Confesso: eu errei sobre o CRB em 2024. Escrevi, com a convicção de quem acha que conhece o futebol nordestino de cor, que o clube alagoano não tinha estrutura financeira para sustentar uma campanha de acesso consistente. Os números do balanço patrimonial de 2024 — divulgado em março deste ano — me deram um tapa na cara: o CRB fechou o exercício com receita operacional de R$ 38,7 milhões, crescimento de 22% sobre o ano anterior, e um contrato de naming rights com a Arena Rei Pelé renovado por mais três temporadas. Eu estava errado. E a goleada desta sexta-feira no Estádio Antônio Accioly, 3 a 0 sobre o Atlético Goianiense pela 13ª rodada do Brasileirão Série B, é o argumento mais recente para que eu reveja minha análise de vez.
O herói da partida
Mikael. O nome é simples, o desempenho não foi. O atacante do CRB marcou dois gols — aos 1 e aos 31 minutos — e foi o eixo em torno do qual o jogo inteiro girou. Contratado no início de 2026 por cerca de R$ 1,2 milhão em luvas, com vínculo até dezembro de 2027 e cláusula de compra obrigatória caso o clube suba para a Série A, Mikael foi apresentado como reforço de médio impacto. A diretoria do CRB, que nos bastidores admitia pressão do conselho fiscal por contenção de gastos, apostou nele como solução de custo-benefício. Nesta noite, o investimento pareceu barato demais.
Há uma cena no filme Moneyball — a adaptação do livro de Michael Lewis sobre o Oakland Athletics — em que o personagem de Brad Pitt insiste que o valor de um jogador está nos números que ninguém está olhando. Mikael é exatamente esse tipo de atleta: não aparece nas pranchetas dos grandes clubes, não tem representante de escritório em São Paulo, mas entrega consistência estatística. Dois gols em uma única partida da Série B, com assistências de Thiaguinho e Dadá Belmonte, não é acidente.
O que ele fez em campo
O primeiro gol saiu logo no primeiro minuto — e a velocidade com que o CRB abriu o placar já dizia tudo sobre o estado de desorganização do Atlético Goianiense. Thiaguinho recebeu na intermediária, encontrou Mikael em profundidade e o atacante finalizou com o pé direito sem dar chance ao goleiro. O Dragão ainda tentava se organizar quando, aos 7 minutos, Crystopher acionou Thiaguinho pelo lado esquerdo e o camisa 10 alagoano bateu cruzado com o pé esquerdo para ampliar. Dois a zero em sete minutos: o jogo estava resolvido antes de qualquer ajuste tático do técnico do Atlético Goianiense.
A substituição de Patrick de Lucca por Hereda logo aos 4 minutos — incomum para tão cedo — revelou que o Dragão já tinha um problema físico ou disciplinar antes de o jogo começar a desandar. Leandro Vilela saiu aos 21 minutos, dando lugar a Índio, numa tentativa de recompor o meio-campo. Não funcionou. Aos 31 minutos, Dadá Belmonte — nome que aparece nos documentos internos do CRB como um dos jogadores com maior índice de assistências por 90 minutos na pré-temporada — encontrou Mikael novamente, desta vez com o pé esquerdo, para fechar o placar em 3 a 0 antes do intervalo.
O cartão amarelo de Thiaguinho aos 45 minutos, somado ao de Danielzinho aos 12 e ao de Paulo Vítor aos 38, pintou o retrato de um Atlético Goianiense que perdeu o fio do jogo e passou a reagir com o emocional. No segundo tempo, Luizão e Bruno José de Souza — substituídos aos 46 minutos — ainda receberam cartões amarelos depois de já terem saído de campo, numa sequência que o árbitro precisou administrar com firmeza. Gustavo Coutinho, com assistência de Geovany dos Santos Soares, marcou o gol do Atlético Goianiense aos 54 minutos, apenas para constar no placar.
Como o time se ergueu (ou caiu) com ele
O CRB de 2026 tem uma característica que os dados de desempenho coletivo confirmam: quando Mikael entra em forma, o time joga em bloco alto e pressiona a saída de bola adversária com intensidade acima da média da Série B. Nesta partida, o esquema com Thiaguinho como meia-atacante livre e Crystopher como ala direito criou superioridade constante no corredor central do Atlético Goianiense. A linha de quatro do Dragão foi repetidamente exposta nas costas, e o trio ofensivo do CRB explorou esse espaço com movimentação sincronizada.
O Atlético Goianiense, por sua vez, mostrou os limites de um elenco que ainda busca identidade tática na Série B de 2026. O clube goiano, que investiu cerca de R$ 4,5 milhões em contratações para esta temporada segundo informações apuradas em matéria do SportNavo, não conseguiu transformar esse aporte financeiro em organização defensiva. As duas substituições forçadas nos primeiros 21 minutos — uma delas já aos 4 minutos — indicam problemas de planejamento de elenco que vão além do resultado desta noite.
A goleada no Accioly coloca o Atlético Goianiense em posição delicada na tabela da Série B, enquanto o CRB consolida sua candidatura ao grupo de acesso. O clube alagoano soma pontos importantes numa fase em que o calendário aperta e as diferenças entre os times do pelotão da frente começam a aparecer.
E agora, o que esperar
O CRB chega à 14ª rodada com moral elevada e um Mikael que, se mantiver este ritmo, vai forçar o mercado a rever as cláusulas do contrato firmado no início do ano. A diretoria alagoana já tem conversas internas sobre a renovação antecipada do atacante — a cláusula de compra obrigatória em caso de acesso é de R$ 2,8 milhões, um valor que pode parecer irrisório se o jogador continuar neste nível. O Atlético Goianiense, por sua vez, precisa responder rápido: a próxima rodada pode aprofundar a crise ou iniciar uma recuperação, mas o técnico vai precisar explicar ao conselho por que um time que investiu na montagem do elenco tomou 3 a 0 em casa em menos de 32 minutos.
A 14ª rodada da Série B acontece na semana que vem, e o jogo do CRB merece atenção especial — se Mikael seguir no ritmo desta noite, a tabela vai começar a contar uma história diferente da que eu escrevi há dois anos. Vale marcar na agenda e acompanhar de perto.








