Gastar mais produz mais. É a lógica do mercado — exceto quando não é. Os New York Knicks têm a segunda maior folha salarial de toda a NBA em 2025/26, poucos milhões abaixo do patamar da second apron, e chegaram às Finais. Os San Antonio Spurs construíram o elenco quase sem gastar no mercado livre, apostaram em jovens do draft e chegaram às mesmas Finais. O paradoxo não é acidental — é o produto de uma liga que passou anos reformulando suas regras exatamente para que isso fosse possível.

O número que resume duas décadas de estratégia diferente

Onze vitórias consecutivas nos playoffs. Esse é o número que os Knicks carregam ao entrar no Frost Bank Center nesta quarta-feira, 3 de junho. Para entender o peso disso, reparemos no detalhe: a última vez que Nova York disputou uma Final foi em 1999, justamente contra os Spurs, e perdeu em cinco jogos. Nos 27 anos seguintes, a franquia mais valiosa da NBA acumulou folhas salariais infladas, trocas malsucedidas e exatamente zero títulos.

AO VIVO! PONTE AÉREA REPERCUTE FINAL DA CONFERÊNCIA LESTE DA NBA | #podcast | ge.globo

A virada começou com uma aposta que parecia cara demais na época: 27 milhões de dólares por temporada para Jalen Brunson, armador que Dallas havia deixado ir embora em 2022 para não atrapalhar o ecossistema de Luka Doncic. New York enxergou valor onde Dallas viu custo. Hoje, Brunson lidera o time com médias de elite nos playoffs e o contrato que parecia exorbitante virou referência de eficiência salarial.

O número que resume duas décadas de estratégia diferente Knicks gastaram bilhões
O número que resume duas décadas de estratégia diferente Knicks gastaram bilhões

O segundo movimento estrutural foi a chegada de Karl-Anthony Towns, numa troca que enviou Julius Randle e Donte DiVincenzo ao Minnesota Timberwolves dias antes do início da temporada 2024/25. A operação encareceu ainda mais a folha, mas adicionou um pivô de alto volume ofensivo ao lado de Brunson — e completou o núcleo que inclui Mikal Bridges e OG Anunoby, ambos também frutos de trocas, não do draft.

  • Folha salarial dos Knicks em 2025/26: segunda maior da NBA, abaixo da second apron por margem estreita
  • Jogadores adquiridos via draft no núcleo titular: zero
  • Vitórias consecutivas nos playoffs até as Finais: 11
  • Último título da franquia: 1973 — 53 anos de jejum

A mudança de Tom Thibodeau para Mike Brown no comando técnico foi o catalisador final. Brown transformou um ataque que havia alternado entre o melhor e o pior da liga em 2024/25 numa engrenagem constante, manteve o nível defensivo que é marca da franquia e distribuiu minutos de forma mais equilibrada pelo banco — algo que Thibodeau, em cinco temporadas, nunca priorizou.

Como Wembanyama, Castle e Harper viraram o modelo oposto Knicks gastaram bilhões
Como Wembanyama, Castle e Harper viraram o modelo oposto Knicks gastaram bilhões

Como Wembanyama, Castle e Harper viraram o modelo oposto

Enquanto Nova York abria o cofre, San Antonio fazia o contrário: perdia de propósito. Entre 2022 e 2024, os Spurs acumularam temporadas de derrota calculada para subir nas posições do draft — estratégia que a NBA tentou desincentivar com ajustes no sistema de loteria, mas que ainda funciona quando executada com paciência.

Victor Wembanyama chegou em 2023 como a primeira escolha do draft e imediatamente redefiniu o que se espera de um pivô moderno. Com 2,24 metros de envergadura e mobilidade de ala, o francês de 20 anos combina proteção de aro, criação de jogadas e arremesso de três pontos num mesmo pacote — uma combinação que os modelos estatísticos da liga nunca haviam visto em conjunto. Ele entra nas Finais como favorito ao prêmio de MVP da série.

Stephon Castle e Dylan Harper vieram nas edições seguintes do draft, formando com Wembanyama um trio jovem que lembra, em estrutura etária, os Golden State Warriors de 2012 — antes de qualquer título, mas com a mesma sensação de que algo grande estava sendo construído. A chegada de De'Aaron Fox via troca pontual completou o quarteto que os Spurs chamam de arruaceiros: velocidade, atletismo e nenhum medo de momento grande.

  • Idade de Wembanyama nas Finais: 20 anos — o terceiro jogador mais jovem a disputar uma Final desde 2000
  • Jogadores do núcleo titular formados via draft: três (Wembanyama, Castle, Harper)
  • Última Final dos Spurs antes desta: 2014, título sobre o Miami Heat
  • Títulos da franquia: cinco — todos entre 1999 e 2014

A trajetória de San Antonio nos playoffs foi como uma tempestade que se forma devagar e chega com tudo: semanas de pressão acumulada, adversários subestimando a juventude do elenco, e então uma sequência de resultados que ninguém no Thunder ou no restante da Conferência Oeste conseguiu reverter.

As regras que tornaram possível esse encontro improvável

Nenhuma das duas estratégias teria funcionado sem as reformas que a NBA implementou no sistema de Collective Bargaining Agreement nos últimos anos. O endurecimento das regras salariais — especialmente a criação de restrições mais severas para equipes acima da second apron — forçou franquias ricas a serem mais cirúrgicas nas trocas. Os Knicks vivem no limite desse teto, o que significa que cada movimento daqui para frente tem custo altíssimo em flexibilidade futura.

Já os ajustes no sorteio do draft reduziram a vantagem de perder deliberadamente — as probabilidades foram achatadas para desincentivar o tanking excessivo. Ainda assim, San Antonio aproveitou a janela antes que a regra se tornasse mais restritiva e saiu com três primeiras escolhas de alto impacto em sequência. Segundo análises de gestão esportiva publicadas após o draft de 2024, a probabilidade de uma franquia acertar três escolhas de alto rendimento em três anos consecutivos é inferior a 8%.

O resultado prático é que a liga chegou a 2025/26 com o campo mais equilibrado em pelo menos uma década: seis franquias diferentes chegaram às semifinais de conferência, e as Finais reúnem um time que não disputava a decisão desde 1999 e outro que ficou fora desde 2014. A NBA queria exatamente isso — e conseguiu por caminhos opostos.

"Brown conseguiu tornar o ataque dos Knicks, que alternou entre um dos melhores e um dos piores de todo o campeonato em 2024/25, bem mais constante", segundo análise da ESPN sobre a transição de comando técnico em Nova York.

A série começa nesta quarta-feira, 3 de junho, com o Jogo 1 no Frost Bank Center em San Antonio, às 21h30 (horário de Brasília). Os Spurs têm vantagem de quadra por terem feito a melhor campanha na temporada regular. O Jogo 2 está marcado para sexta-feira, 5 de junho, no mesmo local, antes de a série se transferir para o Madison Square Garden nos dias 8 e 10 de junho — onde os Knicks não perderam nenhum dos onze jogos desta pós-temporada.