A última vez que uma Copa do Mundo gerou tanto ruído por causa de minutos perdidos antes do apito inicial foi em 2002, quando o torneio disputado entre Japão e Coreia do Sul enfrentou críticas sobre a logística binacional e os deslocamentos entre países. Vinte e quatro anos depois, o problema voltou — mas com uma natureza diferente e, desta vez, com dados concretos para quantificá-lo: levantamento da BBC revelou que praticamente todos os jogos disputados até agora na Copa do Mundo 2026 começaram depois do horário oficial estipulado pela Fifa, com uma média de três minutos de atraso por partida.
Os números que a Fifa prefere não comentar
A partida de abertura entre México e África do Sul, no Estádio Azteca, deu o tom: o pontapé inicial aconteceu seis minutos após o previsto. O confronto entre Brasil e Marrocos, um dos jogos mais aguardados da fase de grupos, começou 4 minutos e 27 segundos depois do horário programado. Catar e Suíça foram ainda mais pontuais no atraso — 4 minutos e 53 segundos de espera. Haiti e Escócia registraram 2 minutos e 42 segundos fora do horário. Os números, levantados pela emissora britânica e compilados em matéria do SportNavo, formam um padrão que não pode ser atribuído a episódios isolados.
A Fifa, até o momento, não divulgou qualquer explicação oficial sobre os atrasos sistemáticos. A ausência de comunicado institucional é, em si, um dado relevante: a entidade que regulamenta cada detalhe do jogo — do tamanho da bola ao formato da chuteira — permanece em silêncio diante de uma irregularidade que afeta todas as partidas do torneio.
Três causas identificadas nos bastidores do torneio
Sem pronunciamento oficial, as explicações têm chegado pelos bastidores. A primeira delas é estrutural: a Fifa adotou um novo protocolo para a execução dos hinos nacionais, que agora inclui todos os 26 jogadores relacionados por cada seleção no gramado — nas edições anteriores, apenas os 11 titulares participavam da cerimônia. Grandes bandeiras também passaram a ser exibidas no gramado antes do início das partidas, alongando o ritual pré-jogo.
A mudança já gerou complicações práticas documentadas. Os jogadores do Haiti chegaram ao gramado com aproximadamente um minuto e meio de atraso antes da partida contra a Escócia, segundo a BBC. Funcionários da Fifa precisaram acelerar o procedimento para conter o impacto. A segunda causa identificada são as elaboradas cerimônias de abertura preparadas pelos três países-sede — México, Estados Unidos e Canadá — para suas partidas inaugurais, apresentações especiais que consumiram tempo além do previsto.
A terceira explicação, e talvez a mais reveladora do ponto de vista cultural, vem da influência das transmissões televisivas americanas. Nos esportes dos Estados Unidos, atrasos em relação ao horário oficial são rotineiros: jogos da NBA, da NFL e da MLB frequentemente começam alguns minutos depois do previsto para acomodar blocos comerciais e ajustes de transmissão. O The Athletic reportou que uma pausa para hidratação durante a partida entre México e África do Sul foi prolongada em cerca de 40 segundos porque a Fox Sports, principal emissora da competição nos Estados Unidos, ainda não havia encerrado seu intervalo comercial.

O campo em Dallas e o jogo que começou sonolento e terminou alucinante
Enquanto o debate sobre pontualidade se instalava nos bastidores, o Grupo D entregou um dos jogos mais intensos da fase inicial. Holanda e Japão se enfrentaram em Dallas num confronto que começou lento — com poucas chances de lado a lado no primeiro tempo — e terminou com um empate em 2 a 2, todos os gols marcados na segunda etapa. Van Dijk e Summerville balançaram as redes pela Oranje; Nakamura e Kamada responderam pelos japoneses.
O resultado tem implicação direta para o Brasil: uma das duas seleções será adversária da Seleção na fase de 16 avos de final, dependendo das posições finais no Grupo D. Se o Brasil terminar em primeiro no seu grupo, enfrentará o segundo colocado da chave de Holanda e Japão — e vice-versa.
Yamal no banco e a Espanha sob pressão de estrear bem
Enquanto o debate sobre os atrasos tomava conta dos bastidores, o Grupo H apresentou sua própria tensão pré-jogo. O técnico da Espanha, Luis de la Fuente, confirmou em coletiva realizada no domingo, em Atlanta, que Lamine Yamal começará no banco de reservas na estreia contra Cabo Verde, nesta segunda-feira (15), às 13h (horário de Brasília). O atacante do Barcelona, que não entra em campo desde abril por conta de uma lesão muscular na coxa esquerda, foi liberado pelo departamento médico, mas o técnico optou pela cautela.
"A boa notícia é que o Lamine está em perfeitas condições, está apto a jogar, assim como era previsto. Chegou bem, está no estado que queríamos, está muito bem fisicamente", afirmou De la Fuente.
O treinador deixou aberta a possibilidade de utilizá-lo ao longo da partida, dependendo do andamento do jogo.
"Não vai começar jogando, mas poderá jogar minutos importantes, e vamos tomar a decisão com o andamento da partida", completou o técnico espanhol.
Nico Williams e Victor Muñoz, que também se recuperavam de lesões, estão disponíveis mas igualmente fora do time titular planejado por De la Fuente. A Espanha, atual campeã da Eurocopa, tem ainda dois compromissos na fase de grupos: contra a Arábia Saudita no dia 21 e contra o Uruguai no dia 26.
A Copa do Mundo 2026 tem 104 jogos programados ao longo de todo o torneio. Se a média de três minutos de atraso por partida se mantiver até a final, o somatório chegará a mais de cinco horas de tempo perdido fora do campo — um número que, sozinho, justificaria uma explicação oficial da Fifa antes da próxima rodada.








