Confesso: quando a chave da Copa do Mundo foi sorteada, escrevi nos meus rascunhos que a Argentina correria sério risco de cruzar com Espanha ou Uruguai já na segunda fase. Errei em relação ao Uruguai — e o responsável pelo meu erro chama-se Cabo Verde. A seleção africana, estreante absoluta no torneio, eliminou a Celeste de Bielsa e assumiu o segundo lugar do Grupo H, transformando o que seria um duelo de tradições históricas num encontro entre a bicampeã mundial e uma nação que disputa sua primeira Copa. A lição, como sempre, está nos dados: subestimar estreantes custa caro.

Argentina com 100% e um chaveamento que favorece o bicampeonato

A Albiceleste encerrou o Grupo J com três vitórias em três jogos, aproveitamento de 100%, e a liderança que lhe garante o lado mais acessível da chave. Para quem acompanha Copas desde o México-1986 — quando Maradona conduziu a Argentina ao título com seis gols e cinco assistências em sete partidas —, a posição de Lionel Scaloni lembra a de Carlos Bilardo naquele torneio: uma equipe organizada, com identidade tática clara e um camisa 10 que pode decidir sozinho quando necessário. O Grupo J reunia ainda Áustria, Argélia e Jordânia. A seleção jordaniana, em sua estreia histórica no Mundial, marcou gols nas três partidas disputadas, mas não somou nenhum ponto. O técnico Jamal Sellami reconheceu o valor da experiência:

CÂMERA ANALÓGICA EM PARTIDA DE COPA DO MUNDO DO BRASIL
"Temos um grupo de jovens jogadores nesta geração que têm um grande futuro. Acho que essa foi uma experiência muito importante para eles. Mas o mais importante para dar mais impulso, mais motivação e mais chances de vitória é ter jogadores em ligas com maior e mais forte competitividade", disse Sellami.

O dado que Sellami citou indiretamente é preciso: dos jogadores convocados pela Jordânia, apenas o atacante Mousa Altamari, do Rennes, atua em uma das cinco principais ligas europeias. A Argentina, por contraste, tem titulares espalhados por Real Madrid, Manchester City, Atlético de Madrid e Juventus. A diferença de nível competitivo entre os elencos é histórica e estrutural.

O chaveamento construído pela liderança do Grupo J garante que a Argentina, até uma eventual semifinal, não enfrente nenhuma seleção campeã mundial. Brasil e Inglaterra estão no mesmo lado da chave e, se confirmarem o favoritismo, duelam nas quartas. Portugal, que muitos esperavam como adversário nas quartas argentinas, tropeçou com dois empates e ficou atrás da Colômbia no grupo, alterando completamente a projeção. O caminho argentino até a semifinal passa por Cabo Verde, depois pelo vencedor de Austrália x Egito, e nas quartas por Suíça, Argélia, Colômbia ou Gana — todas seleções sem títulos mundiais no currículo, como apurado em matéria do SportNavo.

Cabo Verde elimina o Uruguai e vira a surpresa que ninguém calculou

A comparação histórica é inevitável. Em 1990, os Camarões eliminaram a Argentina de Maradona na estreia, vencendo por 1 a 0 em Milão. Em 2002, o Senegal derrubou a França campeã na abertura do torneio. Cabo Verde não chegou a eliminar nenhuma grande potência na fase de grupos, mas despachar o Uruguai — seleção com dois títulos mundiais (1930 e 1950) e tradição de mata-matas duros — é um feito que merece análise séria. A seleção africana, que disputa sua primeira Copa do Mundo, terminou em segundo no Grupo H, à frente dos uruguaios. Esse resultado é o tipo de dado que a análise estatística pura não captura: há uma geração de jogadores cabo-verdianos formados em Portugal e Espanha, com ritmo competitivo europeu, que chegou ao torneio sem o peso do favoritismo e sem nada a perder.

A Argentina, ao contrário, carrega o peso de defender o título conquistado no Qatar em dezembro de 2022, quando venceu a França nos pênaltis após empate por 3 a 3 no tempo regulamentar — a final mais dramática desde a Itália-Brasil de 1994. Esse peso psicológico é real. No futebol, como no trânsito da Avenida Paulista às 18h, a pressão acumula e cobra seu preço nos momentos mais inesperados.

Messi poupado, Messi decisivo — e o que isso revela para o mata-mata

Scaloni optou por poupar Lionel Messi no início da partida contra a Jordânia, colocando-o apenas no segundo tempo. A decisão era previsível para quem acompanha a gestão do camisa 10 desde 2021: o técnico sabe que Messi, aos 38 anos, não pode mais disputar 90 minutos em três jogos consecutivos sem comprometer seu rendimento físico. O que não era previsível — ou talvez fosse, para quem conhece a história do jogador — foi a eficiência com que ele resolveu em pouco mais de 30 minutos em campo. Messi fechou o placar de 3 a 1 com uma cobrança de falta, seu gol mais clássico: aquele arco tenso, a bola que sobe e desce antes que o goleiro entenda o que aconteceu. Após a classificação, o próprio capitão publicou nas redes sociais:

"Mais uma vitória para concluir a fase de grupos. Ainda estamos juntos", escreveu Messi em sua conta oficial.

A frase curta carrega uma mensagem tática: Scaloni construiu um elenco coletivo, não uma equipe dependente de um único jogador. Julián Álvarez, Lautaro Martínez e Rodrigo De Paul têm protagonismo real. Mas os números de Messi em Copas do Mundo falam por si: 13 gols e 8 assistências em 26 partidas antes desta edição, com títulos em 2021 (Copa América) e 2022 (Mundial). Nenhum jogador na história combinou essa longevidade com essa consistência em torneios de seleções.

O confronto contra Cabo Verde está marcado para a segunda fase do torneio. A Argentina entra como favorita absoluta — os modelos estatísticos da Opta apontam mais de 89% de chance de classificação para os argentinos. Mas quem viu o Grupo H sabe que Cabo Verde já derrubou uma projeção dessas. Se Messi começar como titular pela primeira vez no mata-mata desta Copa, será a primeira vez que ele abre um jogo eliminatório desde a semifinal contra a Croácia no Qatar, em dezembro de 2022. Você apostaria que Cabo Verde consegue segurar a Argentina por mais de 70 minutos com Messi em campo desde o início?