Chorou. No ginásio do Ibirapuera, enquanto o Sada Cruzeiro erguia a taça da Superliga Masculina pela décima vez — placar de 3 sets a 0 sobre o Vôlei Renata Campinas (25/14, 27/25 e 25/21), em 10 de maio —, o central Judson se despedia com lágrimas de um projeto que o transformou em nome da seleção brasileira. Vinte e sete anos, ciclo encerrado, Europa à espera.
Judson e os dois anos que mudaram sua carreira no Campinas
Quando o Vôlei Renata o contratou em 2024, Judson já carregava uma trajetória rodada pelo vôlei nacional: Suzano, Montes Claros, Itapetininga, Ribeirão Preto e uma passagem anterior pelo próprio Campinas, em 2021, quando levantou um título estadual. Mas foi neste segundo ciclo que o central se consolidou como referência: dois Campeonatos Paulistas, um Sul-Americano, uma Copa Brasil e duas finais de Superliga — ambas perdidas para o Cruzeiro, incluindo a desta temporada.
"Eu preciso me controlar para não me emocionar, porque foram dois anos especiais da minha vida. Esse projeto está no meu coração, tenho muito orgulho de ter representado esse time. Queríamos ser campeões, mas não conseguimos implementar o que planejamos. Foi uma temporada quase perfeita. Eu queria muito sair com esse título", desabafou Judson após a derrota.
O desempenho consistente ao longo da temporada lhe rendeu convocações para a seleção brasileira, credencial que ampliou o radar europeu sobre o atleta. Clubes da Itália e da Polônia já fizeram sondagens formais para a próxima temporada — dois mercados que, historicamente, absorvem os centrais brasileiros mais técnicos e versáteis.

O que o mercado europeu enxerga num central brasileiro de 27 anos
Reparemos no detalhe: a janela de transferências para a SuperLega italiana e a PlusLiga polonesa costuma se definir entre maio e julho, exatamente o período em que Judson estará disponível. A Itália é, no ranking FIVB de clubes, o campeonato que mais exporta títulos mundiais — Trentino e Perugia figuram entre os maiores campeões do mundo —, enquanto a Polônia, país-sede do Mundial de 2014 e bicampeão mundial masculino, possui a liga de maior média de audiência presencial da Europa. Para um central de 27 anos em ascensão, esse é o destino padrão de quem quer disputar a Liga dos Campeões da CEV e elevar sua classificação para os ciclos olímpicos seguintes.

O Brasil já trilhou esse caminho com figuras como Lucão — que está no Cruzeiro e foi destaque da final com 12 pontos e 64,7% de aproveitamento ofensivo na Superliga — e com outros centrais que passaram pela Europa antes de se firmarem como titulares absolutos da seleção. A saída de Judson do Campinas não é, portanto, uma fuga do vôlei nacional: é o próximo passo lógico de um atleta que já foi convocado e precisa de exposição internacional para consolidar sua vaga no ciclo rumo aos Jogos de Los Angeles 2028.
"É o encerramento de um ciclo. Eu penso muito no crescimento e na evolução, mas agora é ir para outra liga. Eu saio com o coração cheio porque entreguei meu máximo aqui. Todos os dias eu me entreguei, me doei e é isso que eu quero deixar. Obrigado, Campinas, por tudo. Vou levar vocês para sempre", disse o central.
O Cruzeiro na história e o vazio que Judson deixa no Campinas
Do outro lado da quadra, o Cruzeiro completou 60 títulos desde 2010, número levantado pelo SportNavo ao longo da cobertura desta temporada, e se isolou como maior campeão da Superliga Masculina — dez títulos contra nenhum do Campinas, que segue sem sua primeira conquista da competição. O oposto Oppenkowski foi o destaque ofensivo da final com 18 pontos, enquanto Lucão e o ponteiro Wilian também se impuseram no segundo e terceiro sets para garantir a virada do time de Filipe Ferraz, que havia perdido Sul-Americano e Copa Brasil justamente para o Campinas nesta mesma temporada.
Para o Vôlei Renata, a saída de Judson representa uma reestruturação profunda: o clube perde seu central titular e um dos pilares emocionais do elenco que chegou a três decisões nacionais em 2026. A reconstrução campineira para a próxima temporada começa agora, em paralelo à negociação que pode levar Judson a jogar ao lado de atletas do nível de Simone Giannelli ou Wilfredo León na Itália — comparação que, há dois anos, soaria ambiciosa demais para um jovem ainda se firmando no circuito nacional.
As negociações de Judson com clubes europeus devem avançar nas próximas semanas, com definição esperada antes do início da pré-temporada da seleção brasileira em julho. Quem quiser acompanhar a evolução do caso — e entender como ele afeta a convocatória do técnico Bernardinho para os compromissos do segundo semestre — vale monitorar o calendário da CBV, que divulga os próximos compromissos internacionais da seleção masculina ainda em maio.










