Falhou. Não no boxe — lá, Anthony Joshua acumulou evidências suficientes para sustentar qualquer argumento favorável. Falhou, porém, em resistir à tentação de olhar para o outro lado da cerca. Em entrevista ao podcast Mr Verzace, o britânico de 34 anos jogou a pergunta no ar com a naturalidade de quem já calculou o risco:
"Acredite, eu estava pensando: por que não entrar no território deles? Porque eles ficam vindo para o nosso território. Seria bom se um de nós fosse para aquele lado e víssemos como nos saímos por lá."
A declaração não é mero discurso de divulgação. Joshua acabou de nocautear Francis Ngannou em dois rounds — em março de 2024, em Riad — e vem de vitória sobre Jake Paul. O currículo recente dá confiança. O problema é que confiança não substitui wrestling defense, e o cage tem uma forma muito particular de cobrar essa conta.
O que a história de boxeadores no MMA ensina sobre Joshua
Dois ex-campeões de boxe fizeram essa travessia com resultados completamente opostos. Holly Holm chegou ao UFC em 2015 e, menos de um ano depois, nocauteou Ronda Rousey com um chute na cabeça que parou o mundo — mas Holm tinha base sólida em kickboxing e taekwondo, o que acelerou drasticamente sua adaptação ao jogo de distância no cage. James Toney fez o caminho contrário: entrou no UFC em 2010, foi levado ao chão por Randy Couture em 3 minutos e 19 segundos e nunca mais voltou ao octógono.
A diferença entre os dois casos é exatamente o ponto onde Joshua seria testado primeiro: o grappling. Com 1,98m de altura e 108 kg, o britânico tem reach de 208 cm — um dos maiores entre os pesos-pesados ativos em qualquer modalidade. Essa envergadura é uma vantagem brutal no boxe. No MMA, ela aumenta a área de exposição para takedowns de dupla, especialmente quando o adversário consegue fechar a distância e trabalhar na clinch.
Ngannou, para comparação, tem wrestling defense de 81% no UFC — e mesmo assim foi dominado no chão por Stipe Miocic em 2018 antes de corrigir o jogo. Joshua nunca passou por nada parecido. Treinar socos por 15 anos cria memória muscular que briga contra a postura de base no MMA, onde o centro de gravidade precisa ser mais baixo e os braços não podem ficar levantados em guarda de boxe sem expor as pernas para chutes baixos.
As armas de Joshua que funcionariam e as que precisariam ser reinventadas
Tem coisa que transfere. O jab de Joshua é uma das ferramentas mais eficientes do boxe pesado contemporâneo — ele conectou 48% dos seus jabs contra Ngannou, número que pouquíssimos peso-pesados conseguem manter contra um lutador daquele porte. Distância, timing e consciência espacial são habilidades que o MMA aproveita. O poder de nocaute também: Joshua tem 24 vitórias por KO em 28 lutas, e um peso-pesado com esse histórico de finalização por impacto nunca é irrelevante dentro de um cage.

O problema está na transição. Striking accuracy no MMA cai em média 30% em relação ao boxe profissional — e isso acontece porque os lutadores precisam se preocupar simultaneamente com quedas, cotoveladas, joelhadas e a possibilidade de o adversário mudar de nível a qualquer momento. Joshua nunca defendeu uma entrada de double-leg em situação de combate real. Nunca trabalhou guard pass. Nunca precisou se levantar de uma posição de ground and pound com um adversário de 110 kg em cima.
Seria injusto chamar de limitação técnica intransponível — mas é uma limitação técnica em escala que leva anos, não meses, para ser corrigida em nível competitivo.
Quanto valeriam esses atributos contra um Jon Jones, um Tom Aspinall ou um Ciryl Gane? Provavelmente o suficiente para fazer a luta interessante nos primeiros 90 segundos.
O adversário certo e a lógica financeira que Joshua já calculou
Joshua foi direto ao ponto sobre o modelo de negócio. Ele reconhece que uma eventual transição sua para o MMA nunca geraria o mesmo impacto financeiro que um peso-pesado do UFC vindo para o boxe — e essa consciência revela que o britânico não está apenas sonhando acordado.
"Mesmo que Anthony Joshua — falando em terceira pessoa — fosse cruzar para o MMA, não seria tão grande quanto eles vindo para o boxe. O boxe é o pináculo do esporte de combate."
A comparação com Rico Verhoeven é inevitável. O campeão do kickboxing aguentou 10 rounds de Oleksandr Usyk antes de ser parado controversamente no 11° assalto, em 2026, e saiu com um cheque considerável pelo risco assumido. Joshua observou essa operação e entendeu a fórmula: nome grande, adversário reconhecível, narrativa de cruzamento. O negócio funciona com qualquer modalidade, desde que o oponente seja familiar ao público.
O nome mais lógico para uma estreia de Joshua no MMA seria alguém que já fez a travessia no sentido contrário — Ngannou, que ele já derrotou no boxe e que tem motivação clara para uma revanche em território próprio. Uma segunda luta, desta vez no cage, com as regras do MMA, venderia em qualquer arena do mundo. Ngannou tem wrestling credencial, chegou ao topo do UFC e sabe trabalhar o clench. Joshua teria que aprender a defender quedas em tempo recorde ou aceitar passar rounds inteiros no chão.
Se Joshua de fato avançar nessa direção, o próximo passo concreto seria um anúncio formal de treinamento em academia especializada em MMA — algo que ainda não aconteceu publicamente. Até lá, o que existe é uma declaração de intenção de um atleta de 34 anos que nocauteou o maior peso-pesado da história do UFC no boxe e quer saber o que acontece quando as regras mudam.









