'O Japão é a seleção mais subestimada do mundo.' A frase pertence a Hajime Moriyasu, pronunciada com a sobriedade característica do técnico japonês durante a preparação para o Mundial. Quem acompanhou as Eliminatórias Asiáticas sabe que o homem não estava sendo modesto — estava sendo preciso.

O que o Grupo F revela antes mesmo da bola rolar no Texas

Neste domingo (14), o Holanda e o Japão se enfrentam no AT&T Stadium, em Arlington, Texas, pela abertura do Grupo F da Copa do Mundo de 2026. O encontro reúne duas seleções que dominaram seus caminhos classificatórios de formas distintas, mas com igual eficiência. A Holanda terminou as Eliminatórias Europeias com seis vitórias e dois empates em oito jogos, 27 gols marcados e apenas quatro sofridos. O Japão foi ainda mais avassalador: 54 gols em 16 partidas, com somente três gols cedidos ao longo de toda a campanha asiática — a primeira seleção fora dos países-sede a garantir classificação.

Reparemos no detalhe que esses números escondem: o Japão não apenas venceu, ele destruiu. Uma média de 3,37 gols por jogo nas eliminatórias é um número que nenhuma seleção europeia ou sul-americana conseguiu replicar em seus respectivos grupos. A ressalva sobre o nível da oposição asiática existe e é legítima — mas amistosos recentes contra Escócia e Inglaterra, ambos vencidos por 1 a 0 fora de casa, sugerem que o modelo de Moriyasu funciona além das fronteiras da Ásia.

A Holanda de Koeman e o problema dos blocos compactos

Ronald Koeman construiu uma equipe sólida, mas não infalível. Os dois empates contra a Polônia nas eliminatórias foram o sinal mais claro de uma fragilidade estrutural: a Holanda tem dificuldade quando o adversário fecha os espaços e explora transições rápidas. O empate com o Equador e, sobretudo, a derrota para a Argélia nos amistosos de preparação confirmaram o padrão. Contra blocos baixos, o time de Koeman erra passes, perde ritmo e depende de individualidades para criar desequilíbrio.

Memphis Depay, maior artilheiro da história da seleção holandesa e hoje no Corinthians, segue como referência central do ataque. Cody Gakpo, pelo lado esquerdo, é a principal arma de velocidade e finalização. Tijjani Reijnders ganhou protagonismo como motor criativo no meio-campo. O problema é que a vitória sobre o Uzbequistão, último teste antes do Mundial, veio por 2 a 1 com dois pênaltis convertidos por Gakpo — um desempenho coletivo aquém do esperado contra um adversário de menor expressão.

"Queremos jogar nosso futebol, independente do adversário", disse Koeman antes da viagem ao Texas, sinalizando que não pretende alterar o esquema mesmo diante de uma equipe tão organizada defensivamente quanto o Japão.

A questão é se esse futebol, tão dependente de espaços para Gakpo acelerar e Memphis articular, encontrará ambiente favorável contra uma equipe japonesa que combina pressão alta com transições verticais fulminantes. Nas palavras de analistas que acompanharam as eliminatórias asiáticas, o Japão de Moriyasu é o time mais difícil de pressionar em campo aberto entre todas as seleções classificadas para o torneio.

O histórico entre as seleções e o que ele não resolve

Holanda e Japão se encontraram poucas vezes na história. O único confronto em Copas do Mundo ocorreu em 2010, na África do Sul, com vitória holandesa por 1 a 0, gol de Wesley Sneijder, em partida da fase de grupos. Fora do Mundial, os holandeses acumulam vantagem histórica nos duelos diretos — mas esses números dizem muito pouco sobre o que acontecerá no AT&T Stadium em 2026, diante de gerações completamente diferentes.

O Japão atual não é o time que caiu para a Holanda em Durban. É uma seleção construída ao longo de um ciclo de quatro anos, com jogadores formados nas principais ligas europeias — a maioria atuando na Premier League, na Bundesliga e na Serie A. A profundidade do elenco japonês, combinada com a intensidade física que Moriyasu exige, transforma qualquer análise baseada em retrospecto histórico em exercício de pouca utilidade prática.

"Cada Copa é uma história diferente. Não carregamos o passado para o campo", afirmou o capitão japonês, ecoando a filosofia de um grupo que prefere construir identidade própria a depender de legado.

Em matéria do SportNavo, a análise das odds aponta a Holanda como favorita para a estreia — o que faz sentido diante do histórico europeu e do reconhecimento individual do elenco. A vitória holandesa é o cenário mais provável, mas o empate tem valor real para quem observa os padrões de jogo de ambas as equipes. O Japão, com sua disciplina tática e eficiência ofensiva comprovada, tem condições de segurar a Holanda em momentos decisivos e explorar os espaços que Koeman tende a deixar nas costas dos laterais. A pergunta que o confronto coloca — se 54 gols nas eliminatórias significam alguma coisa contra uma seleção europeia de elite — começa a ser respondida neste domingo, às 16h (horário de Brasília), no Texas.

'O Japão é a seleção mais subestimada do mundo.' A frase pertence a Moriyasu — e depois de 90 minutos no AT&T Stadium, o mundo saberá se ele continua certo.