Uma seleção africana que segurou Portugal não tem medo de ninguém. Uma seleção sul-americana que goleou 3 a 1 na estreia parece imparável. As duas afirmações são verdadeiras ao mesmo tempo — e é exatamente essa contradição que torna a partida desta terça-feira, no Estádio Akron, em Guadalajara, um dos jogos mais interessantes da segunda rodada da Copa do Mundo.
O número que resume o Grupo K até aqui
Três gols marcados pela Colômbia contra um Uzbequistão que não conseguiu sequer criar perigo consistente. Um gol cedido pela RD Congo contra uma das seleções mais qualificadas da competição. Esses dois números, colocados lado a lado, contam uma história clara: a Colômbia ataca bem, o Congo defende bem. O confronto direto entre essas duas forças é o que o Grupo K precisava para se resolver.
O técnico Néstor Lorenzo deve manter a mesma base que funcionou contra o Uzbequistão. A escalação provável traz Vargas no gol, Muñoz e Mojica nas laterais — com o lateral esquerdo pendurado e podendo ser substituído por Deiver Machado —, Davinson Sánchez e Lucumí na zaga, e um meio com Lerma, Puerta e Jhon Arias. Na frente, o trio James Rodríguez, Luis Suárez e Luis Díaz.
Do outro lado, o treinador francês Sébastien Desabre surpreendeu ao mudar o esquema habitual da RD Congo. Durante as Eliminatórias africanas, o time jogava em 4-1-4-1. Contra Portugal, Desabre fechou o bloco num 5-3-2 — abriu mão de um ponta para ter um zagueiro a mais — e o resultado foi um empate honrado diante de uma das favoritas ao título. A dúvida agora é se ele mantém essa estrutura ou arrisca mais contra a Colômbia.

Como Luis Díaz quebra blocos defensivos compactos
Aqui é onde a análise fica interessante. O xG — expected goals, ou seja, a probabilidade de um chute se converter em gol com base na posição e no tipo de finalização — da Colômbia contra o Uzbequistão foi alto o suficiente para justificar a vitória. Mas o Uzbequistão não é Portugal, e a RD Congo não é o Uzbequistão.
Díaz é um atacante que vive nos espaços entre linhas. O que ele faz melhor é o que analistas chamam de progressive runs: carregar a bola em direção ao gol adversário, quebrando a organização defensiva e forçando os zagueiros a tomarem decisões sob pressão. Contra blocos baixos, isso é particularmente valioso — e o 5-3-2 congolês, se mantido, vai demandar exatamente esse tipo de ação.
Outro dado que ajuda a entender a dinâmica: o PPDA — passes permitidos por ação defensiva, uma métrica que mede o quanto um time pressiona alto — da RD Congo contra Portugal foi elevado, o que indica que os congoleses preferiram recuar e esperar o erro do adversário em vez de pressionar a saída de bola. Quanto maior o PPDA, menos pressão o time aplica no campo adversário. Isso significa que Díaz vai ter espaço para receber e conduzir, mas vai encontrar muitos corpos na área.
- xG Colômbia vs Uzbequistão: compatível com 3 gols — eficiência real no ataque
- PPDA RD Congo vs Portugal: alto — bloco baixo, sem pressão na saída de bola adversária
- Progressive passes de James Rodríguez: chave para conectar meio e ataque contra defesas recuadas
James Rodríguez, aos 34 anos, não é mais o jogador que hipnotizou o mundo no Brasil em 2014, mas ainda é o melhor passador progressivo da Colômbia — alguém capaz de encontrar Díaz entre as linhas com precisão cirúrgica. A combinação entre a criatividade de James e a explosão de Díaz é o maior problema que Desabre precisa resolver.
O que a RD Congo tem para parar a Colômbia
Wan-Bissaka, Mbemba — que está pendurado — e Masuaku formam uma linha de cinco defensores com experiência em nível europeu. Mbemba jogou anos na Serie A italiana. Wan-Bissaka passou anos na Premier League. Masuaku tem histórico na liga inglesa também. Não é uma defesa improvisada.
Na frente, Wissa e Bakambu formam uma dupla que pode explorar contra-ataques. Se a Colômbia pressionar alto — o que Lorenzo costuma pedir —, os espaços nas costas de Muñoz e Mojica podem ser explorados. Bakambu tem velocidade e experiência internacional suficiente para incomodar.
"A seleção africana mudou o esquema que se acostumou a usar durante as Eliminatórias em ordem de se defender melhor", conforme registrado pelo SportNavo com base nas informações divulgadas pela organização do torneio.
O ponto central é que a RD Congo não vai para o Akron para passear. O empate com Portugal mostrou uma equipe organizada, disciplinada taticamente e capaz de suportar pressão durante 90 minutos. A Colômbia vai precisar criar situações de xG de alta qualidade — não vai resolver com chutes de fora da área.
Para a Colômbia, uma vitória nesta rodada garante a classificação para as oitavas de final e permite entrar sem pressão na última rodada contra Portugal. Para a RD Congo, um ponto já coloca a seleção em boa posição como um dos melhores terceiros colocados, com o Uzbequistão pela frente na última rodada. A equação é assimétrica — e isso pode influenciar o nível de risco que cada técnico aceita tomar.
A bola rola nesta terça-feira, às 23h (horário de Brasília), no Estádio Akron, com arbitragem do italiano Maurizio Mariani. Em 27 de junho, quando a última rodada do Grupo K for disputada, saberemos se Luis Díaz foi capaz de quebrar a muralha congolesa — ou se Desabre conseguiu o feito de tirar pontos das duas seleções mais qualificadas do grupo.








