38%. Esse é o percentual de aproveitamento dos times que bateram por segundo nas disputas de pênaltis em eliminatórias de Copas do Mundo entre 1982 e 2022, segundo levantamento publicado pelo Journal of Sports Sciences em 2018. Quem bateu primeiro nesse mesmo período converteu decisões em 60% dos casos. Agora a Copa do Mundo de 2026 pode ser a primeira edição da história a aplicar uma regra que redistribui, pelo menos em parte, essa vantagem histórica.
O número que a Fifa não conseguiu mais ignorar
O mecanismo atual é simples e duplo: dois sorteios de moeda antes das cobranças. O primeiro define quem escolhe bater primeiro ou o lado do campo. O segundo sorteia o item restante para o time que perdeu o primeiro. O problema, identificado pela própria entidade, é que uma equipe pode ganhar os dois sorteios — e acumular as duas vantagens simultaneamente. A proposta encaminhada ao International Football Association Board (IFAB) unifica tudo em um único lançamento de moeda: quem vencer escolhe entre ordem de cobrança ou lado, e o adversário fica com o item restante.
Reparemos no detalhe: a mudança não elimina o acaso, ela o equilibra. Antes, a probabilidade de uma equipe concentrar ambas as vantagens era de 25% — uma em cada quatro disputas. Com o novo modelo, essa concentração deixa de existir por definição. Cada time terá exatamente uma escolha estratégica antes do primeiro pênalti cobrado.
Segundo o The Times, que revelou a proposta, a Fifa entende que o formato atual "pode gerar uma dupla vantagem para uma mesma equipe, caso ela vença ambos os sorteios", e que a mudança "buscaria dividir os benefícios entre os dois lados e aumentar a sensação de equilíbrio nas decisões". A reunião extraordinária do IFAB ainda não tem data confirmada, mas a entidade sinalizou que a regra poderia ser aplicada ainda nesta edição do torneio, que tem sua fase eliminatória iniciando em julho de 2026.
O peso histórico de bater primeiro em Copas
A Copa de 1982, na Espanha, inaugurou os pênaltis como critério de desempate em fases eliminatórias do Mundial. Desde então, foram 30 disputas em fases de mata-mata até a edição de 2022. Desse total, o time que bateu primeiro saiu vencedor em 18 ocasiões — 60% dos casos, confirmando a assimetria que os pesquisadores do Journal of Sports Sciences documentaram décadas depois.
Os episódios mais emblemáticos reforçam o dado. Em 1990, na semifinal entre Argentina e Itália no San Paolo, a Argentina bateu primeiro e eliminou os donos da casa por 4 a 3. Em 2006, na final entre Itália e França, os italianos, que bateram primeiro, converteram todos os cinco cobrados e ergueram a taça. Em 2022, a Argentina de Messi eliminou a Holanda nas quartas de final (4 a 3 nos pênaltis) e depois a França na decisão (4 a 2) — em ambas as ocasiões, os argentinos bateram primeiro.
Há exceções notáveis, claro. Em 2018, a Rússia eliminou a Espanha batendo por segundo, com Akinfeev defendendo os dois últimos pênaltis. Mas são exatamente essas exceções que confirmam a regra estatística: bater por segundo exige um nível de resiliência psicológica que poucos elencos sustentam sob pressão de Copa do Mundo.
A escolha estratégica que vai separar os bem preparados
A nova regra transforma o sorteio em uma decisão técnica de alto nível. O capitão ou comissão técnica que vencer a moeda precisará responder, em segundos, a uma pergunta que hoje não existe: vale mais bater primeiro e impor pressão psicológica, ou escolher o lado do campo e posicionar o goleiro em condição preferencial de luz e ângulo?
A pesquisa de Geir Jordet, psicólogo esportivo norueguês que estudou 366 cobranças de pênaltis em Copas entre 1976 e 2012, mostrou que jogadores que demoram mais de um segundo antes de correr para a bola têm taxa de conversão 12 pontos percentuais menor do que aqueles que arrancam imediatamente. A pressão de bater por segundo, agravada pela possibilidade de já estar em desvantagem no placar, é um fator mensurável de degradação técnica.
Times com protocolos de preparação psicológica consolidados — como a Alemanha, que treina pênaltis com simulação de estádio lotado desde a Copa de 2006, após o trauma de 1998 e 2002 — terão vantagem imediata nesse novo cenário. A escolha entre ordem e lado passará a ser parte do treinamento tático pré-Copa, e não apenas uma questão de sorte dupla como foi até agora.
A Seleção Brasileira, que perdeu eliminações por pênaltis em 1986 (para a França, 4 a 3), em 1998 (para a Holanda, 4 a 2) e em 2011 na Copa América (para o Paraguai, 4 a 3), tem histórico que justifica atenção redobrada ao tema. Curiosamente, em todas essas derrotas, o Brasil bateu por segundo. É o mesmo cenário que a Argentina viveu nas Copas de 1990 e 1998 — só que agora a aposta é diferente, porque a regra vai exigir que alguém, conscientemente, escolha esse caminho.








