R$ 6,3 milhões investidos, zero de retorno e uma briga judicial que já dura mais de dois anos. O juiz Danilo Fadel de Castro, da 10ª Vara Cível do Tribunal de Justiça de São Paulo, negou o pedido do meia Gustavo Scarpa — hoje no Atlético-MG — para bloquear 30% do salário de Willian Bigode, atualmente no Fluminense e no Athletico-PR, que dividem seus pagamentos. A decisão travou, por ora, a principal tentativa do jogador de reaver parte do prejuízo causado pelo investimento na empresa XLand Holding Ltda.
Como a treta começou
A história começa quando Scarpa, Willian Bigode e o lateral Mayke dividiam o vestiário do Palmeiras. Bigode indicou a empresa XLand como oportunidade de investimento, prometendo retorno de 3,5% a 5% ao mês — número que já acende o sinal de alerta para qualquer analista financeiro. Scarpa aportou R$ 6,3 milhões; Mayke, mais de R$ 4 milhões. O resgate estava previsto para 2022. O dinheiro nunca voltou.
Em novembro de 2022, os dois jogadores registraram boletim de ocorrência relatando perda superior a R$ 10,4 milhões. O juiz responsável pelo caso já apontou "indícios claros de pirâmide financeira" na operação da XLand. Bigode é dono da WLJC Gestão Financeira, empresa que os atletas acusam de ter intermediado o negócio. A WLJC, por sua vez, nega ter tido contrato com os jogadores ou ter retido qualquer valor.
A cronologia das decisões judiciais
Em 2024, Scarpa obteve o bloqueio dos salários de Bigode quando ele ainda estava no Santos — uma vitória parcial que logo encontrou obstáculos. No início de julho de 2025, os advogados do meia solicitaram formalmente a transferência de 30% dos vencimentos de Willian como forma de garantir ressarcimento. O pedido mirou tanto o Fluminense quanto o Athletico-PR, clubes que compartilham o pagamento do atacante.
No dia 31 de julho, o juiz Danilo Fadel de Castro bloqueou a solicitação. O argumento central da decisão foi a existência de um lote de pedras alexandritas apreendidas pela Polícia Federal, supostamente dado pela XLand como garantia dos investimentos. O malote pesa 20,8 kg e a empresa avalia em US$ 500 milhões — equivalente a R$ 2,5 bilhões. O magistrado entendeu que, enquanto o destino dessas pedras não for esclarecido, não há como avançar no arresto de bens.
"Até que se esclareça a destinação das referidas pedras preciosas, fica indeferida a pretensão de arresto sobre os bens dos sócios da requerida WLJC. Sem prejuízo, o requerimento da parte autora poderá ser, oportunamente, reapreciado", escreveu o juiz Danilo Fadel de Castro na decisão.
A defesa de Scarpa não aceitou e voltou ao tribunal pedindo reconsideração — argumentando que as alexandritas valem, na prática, apenas R$ 6 mil, não bilhões. O juiz manteve sua posição no dia 11 de agosto, entendendo que o cenário processual seguia inalterado desde a primeira negativa.
A tentativa de tumultuar o processo
Paralelamente, a empresa WLJC tentou interpor um recurso no caso, mas o Tribunal de Justiça de São Paulo nem chegou a analisá-lo. O acórdão revelou que os advogados pediram o recurso em nome de terceiros relacionados ao processo — prática vedada pela legislação. O tribunal classificou a manobra como tentativa de causar "tumulto" e de arrastar o andamento do caso. Nenhuma punição foi aplicada desta vez, mas a defesa foi alertada de que repetir a conduta pode ter consequências.
"A impressão que fica é que algumas movimentações processuais são semeadas sem qualquer fundamento jurídico a amparar um propósito processual. O objetivo que se percebe é o nítido interesse em causar um desgaste através da veiculação das matérias na mídia", declarou Bruno Santana, advogado de Willian Bigode.
O conforme levantamento do SportNavo, o processo de número 1014516-30.2022.8.26.0004 acumula decisões que favorecem ora um lado, ora outro: Mayke obteve ganho de causa parcial no início de 2025 para recuperar seu aporte de R$ 4 milhões, enquanto Scarpa ainda não recuperou nenhum centavo dos seus R$ 6,3 milhões.
O que pode mudar o jogo
A variável mais explosiva do processo são as alexandritas. O juiz Danilo Fadel de Castro já solicitou informações à Justiça do Acre sobre as pedras apreendidas pela Polícia Federal — o material estava sob custódia da empresa Sekuro Private Box. Se a avaliação oficial confirmar valor expressivo, o lote pode se tornar o principal ativo para quitação das dívidas. Se as pedras forem comprovadamente sem valor comercial relevante, como sugere a defesa de Scarpa, o caminho volta a ser a penhora de bens e salários dos envolvidos.
A defesa de Scarpa já sinalizou que vai recorrer da negativa mais recente. O juiz deixou explícito na decisão que o pedido de arresto "poderá ser, oportunamente, reapreciado" — o que mantém a porta aberta para uma reviravolta assim que o laudo sobre as pedras preciosas for conclusivo. A próxima audiência depende diretamente do retorno da Justiça acreana com a avaliação oficial do lote de 20,8 kg de alexandritas.









