Confesso: eu errei sobre o Irã em 2022. Quando os jogadores ficaram em silêncio durante o hino no Catar, escrevi que era um gesto isolado, improvável de se repetir com a mesma intensidade. Hoje, diante de mochilas escolares cor-de-rosa erguidas no gramado de Belek, na Turquia, entendo que subestimei a determinação de um grupo de atletas que aprendeu a usar o único microfone que o regime não consegue desligar — o ritual dos 90 segundos antes do apito inicial.
No amistoso contra a Nigéria em 27 de junho, os jogadores da seleção iraniana se alinharam com braçadeiras pretas nos pulsos e mochilas escolares nas mãos, em referência direta ao ataque à Escola Shajareh Tayyebeh, que segundo Teerã matou mais de 175 pessoas, incluindo crianças e professores. O vice-presidente da federação iraniana, Mehdi Mohammad Nabi, confirmou à Reuters que a decisão foi coletiva:
"Eles foram profundamente afetados pelo bombardeio da escola de meninas e queriam expressar sua solidariedade. Essa foi uma decisão coletiva da equipe. Estamos unidos."Quando um dirigente oficial de uma federação ligada ao Estado descreve um gesto de protesto como decisão coletiva, o sinal é claro: o vestiário chegou a um ponto em que o custo do silêncio superou o custo da dissidência.
O que os jogadores iranianos arriscam cada vez que erguem um símbolo
Reparemos no detalhe histórico: a resistência silenciosa de atletas em Copas do Mundo não é novidade, mas raramente vem de dentro de um regime teocrático com aparato de vigilância tão capilar. Em 1978, os jogadores argentinos ergueram a taça enquanto a ditadura de Videla usava o torneio como vitrine — o inverso do que ocorre aqui, onde são os atletas que tentam subverter a narrativa oficial. Em 1998, o Irã entregou flores brancas aos americanos antes do jogo em Lyon, num gesto diplomático orquestrado pelo governo. Em 2022, o silêncio durante o hino foi punido com pressão sobre as famílias dos jogadores, segundo relatos de organizações de direitos humanos. Agora, em 2026, as mochilas escolares representam um salto qualitativo: o protesto ganhou objeto concreto, cor e narrativa própria.
O precedente de 2022 no Catar já havia mostrado a fragilidade do controle iraniano sobre seus atletas fora do país. Torcedores que tentaram entrar no Estádio Khalifa com a antiga bandeira persa — aquela utilizada antes da Revolução de 1979 — foram barrados pela segurança e retidos por algumas horas, abordados por oficiais tanto do Catar quanto do próprio Irã. O símbolo pré-revolucionário é proibido em território iraniano desde a queda do Xá, mas sua presença nas arquibancadas de uma Copa funciona como um termômetro da diáspora: quanto maior o risco que os torcedores aceitam correr, mais alto está a temperatura política interna.
A ameaça do ministro e o jogo de Seattle como epicentro
O ministro do Esporte e da Juventude do Irã, Ahmad Donyamali, foi explícito ao falar à imprensa local:
"Se bandeiras não oficiais forem trazidas ou slogans contra a seleção nacional forem entoados nos estádios onde o Irã joga na Copa do Mundo, o técnico será definitivamente responsável por interromper a partida."A declaração é juridicamente absurda — nenhum regulamento da FIFA permite que uma equipe abandone o campo por razões políticas sem punições severas, incluindo eliminação e multas — mas politicamente calculada: serve para o consumo interno, sinalizando ao eleitorado conservador que o regime não capitula diante de pressão estrangeira.
O foco da tensão está no jogo contra o Egito em Seattle, no dia 26 de junho, dentro do Copa do Mundo. Os organizadores locais batizaram a partida de "Partida do Orgulho", coincidindo com o fim de semana do Pride da cidade. As federações do Irã e do Egito já haviam enviado carta formal à FIFA em dezembro de 2025 pedindo que a entidade evitasse atividades relacionadas à causa LGBT+ durante o duelo. O presidente da Federação Iraniana, Mehdi Taj, chegou a classificar a designação como "conduta irracional que apoia um grupo específico". Donyamali afirmou ter recebido garantias da FIFA de que nenhum incidente ocorreria no Lumen Field — garantia que a entidade, historicamente avessa a confrontos com governos membros, certamente não colocará por escrito.
Há aqui uma geometria política que lembra, guardadas as proporções, o Mundial de 1986 no México, quando a FIFA navegou entre pressões de governos, patrocinadores e movimentos sociais sem jamais assumir posição clara. Gianni Infantino, que pediu à imprensa para "chill and relax" no início da Copa, enfrenta agora uma crise que não se resolve com relações públicas: de um lado, um governo que ameaça interromper jogos; do outro, torcedores e ativistas que planejam exibir bandeiras arco-íris num estádio americano com proteção constitucional à liberdade de expressão.

O silêncio como idioma e o que vem depois de Seattle
O protesto das mochilas em Belek não surgiu do nada. No início de junho, jogadoras do time feminino iraniano ficaram em silêncio durante o hino na Copa da Ásia — e a TV estatal de Teerã as chamou de "traidoras". A palavra é reveladora: quando um Estado precisa chamar suas atletas de traidoras por ficarem quietas, é porque o silêncio já se tornou um idioma de resistência mais eficaz do que qualquer discurso. É como uma tempestade que não troveja — o céu fecha, a pressão cai, e todo mundo sabe o que está por vir, mas o regime não consegue processar o que não tem som.
A situação logística da delegação iraniana agrava o contexto político. O Departamento de Segurança Interna dos EUA autorizou a entrada da equipe apenas um dia antes de cada partida, o que significa que o Irã estreou contra a Nova Zelândia em Los Angeles no dia 15 de junho com preparação mínima em solo americano. Em abril, grupos de ativistas protestaram do lado de fora do Congresso da FIFA em Vancouver pedindo a exclusão do Irã, alegando que a seleção representa a Guarda Revolucionária Islâmica. A FIFA rejeitou o pedido, mas o debate não fechou — e Seattle, no dia 26 de junho, será o próximo capítulo concreto dessa disputa que mistura futebol, geopolítica e direitos humanos num mesmo gramado. Qualquer gesto dos jogadores iranianos antes do apito inicial contra o Egito — um silêncio, uma braçadeira, uma mochila — terá mais audiência do que qualquer declaração do ministro Donyamali.








