O silêncio que tomou o corredor de acesso ao vestiário argentino, minutos depois do apito final contra a Argélia, disse mais do que qualquer coletiva. Gonzalo Montiel saiu mancando, a coxa direita embrulhada em gelo, e o diagnóstico confirmado horas depois virou realidade: lesão muscular. Fora do jogo contra a Áustria, pela segunda rodada do Grupo J da Copa do Mundo. Quem entra no lugar carrega um perfil completamente diferente — e isso muda o jogo antes mesmo da bola rolar.

A lesão de Montiel e o que ela representa para a defesa albiceleste

Não foi o primeiro susto. Montiel chegou ao CT da Argentina em Kansas já no limite — uma lesão anterior contraída na semifinal do Torneio Apertura, pelo River Plate, contra o Rosário Central, ainda assombrava seu histórico de exames. A nova lesão muscular na coxa direita, sofrida na terça-feira, 16 de junho, é independente do problema anterior, segundo a comissão médica da seleção. Mas o efeito prático é o mesmo: Lionel Scaloni terá que reorganizar o lado direito da defesa para um duelo que promete ser físico e veloz.

Montiel não é titular indiscutível nesta Argentina, mas ocupa um papel tático muito específico. Ele é o lateral que fecha, que equilibra, que cobre o espaço sem criar riscos desnecessários. Scaloni conta com ele como um jogador de gestão defensiva — e perder isso contra uma Áustria treinada para explorar exatamente esse corredor é uma variável que o técnico precisará resolver em campo.

Nahuel Molina assume a vaga com características opostas

Quem entra é Nahuel Molina, lateral do Atlético de Madrid, e o contraste com Montiel é quase cinematográfico — como se Scaloni trocasse o personagem cauteloso de um thriller de espionagem pelo protagonista que sai atirando antes de perguntar. Molina chegou à seleção também com um incômodo muscular, mas já havia atuado nos últimos 45 minutos contra a Argélia, o suficiente para mostrar ritmo e, principalmente, entrosamento com o sistema.

Nos amistosos preparatórios para a Copa, Molina ficou fora justamente por causa desse incômodo físico. Mas o lateral tem 70 jogos pela albiceleste desde a estreia em 2021 e sabe exatamente o que Scaloni espera dele: subidas em velocidade pelo corredor, chegadas ao cruzamento e uma participação ativa na construção ofensiva. É, em resumo, um lateral que ataca mais do que defende — e essa característica tem dois lados nítidos.

"Molina é um jogador diferente do Montiel. Ele tem mais qualidade ofensiva, mas precisa de cobertura defensiva quando avança", segundo análise da comissão técnica argentina divulgada antes da Copa.

A Áustria vai testar exatamente esse ponto

Dallas, calor de 38 graus, estádio lotado. A Áustria de Ralf Rangnick chega ao confronto com um modelo de jogo que foi construído justamente para explorar os espaços que laterais ofensivos deixam. Os austríacos têm no corredor esquerdo um dos eixos mais produtivos da equipe — velocidade, troca rápida de passes e saídas em profundidade que exigem do lateral adversário uma atenção redobrada.

Se Molina sobe — e ele vai subir, porque é quem ele é — o espaço nas costas dele se abre. Rangnick conhece esse padrão melhor do que ninguém: em matéria do SportNavo, já foi documentado como o técnico austríaco usa o pressing alto para forçar erros defensivos nessa zona do campo. A Argentina precisará de um volante ou de um dos zagueiros para cobrir esse corredor toda vez que Molina avançar.

"Vamos jogar para ganhar desde o primeiro minuto", disse Rangnick antes do jogo, sem citar nomes, mas sinalizando que a Áustria não virá para defender.

Molina em jogos decisivos e o que a história indica

A pergunta que fica no ar é justa: Molina aguenta a pressão de um jogo eliminatório? O histórico responde antes que alguém precise especular. Ele foi titular na final da Copa do Mundo do Catar, em dezembro de 2022, e marcou o gol que abriu o placar contra a França — um golaço em diagonal, com frieza cirúrgica, diante de 88 mil pessoas no Lusail. Não é um lateral que desaparece quando a temperatura sobe.

Nos últimos dois anos pelo Atlético de Madrid, Molina acumulou 12 assistências em 47 partidas de La Liga, consolidando-se como um dos laterais mais produtivos ofensivamente do futebol europeu. O desafio aqui não é questionar sua qualidade — é entender como Scaloni vai calibrar o sistema para que Molina seja arma e não brecha.

A solução mais provável é uma linha de cinco defensores quando a Argentina não tem a bola, ou pelo menos uma compressão maior do lado de Molina, com o volante mais próximo cobrindo o corredor direito. Rodrigo De Paul ou Enzo Fernández podem assumir essa responsabilidade adicional sem comprometer o jogo ofensivo argentino.

Montiel, enquanto isso, tem até 27 de junho para se recuperar e estar disponível para o jogo contra a Jordânia. Ele fará trabalhos no campo durante o fim de semana, com a comissão médica monitorando a evolução da lesão. A Argentina o quer de volta, mas não vai apressar nada: um músculo mal resolvido nessa fase da Copa é uma conta cara demais para pagar mais tarde.

O jogo contra a Áustria acontece nesta semana, com Molina de um lado e a velocidade austríaca do outro. É como uma partitura escrita para dois instrumentos com timbres opostos — a nota final depende de quem souber ouvir o outro antes de tocar.