Há algo paradoxal na maior vitória do tênis brasileiro do século: João Fonseca precisou estar perdendo para começar a ganhar. Dois sets cedidos ao maior campeão de Grand Slams da história, a Philippe-Chatrier em silêncio respeitoso diante de Novak Djokovic, e um brasileiro de 19 anos que, em vez de recuar, decidiu reescrever o roteiro. O que se seguiu nas próximas três horas e meia foi uma das remontadas mais improváveis que o saibro parisiense já testemunhou.
Djokovic soberano e a armadilha dos dois primeiros sets
Nos dois sets iniciais, o sérvio de 38 anos operou com a frieza clínica que o tornou o maior da modalidade: 24 títulos de Grand Slam, três deles conquistados exatamente neste saibro vermelho de Paris. Djokovic ditava o ritmo com o backhand de dois lados — aquela muralha que já destruiu gerações inteiras de tenistas — e neutralizava cada tentativa de Fonseca de encurtar o ângulo. Os break points surgiam e desapareciam como bolhas, e a vantagem de 2 a 0 no placar parecia encerrar qualquer debate sobre o resultado. Parecia.
Há uma cena no filme Moneyball em que o personagem de Brad Pitt diz que o momento mais difícil do beisebol não é perder — é continuar acreditando no método quando tudo indica que ele falhou. Fonseca viveu exatamente isso na Philippe-Chatrier: o método não havia falhado, apenas o placar ainda não havia lido o roteiro correto.
A virada que Djokovic não esperava e o Brasil não ousava sonhar
O terceiro set foi o ponto de inflexão. Fonseca começou a variar com mais ousadia: drop shots cirúrgicos que pararam Djokovic na linha de fundo, aces que cortaram o ar da Chatrier com precisão milimétrica, e um backhand cruzado no momento do break decisivo que arrancou a primeira onda de euforia das arquibancadas. O brasileiro venceu o terceiro set, depois o quarto, e arrastou o sérvio para um quinto set que durou o suficiente para transformar uma tarde de sexta-feira em lenda.
Ao final de 4 horas e 53 minutos, Fonseca fechou a partida em cinco sets e cumpriu o que havia prometido antes de entrar em quadra:
"Para mim, é só um sonho. Vou aproveitar cada momento jogando contra um ídolo. O GOAT deste esporte. Espero poder fazer uma grande partida, e claro, ao pisar na quadra, vou respeitá-lo, mas tentar dar o meu melhor e vencer esta partida."
Ele respeitou. E venceu.
O que Djokovic perdeu e o que o tênis brasileiro recuperou
A derrota foi apenas a segunda vez na carreira de Djokovic que o sérvio cedeu uma partida após abrir 2 a 0 em sets — a outra ocorreu em 2010, também em Roland Garros, diante do austríaco Jürgen Melzer. A raridade do feito dimensiona o que Fonseca construiu em pouco menos de cinco horas. Djokovic, sem buscar desculpas, reconheceu a grandeza do adversário ainda na rede, com um abraço caloroso e palavras que ecoaram pela imprensa europeia:
"Claro que o parabenizei. Disse que ele mereceu vencer, que jogou uma partida incrível e deve se orgulhar de si mesmo. E desejei-lhe boa sorte pelo resto do torneio. O tipo de nível de tênis que vimos ele jogar criou muito hype em torno dele. Todos nós vimos hoje por que há hype em torno dele. O nível foi incrível."
Para o Brasil, a vitória tem peso histórico quantificável: o tênis masculino nacional retorna às oitavas de um Grand Slam após 16 anos — o último havia sido Thomaz Bellucci, também em Roland Garros. Fonseca se torna ainda o mais jovem entre os quatro brasileiros a atingir essa fase do torneio parisiense no século 21, lista que inclui Gustavo Kuerten, tricampeão em 2001, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura do torneio.
O efeito cascata nas oitavas e o cenário inédito de Roland Garros
A eliminação de Djokovic, somada à ausência de Carlos Alcaraz e à queda precoce de Jannik Sinner, transforma Roland Garros numa equação sem favorito óbvio pela primeira vez em anos. O campeão que erguer a taupe em Paris será inédito no torneio — e Fonseca, o mais jovem e improvável dos candidatos, chega às oitavas com o saibro parisiense já rendido à sua tênis de viradas e nervos de aço.
O brasileiro terá pela frente, nas oitavas, uma nova prova de que a remontada contra Djokovic não foi acidente. O confronto está previsto para a primeira semana de junho, na Philippe-Chatrier — vale gravar o jogo na agenda desde já, porque o tênis brasileiro raramente oferece oportunidades assim.










