Se a Copa do Mundo 2026 terminasse nesta segunda-feira, Kylian Mbappé entraria para a história como o jogador que igualou Miroslav Klose — e não como o homem que o superou. A frase, porém, já não descreve mais a realidade: o francês está vivo, o torneio continua, e os 16 gols que ele e Klose dividem no topo da artilharia histórica são apenas um prólogo.

A noite foi de segunda vitória consecutiva para a França no Grupo I. Contra o Iraque, os Bleus venceram por 3 a 0, e Mbappé marcou duas vezes — suficiente para deixar para trás Cristiano Ronaldo, que acumulou 8 gols ao longo de cinco Copas e era até então o quinto maior artilheiro da história do torneio. No mesmo dia, Lionel Messi balançou a rede duas vezes na vitória da Argentina por 2 a 0 sobre a Áustria e isolou-se ainda mais no topo, com 18 gols. A distância entre o argentino e o francês é de apenas dois gols — e o torneio mal chegou à metade.

O que Klose construiu em quatro Copas, Mbappé alcançou em três

Miroslav Klose é, até hoje, o símbolo máximo de eficiência em Copas do Mundo. O alemão chegou a 16 gols ao longo de quatro torneios — 2002, 2006, 2010 e 2014 —, com uma regularidade quase metódica: 5, 5, 4 e 2 gols, respectivamente. Seu último gol em Copas foi o 2 a 0 sobre o Brasil na semifinal de 2014, no Mineirão, num jogo que entrou para o imaginário coletivo como um dos mais traumáticos da história do futebol brasileiro. Klose tinha 36 anos naquele momento e sabia que era seu canto do cisne.

O que Klose construiu em quatro Copas, Mbappé alcançou em três Mbappé iguala Klo
O que Klose construiu em quatro Copas, Mbappé alcançou em três Mbappé iguala Klo

Mbappé chegou ao mesmo número com 27 anos e três edições do torneio — 2018, 2022 e agora 2026. Na Rússia, foram 4 gols e um título. No Catar, 8 gols numa campanha que terminou com a França perdendo a final nos pênaltis para a Argentina. Nesta edição norte-americana, já são 4 gols em dois jogos. A média é de um gol por partida disputada — uma cadência que Klose, em toda a sua carreira mundialista, jamais sustentou por tanto tempo.

"Ele está num nível que poucos jogadores já alcançaram neste estágio de uma Copa", escreveu o jornal francês L'Équipe após o jogo contra o Iraque, numa manchete que ecoou em redações de Lisboa a Milão.

A sombra de Messi e os dois gols que separam a lenda do recorde absoluto

A imprensa portuguesa foi direta: o jornal A Bola destacou que Mbappé havia passado Ronaldo, enquanto o espanhol Marca e o italiano Gazzetta dello Sport colocaram o francês na capa. O britânico The Guardian e o Daily Mail também deram destaque à noite francesa. Mas há um nome que paira sobre todas essas manchetes sem precisar de manchete: Messi, que chegou a 18 gols e se consolida como o maior artilheiro da história das Copas.

A margem é pequena — dois gols — e o calendário ainda reserva pelo menos mais três partidas para cada seleção que avançar às oitavas. A França, segunda colocada no Grupo I com seis pontos em dois jogos, já garantiu classificação matematicamente. Mbappé pode chegar ao terceiro jogo da fase de grupos com espaço para poupar energia ou, ao contrário, ampliar ainda mais sua contagem antes do mata-mata.

  • Kylian Mbappé — 16 gols em 3 Copas (2018, 2022, 2026), 27 anos
  • Miroslav Klose — 16 gols em 4 Copas (2002, 2006, 2010, 2014), aposentado
  • Lionel Messi — 18 gols em 6 Copas (2006–2026), 38 anos
  • Ronaldo Fenômeno — 15 gols em 4 Copas (1994–2006)

Por que a Copa de 2030 ainda pode entrar nessa conta

Há um dado que a imprensa internacional mencionou nas entrelinhas, mas que merece ser dito com clareza: Mbappé completará 31 anos em dezembro de 2029, às vésperas da Copa de 2030, que será disputada em três continentes — com jogos na Espanha, Portugal, Marrocos e celebrações centenárias na Argentina e no Uruguai. Pelé marcou seu último gol em Copa com 29 anos, em 1970. Klose jogou seu último Mundial aos 36. A janela biológica de Mbappé está longe de fechar.

Como apurado em matéria do SportNavo ainda na fase de grupos, a França tem o ataque mais produtivo desta edição entre as seleções europeias, com 6 gols em dois jogos. Se o rendimento se mantiver nas oitavas e nas quartas, Mbappé terá ao menos quatro ou cinco partidas adicionais para ampliar sua marca. Superar Messi antes do fim desta Copa exigiria mais 3 gols — uma distância que, para um jogador em forma, equivale a pouco mais de um jogo e meio.

"Mbappé ultrapassou a lenda do Brasil", foi a manchete do jornal português Record, numa referência ao Ronaldo Fenômeno — 15 gols em Copas — que por décadas foi tratado como o padrão máximo de artilharia para atacantes do hemisfério sul.

A França volta a campo pela última rodada do Grupo I ainda nesta semana, num jogo que, para os franceses, já não tem valor eliminatório — mas que, para Mbappé, pode ter valor histórico. Messi e a Argentina também jogam nesta fase. Se o argentino marcar mais uma vez e o francês não, a distância sobe para três gols. Se o contrário acontecer, o recorde absoluto de artilharia em Copas do Mundo pode trocar de mãos antes das quartas de final. Se a Copa do Mundo 2026 terminasse nesta segunda-feira, Mbappé entraria para a história como o jogador que igualou Klose — mas a Copa não termina, e essa frase já não descreve mais nada.