Voltou. No último domingo, 24 de maio, o Parque São Jorge viu Memphis Depay entrar em campo pelo Corinthians contra o Atlético-MG, no Brasileirão, depois de mais de dois meses parado por lesão muscular. Três dias depois, Ronald Koeman anunciou a lista da Holanda para a Copa do Mundo — e o nome do atacante estava lá, em negrito, inegociável.
A narrativa que se espalhou pelo Brasil nas últimas semanas era simples demais: Memphis ia à Copa por nome, por legado, por ser o maior artilheiro da história da seleção laranja — os 55 gols em 108 partidas funcionando como uma espécie de passaporte vitalício. Mas essa leitura ignora o que aconteceu de verdade. Koeman não convocou um museu. Convocou um jogador que, mesmo saindo do banco, ainda tem a capacidade de mudar um jogo com um drible, uma assistência ou um chute de fora da área.
O peso de 55 gols e o que os números escondem
Cinquenta e cinco gols. O número soa grandioso — e é. Mas o que ele esconde é a trajetória acidentada que Memphis percorreu para chegar aqui. Nas duas Copas anteriores, em 2014 e 2022, ele foi figura, mas nunca o protagonista absoluto que a torcida holandesa esperava. Em 2014, no Brasil, a Holanda chegou às semifinais com um Memphis de 20 anos ainda descobrindo o próprio peso numa competição desse tamanho. Em 2022, no Catar, entrou como referência ofensiva e marcou dois gols — incluindo um golaço de falta contra os Estados Unidos nas oitavas —, mas a seleção foi eliminada nos pênaltis pela Argentina nas quartas de final.
Para ter uma comparação histórica concreta: quando Johan Cruyff liderou a Holanda ao vice-campeonato de 1974 contra a Alemanha Ocidental — derrota por 2 a 1 na final de Munique —, ele tinha 27 anos e era o jogador mais dominante do planeta. Memphis chega à Copa do Mundo 2026 com 32 anos, não com o mesmo domínio de Cruyff, mas com algo que o holandês nunca teve: a experiência de ter sobrevivido a três ciclos mundialistas e ainda ser chamado por um técnico que não tem paciência para sentimentalismo.
"Memphis está de volta e está pronto", disse Koeman ao anunciar a lista nesta quarta-feira, 27 de maio, sinalizando que a convocação não foi um gesto de carinho, mas uma decisão técnica.
A lesão que quase tirou Memphis da Copa e o que o Corinthians viu no retorno
Dois meses e alguns dias. Esse foi o tempo que Memphis ficou fora dos gramados — um período longo demais para um jogador de 32 anos que precisava mostrar forma antes de uma Copa do Mundo. A lesão muscular o tirou de uma sequência de jogos pelo Corinthians justamente quando o clube alvinegro mais precisava de seus gols no Brasileirão 2026.
O retorno no domingo contra o Atlético-MG foi monitorado palmo a palmo pela comissão técnica holandesa — e provavelmente pelo próprio Koeman, que tem olheiros espalhados pelo mundo. Memphis entrou no segundo tempo, moveu-se bem, não demonstrou limitação física visível. Não foi uma partida completa, não foi uma exibição de gala. Mas foi suficiente para confirmar o que a comissão técnica precisava ver: o corpo está respondendo.
O SportNavo apurou que a convocação foi tratada com cautela nos bastidores da federação holandesa nas últimas semanas — havia uma janela real de corte caso Memphis não voltasse a atuar antes do prazo de entrega da lista à FIFA. O jogo contra o Atlético-MG, portanto, foi mais do que um retorno pelo clube. Foi um teste classificatório.
Memphis no grupo F e o que Koeman espera do atacante em campo
A Holanda foi sorteada no Grupo F ao lado de Japão, Suécia e Tunísia — um grupo que, no papel, coloca os holandeses como favoritos à classificação, mas que esconde armadilhas. O Japão chega à Copa como uma das seleções asiáticas mais organizadas taticamente do mundo. A Suécia tem jogadores de alto nível na Europa. E a Tunísia, historicamente, complica qualquer adversário que subestime sua intensidade defensiva.
Nesse contexto, Memphis não será necessariamente o titular absoluto. Ao lado de Cody Gakpo — artilheiro do Liverpool na temporada europeia 2025/2026 — e de nomes como Donyell Malen, do Roma, e Wout Weghorst, do Ajax, a concorrência no ataque holandês é real. Mas Memphis carrega algo que nenhum outro atacante da lista tem: a capacidade de resolver um jogo sozinho quando o placar está empatado e o relógio correndo.
"Ele conhece esse torneio como ninguém no nosso elenco", teria dito um membro da comissão técnica holandesa, segundo fontes próximas à federação. "Três Copas ensinam coisas que nenhum treino consegue."
Antes da estreia no torneio, a Holanda ainda faz dois amistosos preparatórios — contra a Argélia, no dia 3 de junho, e contra o Uzbequistão, no dia 8. Esses dois jogos serão o termômetro real da condição física de Memphis. Se ele entrar bem, se o músculo aguentar o ritmo de jogo, Koeman terá em mãos um trunfo que vai muito além dos 55 gols no currículo — terá um jogador que chegou ao terceiro Mundial com fome de título e com a cicatriz de quem quase ficou de fora.












