Todo mundo já sabe que Juan Manuel Cerúndolo derrubou Jannik Sinner em Roland Garros nesta quinta-feira, 28 de maio. O que pouca gente viu chegando foi a dimensão daquele momento: não era apenas um azarão batendo o favorito. Era a segunda metade de um feito que a história do tênis na Era Aberta nunca havia registrado — dois irmãos avançando juntos à terceira rodada do torneio mais exigente do saibro mundial.

O vestiário que Buenos Aires construiu ao longo de anos

A família Cerúndolo não chegou a Roland Garros 2026 por acaso. Francisco, o mais velho, é o cabeça de chave número 25 desta edição — um status construído partida a partida desde que estreou no circuito principal. Juan Manuel, três anos mais novo, escalou o ranking com a consistência de quem aprendeu o ofício dentro de casa, em quadras de Buenos Aires onde o saibro é quase uma segunda língua. Os dois cresceram num ambiente em que o tênis era idioma doméstico, não hobby de fim de semana.

O tênis argentino tem tradição de produzir especialistas no saibro — de Guillermo Vilas, que venceu Roland Garros em 1977, a David Nalbandian e Juan Martín del Potro, que moldaram gerações inteiras. Os Cerúndolo herdam essa linhagem, mas acrescentam algo que nenhum outro par de irmãos havia conseguido: a sincronia de chegar juntos ao mesmo estágio de um Grand Slam. Na Era Aberta, iniciada em 1968, isso simplesmente não havia acontecido em Paris.

Juan Manuel na quadra, Sinner na beira do abismo

A partida de Juan Manuel contra Sinner durou cinco sets e se estendeu sob o calor intenso que castigou as quadras parisienses nesta quinta-feira. O número 1 do mundo não escondeu o desgaste físico.

"Ninguém é um robô, não tive energia hoje. É uma coisa que pode acontecer", disse Sinner após a derrota.
A frase, honesta na sua simplicidade, não diminui o mérito do argentino — que soube explorar cada centímetro de incerteza que o adversário apresentou.

A eliminação de Sinner muda o desenho do torneio de forma radical. Com Carlos Alcaraz já ausente por lesão antes mesmo de começar, o chaveamento masculino perdeu seus dois primeiros colocados do ranking antes da terceira rodada. Quem sobrou em melhor posição para aproveitar o vácuo foi Novak Djokovic, que completou 39 anos na semana passada e venceu suas duas primeiras partidas em quatro sets cada. O sérvio, em busca do 25º título de Grand Slam — número que seria recorde absoluto na história do esporte —, terá pela frente o brasileiro João Fonseca, 19 anos e 28º cabeça de chave, na terceira rodada desta sexta-feira.

"Quero dizer, estar em Roland Garros, na terceira rodada, para mim é apenas um sonho. Vou aproveitar cada momento jogando contra um ídolo, o maior ídolo do esporte... é claro que vou respeitá-lo, mas vou tentar fazer o meu melhor e vencer essa partida", declarou Fonseca.

Fonseca não é novidade no cenário de grandes duelos: em março, em Indian Wells, levou Sinner — então número 1 — à beira da eliminação antes de ceder nos tie-breaks dos dois sets finais. Na segunda rodada em Paris, superou Dino Prizmic de virada, saindo de uma desvantagem de dois sets. O confronto com Djokovic, portanto, não será de deferência — será de competição real.

Francisco vira o jogo e a história se fecha em família

Enquanto Juan Manuel escrevia seu capítulo mais importante, Francisco tratava de garantir que o feito fosse coletivo. Diante do francês Hugo Gaston, com a pressão adicional de jogar contra o público da casa, o argentino perdeu o primeiro set por 2 a 6 e precisou reorganizar o jogo. A virada veio com autoridade: 6 a 4 no segundo, 6 a 2 no terceiro e 6 a 1 no quarto. Quando o placar final se fechou, os dois Cerúndolo estavam na terceira rodada — um feito que o levantamento do SportNavo sobre os registros históricos de Roland Garros confirma ser inédito entre irmãos na Era Aberta.

No lado feminino, Iga Swiatek avança em busca do quinto título em Paris, mas com rachaduras visíveis. A polonesa cometeu 38 erros não forçados em dois sets contra Sara Bejlek na segunda rodada — número alarmante para uma jogadora de seu calibre. Na terceira rodada, ela enfrentará sua compatriota Magda Linette, que a surpreendeu no Aberto de Miami em março aproveitando exatamente esse tipo de instabilidade: Swiatek havia cometido 40 erros não forçados naquela ocasião. O padrão se repete, e Linette, que nunca passou da terceira rodada em Roland Garros, chega com um mapa detalhado das fragilidades da adversária.

O tênis argentino, que desde Del Potro esperava uma nova geração capaz de disputar as rodadas decisivas dos Grands Slams, encontrou nos Cerúndolo algo que vai além do resultado individual. Quem caça com dois cães ao mesmo tempo tem o dobro de chances — e Buenos Aires, neste Roland Garros, mandou os dois para a mesma floresta. Juan Manuel aguarda seu próximo adversário na terceira rodada. Francisco também. Paris, por enquanto, é uma cidade com sotaque portenho.

A terceira rodada começa nesta sexta-feira, 29 de maio. O chaveamento masculino, sem Sinner e sem Alcaraz, está mais aberto do que em qualquer Roland Garros dos últimos anos — e os dois irmãos de Buenos Aires estão bem no meio dessa abertura, como duas notas de uma mesma composição que ainda não chegou ao acorde final.