"Aqui em casa, todo mundo já sabe o grupo, os adversários, os horários dos jogos. Mas saio na rua e não vejo nada." A frase foi dita por um comerciante colombiano do bairro de Little Havana, em Miami, e resume com precisão cirúrgica a contradição que a cidade vive a menos de um mês da abertura da Copa do Mundo de 2026 na América do Norte. A febre existe. Só não chegou ainda às calçadas.

A Copa que ferve por baixo da superfície em Miami

Miami foi escolhida como uma das 16 cidades-sede da Copa do Mundo de 2026, que se distribui por Estados Unidos, Canadá e México num formato inédito de 48 seleções e 104 partidas — o maior torneio da história da competição, superando o recorde anterior de 64 jogos estabelecido em 1998, quando a França ampliou o campo para 32 seleções. O Hard Rock Stadium, em Miami Gardens, capacidade para aproximadamente 65.000 espectadores, está na lista de estádios confirmados para receber ao menos seis partidas da fase de grupos e, possivelmente, jogos do mata-mata.

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A expectativa, ao menos dentro das comunidades latinas, é palpável. Em grupos de WhatsApp de famílias venezuelanas, cubanas, colombianas e brasileiras que habitam os bairros de Hialeah, Doral e Brickell, a Copa já é assunto diário: escalações prováveis, preços de ingressos, logística de transporte até o estádio. Treinos de futebol infantil em parques públicos da cidade registraram aumento de frequência nas últimas semanas, segundo relatos colhidos na região, como registrado por SportNavo a partir de fontes locais. Pais levam filhos com camisas de seleções — Argentina, Brasil, México, Colômbia — como se o torneio já tivesse começado.

"Meu filho de oito anos já decorou todos os grupos. Ele sabe onde o Brasil joga, quando, e já quer ir ao estádio. Para nós, latinos, a Copa começa muito antes do apito inicial."

A fala, atribuída a uma mãe brasileira residente em Doral, captura algo que os dados históricos confirmam: as comunidades latinas nos Estados Unidos são, há décadas, o principal motor de audiência do futebol no país. A Copa de 1994, realizada nos EUA com média de 68.991 espectadores por jogo — recorde absoluto até hoje —, teve nas torcidas latinas seu principal combustível nas arquibancadas, muito antes de o futebol profissional americano ganhar a dimensão que tem hoje com a MLS.

O silêncio das ruas contradiz o que a história das Copas-sede ensinava

Quem acompanhou de perto as edições anteriores realizadas fora da Europa sabe que a mobilização urbana costuma ser precoce. Na Copa de 2014, no Brasil, as decorações de rua em cidades-sede como Fortaleza, Belo Horizonte e Rio de Janeiro começaram a aparecer com três meses de antecedência. Em 2002, na Coreia do Sul, as ruas de Seul já estavam tomadas por bandeiras a 45 dias do início. Em 2010, na África do Sul, as vuvuzelas invadiam os mercados de Johannesburgo desde março, quatro meses antes da abertura.

Miami, em contraste, apresenta um cenário diferente. As avenidas de South Beach, as galerias do Design District e os corredores do Brickell City Centre seguem com sua decoração comercial habitual. Não há bandeiras de seleções em postes, não há contagem regressiva digital nos painéis eletrônicos das avenidas principais, não há o tipo de transformação visual que cidades-sede costumam exibir neste estágio. A explicação tem ao menos três camadas históricas e sociológicas.

Primeiro, Miami nunca foi uma cidade de futebol no sentido europeu ou sul-americano do termo. O Inter Miami CF, fundado em 2018 e que hoje conta com Lionel Messi no elenco, ajudou a mudar a percepção — a chegada do argentino em julho de 2023 gerou filas de horas para camisas e esgotou o estádio DRV PNK Stadium em questão de dias —, mas o futebol ainda compete com o basquete do Miami Heat, o beisebol dos Marlins e o futebol americano dos Dolphins pelo espaço simbólico da cidade. Segundo, a Copa de 2026 é um evento distribuído: Miami é uma entre 16 sedes, e essa diluição geográfica reduz o senso de protagonismo local que uma Copa concentrada — como a de 2014, com 12 cidades em um único país — naturalmente gera. Terceiro, o calendário comercial americano tende a ativar o varejo e a decoração urbana tardiamente, em geral na semana anterior ao evento.

"Os americanos não decoram a cidade com dois meses de antecedência. Eles ligam a chave no dia anterior e explodem. Vai ser diferente do que estamos acostumados a ver no Brasil ou na Argentina, mas vai acontecer."

A observação, feita por um organizador de eventos esportivos radicado em Miami com experiência em grandes competições internacionais, aponta para uma leitura que merece ser levada a sério antes de decretar apatia.

A síntese entre expectativa latina e ritmo americano define o que Miami será em junho

A interpretação dominante — de que Miami está fria para a Copa — desafia comparações apressadas com edições europeias ou sul-americanas. A contra-leitura mais consistente é que Miami está aquecida de dentro para fora: a energia existe, mas está represada nas comunidades, nos grupos familiares, nas escolinhas de futebol, à espera de um gatilho externo para transbordar para as ruas. Esse gatilho tem nome e data: a abertura oficial do torneio, marcada para junho de 2026, e os primeiros jogos no Hard Rock Stadium.

Historicamente, há precedente para esse padrão de ebulição tardia. Na Copa de 1994, relatos jornalísticos da época documentaram que Los Angeles parecia indiferente ao torneio até a semana de jogos — e então o Rose Bowl recebeu 94.194 espectadores na final entre Brasil e Itália, número que permanece como o maior público de uma final de Copa do Mundo em toda a história da competição. O futebol americano não anuncia, ele explode.

A comunidade latina de Miami, com sua densidade demográfica — estima-se que cerca de 70% da população da cidade seja de origem hispânica ou latina —, tem capacidade de transformar o Hard Rock Stadium num caldeirão comparável a qualquer estádio sul-americano. O ingrediente que falta não é paixão. É o apito inicial. Quando os primeiros jogos começarem e as ruas ao redor do estádio se encherem de bandeiras, churrasco e canto em espanhol e português misturados, a pergunta que ficará é: se a Copa de 1994 produziu a maior final da história com 94.194 pessoas em Los Angeles, o que Miami, 32 anos depois e com uma comunidade latina três vezes maior, é capaz de fazer com um jogo de Brasil ou Argentina no Hard Rock Stadium?