O silêncio do Nilton Santos antes do apito inicial diz mais sobre Martin Anselmi do que qualquer escalação publicada nas redes sociais — é ali, naquele intervalo entre o aquecimento e o pontapé, que o argentino fecha os olhos por exatos três segundos e ergue a cabeça. Quem observa de perto reconhece o ritual. Quem analisa o trabalho entende o que ele representa: um treinador que não reage ao jogo, que o antecipa.
Como começou a carreira de treinador
Os dados disponíveis sobre a trajetória de Martin Anselmi antes do Botafogo são limitados — e é exatamente aí que mora o primeiro argumento analítico relevante. No futebol sul-americano, ao contrário do modelo europeu onde um técnico acumula décadas de clubes menores antes de chegar à elite, a ascensão pode ser abrupta e construída em poucos ciclos de trabalho. O que para o argentino é uma carreira forjada na intensidade de poucos projetos, para o português seria uma progressão metódica por divisões inferiores. Anselmi pertence à escola da primeira linha: chegou ao cargo de destaque sem o currículo encorpado de passagens documentadas, mas com uma identidade de jogo suficientemente clara para convencer uma diretoria exigente como a do Botafogo.
Isso não é fraqueza curricular. É o retrato de um técnico que construiu autoridade pelo trabalho concreto, não pela acumulação de linhas no LinkedIn. O Brasileirão Série A de 2026 é o palco onde essa autoridade está sendo testada em tempo real, contra os melhores elencos do país.
A filosofia que define seu trabalho
O contra-argumento mais comum sobre Anselmi é que seu estilo é difícil de catalogar — que ele não tem um esquema fixo, que adapta demais. A refutação é direta: adaptabilidade tática não é ausência de filosofia, é a filosofia. O que define o trabalho de Anselmi no Botafogo não é um número de formação, é um conjunto de princípios que se mantém independentemente do adversário.
O primeiro desses princípios é a pressão alta organizada — não o pressionar por pressionar, mas a recuperação de bola em zonas adiantadas como ponto de partida para a transição ofensiva. O segundo é a ocupação vertical dos espaços: seus times não jogam horizontalmente para criar, jogam verticalmente para decidir. O terceiro, talvez o mais revelador, é a gestão do ritmo — Anselmi não permite que o adversário dite a velocidade do jogo. Quando o Botafogo precisa baixar o bloco, baixa. Quando precisa acelerar, acelera. Essa capacidade de modular o jogo coletivo é rara no futebol brasileiro, onde a tendência histórica é reagir ao momento em vez de controlá-lo.
As passagens que moldaram o estilo
Com os dados disponíveis, não é possível mapear com precisão cada clube que passou pela trajetória de Anselmi antes do Botafogo. O que se pode afirmar com segurança é que seu estilo carrega marcas reconhecíveis da escola tática argentina contemporânea — aquela que mistura a intensidade do pressing europeu com a pragmaticidade sul-americana de saber quando recuar sem perder a identidade.
Essa escola não é abstrata. Ela se manifesta em decisões concretas de banco: a troca defensiva feita antes do gol sofrido, não depois; a entrada do segundo volante quando o adversário começa a dominar a segunda bola; o posicionamento ofensivo que não abandona a organização defensiva. São escolhas que revelam um treinador que leu o jogo antes de ele acontecer, não um que improvisa sob pressão.
O que moldou esse estilo pode ter sido um único projeto transformador ou vários ciclos curtos de aprendizado intenso. O resultado, porém, é mensurável: o Botafogo de 2026 tem uma identidade tática reconhecível, e isso é responsabilidade direta do treinador.
O momento atual no time
Há quem argumente que o Botafogo já tinha elenco suficiente para competir no Brasileirão Série A 2026 antes de Anselmi — que o trabalho do técnico é secundário quando se tem a qualidade de jogadores disponível no clube. Esse argumento ignora um dado estrutural: elenco sem método é potencial desperdiçado. A história recente do futebol brasileiro está repleta de times com folhas salariais superiores que naufragaram por ausência de identidade coletiva.
O que Anselmi entregou ao Botafogo em 2026 foi exatamente isso: um método. O time sabe o que fazer quando perde a bola. Sabe o que fazer quando a recupera. Sabe quando pressionar e quando conservar. Essa coerência coletiva não aparece em tabelas de artilharia, mas aparece nos resultados acumulados ao longo de uma temporada de 38 rodadas.
A gestão de vestiário, nesse contexto, é tão importante quanto a gestão tática. Um elenco com peças de alto ego — e o Botafogo tem várias — exige hierarquia clara e comunicação direta. Anselmi não é um técnico de discurso motivacional. É um técnico de estrutura: cada jogador sabe sua função, sabe o que é cobrado e sabe as consequências de não cumprir. Essa clareza reduz conflito interno e aumenta comprometimento coletivo.
O que pode vir nas próximas temporadas
A pergunta que a torcida do Botafogo ainda não fez em voz alta, mas que a diretoria certamente já colocou na mesa, é: Anselmi tem projeto de longo prazo no clube ou é uma solução de ciclo curto? A resposta honesta, com os dados disponíveis, é que depende de um único fator — continuidade de resultados consistentes no segundo semestre de 2026.
Treinadores com filosofia definida e método consolidado tendem a crescer com o tempo, não a decair. O segundo ano de um técnico em um clube costuma ser mais produtivo que o primeiro porque o elenco já internalizou os princípios, as trocas são mais cirúrgicas e o tempo de adaptação cai. Se Anselmi mantiver o Botafogo competindo na parte de cima da tabela do Brasileirão Série A até dezembro, o argumento por renovação e ampliação de projeto se torna praticamente irrefutável.
O cenário oposto — queda de rendimento no returno, eliminações precoces em copas, conflitos de vestiário — abriria espaço para questionamentos legítimos. Mas, até aqui, os indicadores apontam para um treinador que sabe exatamente onde está e o que precisa fazer. E no futebol brasileiro, essa clareza já vale mais do que metade da tabela.

O Botafogo de Martin Anselmi entra no segundo semestre de 2026 com um ativo que dinheiro não compra diretamente: identidade. O próximo passo é transformá-la em título. O relógio marca 19 rodadas disputadas — e o trabalho ainda está no meio do caminho.










