É uma faca suíça guardada na bainha errada. Só no parágrafo seguinte fica claro o que isso significa: Luiz Henrique chegou à Copa do Mundo de 2026 como ferramenta versátil, aquele jogador que Carlo Ancelotti podia encaixar em múltiplas funções — pela direita como atacante agudo, pela meia-cancha como extremo de pressão. E justamente por ser tão adaptável, acabou sem posição definida quando o torneio começou de verdade.
O jogador que era certeza virou sombra nos Estados Unidos
Entre os nove atacantes convocados por Ancelotti, três nomes eram apontados como inegociáveis antes mesmo de a bola rolar: Raphinha, Vinícius Júnior e Luiz Henrique. O atacante do Zenit havia disputado nove das 12 partidas do ciclo pré-Copa sob o comando do treinador italiano, acumulando duas assistências e atuações decisivas — como no amistoso contra a França, em março, e na estreia de Ancelotti diante do Chile, em setembro de 2025. Nenhum outro atacante havia acumulado tantos minutos naquele período.
Nos Estados Unidos, esse histórico não valeu quase nada. Luiz Henrique entrou em campo apenas na estreia contra Marrocos, nos 40 minutos finais, e não voltou a atuar. Todos os outros atacantes convocados tiveram mais tempo de jogo do que ele — incluindo Igor Thiago, que havia perdido espaço após uma sequência positiva de amistosos. Mais simbólico ainda: Neymar, lesionado durante as primeiras semanas do Mundial, foi utilizado diante da Escócia e na derrota para a Noruega por 2 a 1, nas oitavas de final. Luiz Henrique, saudável, ficou no banco.
A leitura que circula nos bastidores aponta para um problema estrutural: suas melhores atuações aconteceram sempre quando ele entrou no segundo tempo, sem a responsabilidade de organizar o jogo desde o início. Quando foi titular — como no 4-2-4 idealizado por Ancelotti no primeiro tempo contra o Panamá, no Maracanã —, ficou apagado. A explosão que o tornou convocável ainda por Dorival Júnior, quando defendia o Botafogo, não se repetiu quando o holofote era maior.
A função tática que virou armadilha contra Marrocos
Na estreia da Copa, Ancelotti escalou Lucas Paquetá pela direita — exatamente a função que Luiz Henrique costumava ocupar como reserva. Quando o técnico precisou corrigir os problemas do Brasil naquele setor no segundo tempo, recorreu ao atacante do Zenit. Ele entrou, cumpriu a missão pontual, mas não foi suficiente para mudar o panorama da partida. A partir daí, sumiu da lista de opções reais do treinador.
O paradoxo da situação é técnico e tático ao mesmo tempo. Luiz Henrique é um jogador que funciona como pulmão da equipe quando entra com espaço para explorar — mas Ancelotti, nos jogos seguintes, passou a priorizar perfis diferentes para as trocas ofensivas. Endrick, apesar de ter desperdiçado uma chance cara a cara com o goleiro contra a Noruega — e de ter recebido 76% de comentários negativos nas redes sociais após a eliminação, segundo levantamento do Bolavip Brasil com 3.831 publicações no Reddit —, manteve a confiança do treinador. Luiz Henrique não teve a mesma sorte.
O ex-atacante Müller, em análise na live Seleção Estadão após a eliminação, foi direto ao criticar o grupo como um todo:
"Hoje não se ganha mais Copa do Mundo atropelando os adversários. Ficou nítido que se ganha com um time, uma identidade e competitividade. Aquele time que compete mais é o que vence. Coisa que não aconteceu com a seleção brasileira."
A afirmação de Müller toca exatamente no ponto que explica o sumiço de Luiz Henrique: num time sem identidade coletiva clara, os jogadores de função híbrida — que dependem do contexto para brilhar — são os primeiros a perder espaço quando o técnico precisa de respostas rápidas.
O que a eliminação revela sobre o próximo ciclo do atacante
A pesquisa do Lance! com leitores após a eliminação apontou Ancelotti como o maior vilão da campanha, com 41% dos votos — à frente de Bruno Guimarães (25%), que perdeu pênalti no primeiro tempo contra a Noruega, e de Neymar (13%). O resultado indica que boa parte da torcida atribui a responsabilidade às decisões da comissão técnica, e não apenas às atuações individuais. Nesse contexto, as escolhas de Ancelotti em relação a Luiz Henrique também entram no rol de questionamentos.
A CBF, por sua vez, confirmou a continuidade do treinador italiano até a Copa do Mundo de 2030. A única mudança confirmada na comissão técnica é a saída de Davide Ancelotti, que deixa o cargo de auxiliar para assumir o Lille, da França. O primeiro compromisso do novo ciclo está marcado para setembro, com dois amistosos contra a Austrália — em Townsville, no dia 25, e em Brisbane, quatro dias depois. A pré-lista de convocados deverá ser enviada à Fifa até 6 de setembro.
Para Luiz Henrique, o recado é claro: o espaço que ele ocupou no ciclo anterior não está garantido no próximo. Ancelotti precisará decidir se o atacante serve como opção de impacto vindo do banco — papel em que ele brilhou — ou se o perfil híbrido do jogador continuará sendo visto como uma indefinição tática. É o mesmo cenário que Robinho viveu no ciclo de 2006 para 2010 — só que agora a aposta é num futebol europeu que cada vez mais exige função precisa, não versatilidade sem âncora.










