O homem que mais errou na derrota mais dolorosa do Brasil em décadas é o mesmo que vai entrar em campo com a braçadeira no braço neste sábado. Marquinhos, 32 anos, capitão da Seleção Brasileira pela primeira vez em uma Copa do Mundo, enfrenta o Marrocos no MetLife Stadium, em Nova Jersey, às 19h (de Brasília), diante de 80 mil torcedores — recorde de ingressos vendidos em todo o torneio e a maior procura por camarotes até aqui, superando até mesmo a final marcada para 19 de julho no mesmo estádio.
O pênalti que não sai da memória coletiva
Dezembro de 2022. Qatar. A bola bateu na trave. Marquinhos desabou. O Brasil estava eliminado nas quartas de final para a Croácia, e o zagueiro do PSG carregava no rosto o peso de um pênalti que nenhum torcedor verde-amarelo vai esquecer tão cedo. Quatro anos depois, o cenário mudou de continente, de técnico e de braçadeira — mas a memória permanece, e Marquinhos sabe disso melhor do que qualquer um.
O próprio jogador não foge do assunto. Em entrevista ao site oficial da Fifa, ele foi direto sobre o que a Copa de 2026 representa: sua "última oportunidade" de conquistar o título. A frase não é retórica. Com 32 anos, Marquinhos dificilmente chegará com condições físicas plenas a uma quarta edição do torneio. O relógio corre, e ele sabe a hora exata que marca.
"Já passei por isso no meu clube, outros jogadores também. Sabemos que o nível é muito alto, que tudo passa pelos detalhes, por minimizar ao máximo os erros, por aproveitar também os erros do adversário e por sermos fortes, porque vamos passar por momentos difíceis."
A referência ao PSG não é casual. Marquinhos viveu no clube francês temporadas de frustração antes de erguer a Champions League em 2024/25 — e repetir o feito em 2025/26. Duas taças consecutivas na competição mais disputada do futebol de clubes. Para ele, a lição é transferível: a derrota não define o fim, define o caminho.
A braçadeira de Ancelotti e o peso que ela carrega
Carlo Ancelotti não entregou a faixa de capitão por acaso. O técnico italiano, que chegou à Seleção com o histórico de quem transformou equipes em campeãs — Real Madrid, Milan, Bayern — escolheu Marquinhos para ser o rosto da liderança em campo. Uma escolha que diz mais sobre perfil do que sobre hierarquia.
O próprio Ancelotti, em coletiva realizada nesta sexta-feira (12) no MetLife Stadium, não revelou a escalação titular, mas deixou claro o que espera do duelo: "um jogo completo". O adversário não é simples. O Marrocos, semifinalista em 2022 e atualmente na 7ª posição do ranking da Fifa — apenas 10 pontos atrás do Brasil, que ocupa o 6º lugar com 1.765,86 pontos —, chega organizado e perigoso.
"Marrocos é uma equipe muito bem organizada, de qualidade. Não podemos deixar nada passar defensivamente, ofensivamente ou em transição. Precisamos da bola parada forte, porque temos qualidade aí. Não há equipe pequena no futebol moderno", afirmou Ancelotti.
A bola parada, aliás, foi apontada pelo treinador como uma das armas do Brasil. O zagueiro Gabriel Magalhães, que na temporada 2025/26 do Campeonato Inglês pelo Arsenal marcou 3 gols e deu 4 assistências quase exclusivamente em jogadas de escanteio e falta, é o exemplo concreto de como o fundamento pode decidir partidas no futebol moderno. Marquinhos, ao lado dele na zaga, é o outro lado desta equação: liderança defensiva e presença em lances de bola parada ofensiva.
80 mil ingressos e uma estreia sem precedentes nos EUA
O contexto externo ao campo amplifica a pressão. A Fifa computou cerca de 80 mil ingressos vendidos para Brasil x Marrocos — o MetLife Stadium tem capacidade para 80.663 pessoas. Mais do que isso: a partida registra o maior número de vendas na categoria hospitality de toda a Copa, com mais de 10 mil lugares de camarote comercializados, superando até o jogo da final. Conforme registrado pelo SportNavo, a expectativa dos organizadores é que a decisão do torneio assuma a liderança deste ranking nas próximas semanas, mas por ora, é o Brasil x Marrocos quem lidera.
A arena em Nova Jersey receberá outros sete confrontos ao longo do torneio, incluindo a final em 19 de julho. Neste sábado, será a primeira vez que o estádio recebe uma partida da Copa. O Brasil seguirá no Grupo C com jogos contra o Haiti, em 19 de junho na Filadélfia, e contra a Escócia, em 24 de junho em Miami.
O capitão no vestiário antes do apito
Marquinhos descreveu com precisão o que entende ser o papel de um capitão nos momentos que antecedem o colapso — porque todo time, em algum ponto de uma Copa, vai chegar perto dele.
"É quando você precisa assumir a responsabilidade, especialmente pelos jogadores mais jovens. Você precisa ser forte, ajudar a acalmar as coisas e saber que, com trabalho, treinamento e esforço, podemos melhorar a situação."
A Seleção de 2026 tem jovens que não estavam em 2022. Tem Vinicius Júnior como protagonista ofensivo declarado. Tem Ancelotti como âncora técnica. E tem Marquinhos como o único homem no grupo que sabe, na pele, o que é errar um pênalti decisivo em Copa do Mundo e ainda assim aparecer no vestiário no jogo seguinte. Essa memória não é um fardo — é o currículo mais específico que existe para liderar sob pressão.
Neymar, lesionado com grau dois na panturrilha direita, não joga neste sábado e sequer treinou em grupo desde o início da concentração. A ausência reforça o peso simbólico da braçadeira no braço de Marquinhos: não há outro nome na fila.
Às 19h deste sábado, com 80 mil pessoas dentro do MetLife e o zagueiro de 32 anos posicionado na área para o hino, a cena vai se desenhar sozinha — o homem que errou o pênalti mais lembrado da história recente do futebol brasileiro, de pé, braçadeira no braço, olhando para a bandeira.








