível

Para o Flamengo, o empate em La Plata mantém a equipe no Grupo A da Libertadores com situação administrável, mas a ausência de Arrascaeta pesa em qualquer avaliação honesta do plantel. O meia uruguaio opera no espaço entre linhas com uma fluidez que remete ao papel do enganche clássico do futebol rioplatense — esse jogador que conecta a construção ao último terço com elegância e imprevisibilidade. Substituí-lo não é uma questão de posição no campo, mas de perfil e timing de jogo.

O levantamento do SportNavo aponta que, nas partidas de 2025 em que Arrascaeta atuou os 90 minutos pela equipe carioca, o índice de criação de chances do Flamengo superou significativamente a média registrada nos jogos sem o camisa 14. A dependência é real e os números a sustentam.

O Flamengo volta a campo no domingo, dia 3, quando enfrenta o Vasco no Maracanã, às 16h (horário de Brasília), pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro — um clássico que já exigiria atenção máxima, e que chega num momento em que o clube precisa gerir o calendário sem uma de suas peças mais criativas.