Se Marcos Braz tivesse saído de São Cristóvão dez minutos antes, a tarde desta segunda-feira, 4 de maio de 2026, teria sido apenas mais um dia comum na agenda de um dirigente que, aos 50 e tantos anos, acumula títulos e mandatos como poucos no futebol brasileiro. Não foi. Por volta do início da tarde, ele e seu primo Márcio foram abordados por criminosos armados na Zona Norte do Rio de Janeiro — e três disparos para o alto marcaram a fuga dos assaltantes com a Mercedes A300 e o celular de Márcio. A violência não deixou feridos, mas deixou uma marca que vai além do episódio pessoal.
O que dizem os envolvidos
Segundo informações registradas na 18ª DP, a Delegacia da Praça da Bandeira, Braz e o primo estavam no veículo quando foram surpreendidos pelos homens armados. Os criminosos tomaram o automóvel e o aparelho celular pertencente a Márcio. Ao deixar a cena, o grupo efetuou três disparos para o alto — gesto que, no léxico do crime carioca, funciona como intimidação residual, um trovão sem tempestade que serve apenas para garantir que ninguém persiga. A polícia foi acionada imediatamente.
Com base em trabalho de inteligência, equipes da 18ª DP, apoiadas pela 25ª DP (Engenho Novo), pela 26ª DP (Todos os Santos) e pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, conseguiram localizar e recuperar o veículo ainda na tarde de segunda-feira. As investigações seguem em andamento para identificar os autores. Braz não se pronunciou publicamente sobre o ocorrido até o fechamento desta reportagem.
O que dizem os números
Conforme levantamento do SportNavo, este não é um episódio isolado no universo do futebol carioca. Em 2023, o atacante John Kennedy, do Fluminense, foi assaltado no bairro do Méier — também na Zona Norte — e teve o carro levado. Dias depois, outros dois jogadores do próprio Fluminense relataram situações semelhantes na mesma região da cidade. O padrão geográfico é recorrente: bairros de transição entre a Zona Norte e o Centro, com alto fluxo de veículos e cobertura policial irregular.

O Rio de Janeiro registrou, em 2025, 18.743 roubos de veículos, segundo dados do Instituto de Segurança Pública do Estado — uma média de 51 por dia. São Cristóvão, bairro onde Braz foi abordado, concentra parte significativa das ocorrências da 18ª DP, que abrange também a Praça da Bandeira e adjacências. Para personalidades públicas, o risco é amplificado pela visibilidade: carros de luxo, rotinas previsíveis e ausência de escolta tornam o alvo mais atraente.
A trajetória de Braz no futebol é extensa o suficiente para tornar o episódio ainda mais emblemático. Durante sua gestão como vice-presidente de futebol do Flamengo, entre 2019 e 2024, o clube conquistou 12 títulos — entre eles o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores de 2019, a dupla que redefiniu o futebol brasileiro na última década. Em 2025, ele assumiu a vice-presidência de futebol do Clube do Remo e ajudou a recolocar o clube paraense na Série A do Brasileirão após 32 anos de ausência. Homem de trânsito livre entre o poder esportivo e o poder político — foi vereador pelo Rio de Janeiro —, Braz circula por uma cidade que não oferece proteção proporcional à sua exposição pública.
O que digo eu sobre o quadro
Há algo de perturbador na geometria deste crime. São Cristóvão é um bairro que carrega história: sede do Estádio de São Januário, do Vasco da Gama, palco de jogos que moldaram o futebol nacional desde os anos 1920. É também vizinho de bairros que concentram algumas das maiores torcidas organizadas do país. Que um ex-dirigente de um dos maiores clubes do Brasil seja assaltado a poucos quilômetros de onde o futebol carioca nasceu diz algo sobre o estado de abandono institucional de uma cidade que ainda exporta ídolos para o mundo enquanto não consegue garantir a segurança de quem construiu parte dessa história.
A análise do SportNavo sobre episódios semelhantes nos últimos três anos aponta um padrão preocupante: dirigentes, ex-atletas e personalidades do esporte raramente adotam protocolos de segurança privada fora de eventos oficiais. A lógica é compreensível — ninguém quer viver como se estivesse em guerra —, mas o Rio de 2026 cobra um preço alto por essa normalidade. Marcelinho Carioca, ícone do Corinthians, foi vítima de golpe financeiro milionário. John Kennedy foi assaltado três vezes em menos de dois anos. A lista cresce com uma regularidade que já não surpreende, e é exatamente essa naturalização que deveria nos incomodar.
O veículo foi recuperado. Braz e Márcio saíram ilesos. As investigações, segundo a 18ª DP, seguem em andamento. Mas a Mercedes de volta na garagem não apaga os três tiros que ecoaram em São Cristóvão nesta tarde — a cidade devolveu o carro, não a sensação de segurança.









