— Mano, ele perdeu o pênalti. Ia ficar nisso hoje.
— Espera. Você sabe que é o Messi, né?
— Pois é. Trinta minutos depois, 17 gols. Maior artilheiro da história.
Esse diálogo aconteceu em algum bar de Dallas, Buenos Aires e São Paulo ao mesmo tempo, na tarde desta segunda-feira, 22 de junho. Copa do Mundo 2026, Grupo J, Argentina 2 a 0 Áustria. O estádio AT&T Stadium, em Dallas, com mais de 70 mil torcedores, foi palco do momento que a maioria dos presentes sabia que iria testemunhar — só não sabia exatamente quando.
O pênalti perdido antes da história
Aos 8 minutos do primeiro tempo, depois de seis minutos de espera pelo VAR, Lionel Messi colocou a bola na marca e tinha a chance de bater o recorde com um único toque. Chutou para fora. O goleiro austríaco Alexandar Schlager nem precisou se mexer. Era o terceiro pênalti perdido por Messi em Copas — e o primeiro que ele mandou para fora, já que os anteriores, contra a Islândia em 2018 e contra a Polônia em 2022, ao menos exigiram defesas de Halldórsson e Szczesny, respectivamente. Com isso, o camisa 10 argentino se tornou o primeiro jogador da história a perder pênaltis em três Copas do Mundo consecutivas, isolando-se à frente do ganês Asamoah Gyan, que tinha dois desperdícios na conta.
O recorde negativo durou menos de meia hora. Aos 38 minutos, após corta-luz de Almada e passe de Lautaro Martínez, Messi recebeu na entrada da área e bateu de chapa. Gol. Décimo sétimo na história das Copas. O maior artilheiro masculino do torneio, de uma vez por todas.
De Klose a Messi — a linha que demorou 12 anos para ser cruzada
Miroslav Klose chegou ao seu 16º gol em Copas no dia 8 de julho de 2014, marcando contra o Brasil no 7 a 1 do Estádio Mineirão — e tomou o posto que era de Ronaldo Fenômeno, que tinha 15 gols em quatro edições do torneio (1994, 1998, 2002 e 2006). Por doze anos, o atacante alemão manteve o recorde intocado, disputando quatro Copas (2002, 2006, 2010 e 2014) com uma consistência impressionante.
Messi, por sua vez, construiu sua artilharia de forma mais acidentada. Estreou em 2006 sem grande impacto, passou em branco em 2010 — quando a Argentina de Diego Maradona foi eliminada pela Alemanha, de Klose, por 4 a 0 nas quartas de final — e foi acumulando gols Copa a Copa. Em 2022, no Catar, anotou sete gols na campanha do título argentino, incluindo um no tempo normal e outro na prorrogação da final contra a França. Chegou a 2026 com 13 gols, marcados ao longo de cinco edições. Na estreia desta Copa, contra a Argélia, fez três de uma vez e igualou Klose. Dois dias depois, na partida contra a Áustria, ultrapassou.
- Messi — 17 gols em 6 Copas (2006 a 2026)
- Klose — 16 gols em 4 Copas (2002 a 2014)
- Ronaldo Fenômeno — 15 gols em 4 Copas (1994 a 2006)
Marta e a simetria que a Copa nunca planejou
Há uma coincidência que a história registrará com atenção: ao chegar a 17 gols, Messi igualou a brasileira Marta, maior artilheira da história da Copa do Mundo feminina, com os mesmos 17 gols em seis edições — 2003, 2007, 2011, 2015, 2019 e 2023. Marta chegou ao número em 23 partidas. Messi, com o gol desta segunda-feira, ainda não encerrou sua campanha em 2026. O paralelismo entre os dois vai além da estatística: ambos disputaram seis Copas, ambos carregaram seleções que nem sempre estiveram à altura de seus talentos individuais, ambos tiveram que esperar mais do que o esperado pela conquista máxima.
"O show começado no Catar seguia em grande estilo nos Estados Unidos, sexto jogo seguido com gol dele, para se igualar a Just Fontaine e a Jairzinho, todos numa mesma Copa — o francês em 1958, o brasileiro em 1970."
A observação, feita pela cobertura da partida, coloca Messi em companhia que vai além dos artilheiros puros: Fontaine marcou 13 gols na Copa de 1958 na Suécia, recorde de gols numa única edição do torneio; Jairzinho foi o único jogador a marcar em todas as fases de uma Copa, em 1970 no México. Messi, aos 38 anos, está fazendo algo diferente — está reescrevendo o que significa durar.
Os pênaltis que ficaram pelo caminho
Ironicamente, os números mostram que Messi poderia ter chegado a 20 gols em Copas se tivesse convertido todos os seus pênaltis. Com sete cobranças de pênalti com bola rolando em Mundiais — outro recorde isolado — ele converteu apenas quatro. Em disputas por pênaltis, contudo, seu aproveitamento é perfeito: três cobranças, três gols. O maior artilheiro da história do torneio masculino também é, paradoxalmente, o jogador que mais desperdiçou penalidades no regulamentar das partidas.
O que ainda está em jogo na Copa 2026
Com 17 gols e a Argentina ainda na fase de grupos, Messi tem pela frente ao menos mais uma partida antes das oitavas de final. O francês Kylian Mbappé, aos 27 anos em sua terceira Copa, chegou a 14 gols no torneio após marcar duas vezes contra o Senegal na estreia desta edição — e enfrenta o Iraque nesta mesma segunda-feira, às 18h de Brasília. A diferença de três gols entre Messi e Mbappé é o novo recorde a perseguir, numa Copa que, pelo andar do campeão argentino, pode terminar com a marca ainda mais distante para qualquer perseguidor futuro. É o mesmo cenário que Ronaldo Fenômeno viveu em 2002 — isolado no topo da artilharia, com o mundo tentando calcular se alguém chegaria um dia — só que agora a aposta é que ninguém alcança Messi enquanto ele ainda estiver em campo.








