— Cara, a Espanha tá diferente demais. Trinta jogos sem perder.
— E daí? O Brasil tem Vinicius, tem Rodrygo.
— Ter craque é uma coisa. Ter sistema é outra.

Essa conversa, que qualquer torcedor brasileiro reconhece, ganhou um porta-voz inesperado na noite desta segunda-feira (8): Mano Menezes, o técnico que comandou a Seleção Brasileira entre 2010 e 2012, hoje à frente do Peru. Após ver sua equipe ser goleada por 3 a 1 pela Espanha em amistoso disputado em Puebla, no México, ele não deu rodeios na coletiva.

"Hoje, vejo a Espanha como uma equipe melhor que o Brasil. A Espanha é uma equipe consolidada e sólida, que conhece sua escalação inicial, seus reservas e suas variações táticas. O Brasil é uma equipe em desenvolvimento, nesse processo de constante mudança, tão típico do Brasil", disse Mano Menezes.

A fala tem peso específico. Não é um comentarista de estúdio nem um ex-jogador em modo nostalgia. É um treinador que conhece os bastidores de ambas as realidades — e que acabou de perder para uma das seleções em melhor fase do planeta.

A máquina espanhola chega com 30 jogos intocada Mano Menezes coloca Espanha à fr
A máquina espanhola chega com 30 jogos intocada Mano Menezes coloca Espanha à fr

A máquina espanhola chega com 30 jogos intocada

Nenhuma seleção chegou a uma Copa do Mundo com sequência tão longa nos últimos anos. A vitória sobre o Peru ampliou para 30 a série de invencibilidade da La Roja — a maior registrada pela seleção espanhola às vésperas de um Mundial, segundo levantamento do jornal Marca. Para comparação: em 2018, a equipe de Julen Lopetegui chegou à Rússia com 20 partidas sem perder e foi eliminada nas oitavas de final pela anfitriã nos pênaltis. Em 2006, sob Luis Aragonés, eram 22 jogos — e a queda veio diante da França por 3 a 1, também nas oitavas.

A atual série inclui amistosos e competições oficiais. Se o recorte considerar apenas partidas oficiais, os números ficam ainda mais impressionantes. A última derrota da Espanha aconteceu em março de 2023, contra a Escócia, pelas Eliminatórias da Eurocopa — ou seja, mais de três anos de invencibilidade no calendário oficial. Atual campeã da Eurocopa de 2024, a equipe terminou como vice da Liga das Nações nesta temporada 2025/2026, perdendo a decisão para Portugal nos pênaltis após empate em 2 a 2 — o único tropeço recente, e ainda assim sem derrota no tempo regulamentar.

Mano foi além da análise do presente e tocou em algo estrutural, que o torcedor brasileiro costuma varrer para debaixo do tapete:

"O Brasil ainda está em construção porque fez um processo mais brasileiro, com interrupções. Por isso, está perto de estrear e ainda fazendo avaliações", completou o treinador.

O Brasil enfrenta Marrocos com tabu histórico nas estreias

Sábado, dia 13 de junho, às 19h, em Nova Jersey — e o peso da história vai a campo junto. A Seleção Brasileira tem um tabu que poucos querem discutir abertamente: as estreias em Copas do Mundo raramente são espetáculos. Em 2018, na Rússia, o Brasil empatou em 1 a 1 com a Suíça na abertura do grupo. Em 2014, venceu a Croácia por 3 a 1, mas precisou de um pênalti controverso e de um gol contra para sair do zero. Em 2022, no Catar, a estreia foi uma das únicas alegrias — vitória por 2 a 0 sobre a Sérvia, com dois gols de Richarlison. O padrão irregular em primeiros jogos existe e não pode ser ignorado.

O Brasil está no Grupo C ao lado de Haiti, Escócia e Marrocos — uma chave teoricamente acessível, mas que esconde armadilhas. Marrocos foi semifinalista da Copa do Mundo de 2022, no Catar, e chega ao torneio como uma das seleções africanas mais organizadas taticamente da última década. A estreia, portanto, não é passeio.

Mano Menezes reconheceu o potencial brasileiro sem abrir mão do diagnóstico crítico:

"Antes mesmo do início da temporada, vejo Espanha e França como favoritas. Mas as coisas podem acontecer. E, claro, o Brasil pode ser campeão", afirmou.

O que as próximas semanas vão revelar sobre o projeto brasileiro

A Copa do Mundo de 2026 começa a separar discurso de realidade já na primeira rodada de grupos. Enquanto a Espanha entra em campo no dia 15 de junho contra Cabo Verde, pela abertura do Grupo H — que ainda conta com Arábia Saudita e Uruguai —, com um modelo tático definido há anos e peças que se conhecem de cor, o Brasil ainda carrega a marca das interrupções citadas por Mano: trocas de comissão técnica, convocações experimentais, lesões de peças importantes e a pressão histórica de um país que não levanta a taça desde 2002.

A diferença entre as duas seleções não está apenas no número de jogos sem derrota. Está na profundidade do banco: a Espanha, segundo o próprio Mano, conhece seus reservas e suas variações táticas. O Brasil, às vésperas da estreia, ainda está "fazendo avaliações" — palavras do treinador que melhor conhece os bastidores do futebol sul-americano neste momento, ditas após levar 3 a 1 da própria La Roja.

O Brasil enfrenta Marrocos com tabu histórico nas estreias Mano Menezes coloca E
O Brasil enfrenta Marrocos com tabu histórico nas estreias Mano Menezes coloca E

A torcida brasileira vai ao Grupo C com esperança legítima. Mas a Copa do Mundo não se ganha com esperança — se ganha com estrutura, consistência e tempo de trabalho. A Espanha tem os três. O Brasil tem talento individual de sobra e uma estreia difícil no sábado para começar a provar que o projeto, apesar das interrupções, chegou em condições. Vale gravar o Brasil x Marrocos no dia 13 e assistir com atenção ao que Ancelotti vai escalar: a escalação da estreia vai dizer mais sobre o estágio do projeto do que qualquer amistoso preparatório.