Confesso: eu errei sobre a blindagem da Seleção em 2014. Escrevi, naquela época, que fechar os treinos na Granja Comary era uma medida exagerada, paranoia de comissão técnica sem fundamento real. Doze anos depois, vejo pai e filho chegando de Cantagalo com a esperança de ver Neymar e encontrando lonas pretas do chão ao teto. O cenário mudou. A pergunta, porém, continua a mesma: até que ponto o segredo tático justifica o distanciamento entre a Seleção e quem a sustenta?
A viagem que terminou diante de uma lona preta
Braume Curty, 40 anos, e seu filho Davi, 12, percorreram mais de 80 quilômetros saindo de Cantagalo, no interior fluminense, com destino à Granja Comary, em Teresópolis, CT histórico da Seleção Brasileira desde 1978. Chegaram animados, câmera na mão, esperando ao menos enxergar um jogador aquecer. Encontraram tecido preto cobrindo toda a visão do complexo.

"Viemos de longe para assistir ao treino da Seleção e demos de cara com o tapume preto tapando tudo", lamentou Braume ao SportNavo.
O torcedor não é estreante na Granja. Já esteve no local em ocasiões anteriores, quando havia maior permeabilidade entre o CT e o público. Lembra de poder fotografar, caminhar até o final da rua, sentir de perto o clima da preparação. A experiência de agora foi radicalmente diferente.
"Já vim uma vez e não tinha nada. A gente conseguia assistir ao treino, ir até o final da rua, fotografar tudo. Mas hoje, infelizmente, está tudo preto. Acho que não vale a pena toda essa restrição", afirmou Braume.
Davi, 12 anos, tinha um único pedido antes de sair de casa: ver Neymar de perto. O camisa 10 convocado por Carlo Ancelotti foi o primeiro nome que o menino citou quando perguntado sobre quem gostaria de encontrar. A resposta do pai sintetizou o dia inteiro: "Agora, infelizmente, só pela TV."
Por que a CBF blindou os treinos desta vez
A justificativa oficial gira em torno da proteção de estratégia tática. Com a Copa do Mundo 2026 se aproximando e a preparação tendo sequência nos Estados Unidos, a comissão técnica de Ancelotti optou por vedar completamente os treinos na Granja, impedindo qualquer observação externa — seja de olheiros adversários, seja de câmeras de torcedores que inadvertidamente registram posicionamentos e esquemas.
Não é a primeira vez que o Brasil adota medida semelhante. Em 2002, quando a Seleção de Luiz Felipe Scolari conquistou o pentacampeonato no Japão e na Coreia do Sul, os treinos em Seogwipo foram fechados à imprensa e ao público por determinação expressa do treinador gaúcho. A diferença é que, àquela época, a internet ainda não transformara cada torcedor em um canal de transmissão ao vivo. Hoje, um celular na arquibancada pode exibir para o mundo inteiro a movimentação de um lateral-direito em determinado sistema defensivo.
A analogia mais precisa vem do boxe: um pugilista não mostra seus combinados para o adversário na semana do combate. A Seleção Brasileira, com o peso de uma Copa em casa continental, tratou os treinos como rounds de sparring que ninguém além do próprio time precisa assistir.
O que a história da Granja Comary revela sobre essa tensão
A Granja Comary foi inaugurada como CT da Seleção em 1978, durante a gestão do presidente da CBF Giulite Coutinho. Desde então, a relação entre o espaço e os torcedores oscilou conforme o momento político e esportivo do futebol brasileiro. Nos anos 1990, era comum ver fãs encostados nas grades durante os treinos. Em 1994, Parreira abriu algumas sessões ao público como estratégia de aproximação antes do Mundial nos Estados Unidos — campanha que terminou com o tetracampeonato.
Em 2014, o próprio Felipão, historicamente avesso à exposição, cedeu a um treino aberto em Teresópolis que atraiu cerca de 3.000 torcedores. O gesto foi lido como aceno popular num momento em que a Seleção precisava reconquistar simpatia após os protestos que marcaram a Copa das Confederações de 2013. O Brasil acabou eliminado pela Alemanha por 7 a 1 nas semifinais, o que gerou, retroativamente, uma narrativa de que a abertura havia sido erro estratégico — narrativa questionável, mas persistente nas redações.
Agora, com Ancelotti comandando o grupo e a Copa do Mundo 2026 sendo disputada em solo norte-americano a partir de junho, a CBF optou pelo caminho oposto. Até o momento, não há qualquer comunicado oficial sobre a possibilidade de um treino aberto antes do amistoso contra o Panamá, marcado para domingo no Rio de Janeiro. Braume Curty, mesmo frustrado, disse acreditar no trabalho do técnico italiano e na briga pelo hexacampeonato. Pediu apenas um gesto: "Podia ter pelo menos um treino aberto para a gente poder ver os jogadores antes que eles embarquem para a Copa."
A CBF não respondeu ao pedido. O amistoso contra o Panamá acontece no domingo, e a Seleção viaja em seguida para os Estados Unidos, onde a preparação definitiva começa longe dos olhos de qualquer torcedor brasileiro que não possa cruzar o Atlântico.
Na tarde em que Braume e Davi saíram de Teresópolis sem ter visto sequer uma bola rolando, o menino de 12 anos ficou em silêncio no banco do passageiro, olhando para as montanhas da Serra Fluminense. Lá dentro, atrás das lonas pretas, Neymar provavelmente chutava uma bola em direção ao gol.












