"Devemos lutar de uma forma diferente, para realmente mostrarmos que estamos na Copa do Mundo."A frase é de Hajime Moriyasu, técnico da Seleção Japonesa, e ela diz muito mais do que aparenta. Não é retórica de coletiva de imprensa. É o reconhecimento de que o Japão chegou ao ponto em que a ambição precisa superar o histórico — porque o histórico, até aqui, é de derrota em todos os confrontos contra o Brasil em Copas do Mundo. O jogo desta segunda-feira, 29, no NRG Stadium, em Houston, é a chance de os Samurais Azuis reescreverem esse capítulo de uma vez por todas.
O peso de nunca ter vencido o pentacampeão numa Copa
Há algo quase simbólico na insistência do destino em colocar esses dois países frente a frente. O Brasil ajudou a construir o futebol japonês — Zico treinou o Kashima Antlers nos anos 1990, Dunga jogou no Júbilo Iwata, e a J-League nasceu em 1993 com uma geração inteira de brasileiros como referência. Trinta anos depois, o Japão chega às oitavas de um Mundial com um elenco formado majoritariamente por jogadores que atuam nas principais ligas europeias, com Takefusa Kubo no Real Sociedad e Ritsu Doan no Freiburg como exemplos de uma transformação que levou décadas para se consolidar. A influência cultural virou rivalidade esportiva. Mas o placar histórico em Copas ainda pende para um único lado.
Moriyasu foi cauteloso ao ser questionado sobre o amistoso de outubro de 2025, quando o Japão derrotou o Brasil fora de uma Copa.
"Com essa vitória deste ano, acredito que a situação se tornou mais desafiadora. A seleção brasileira está com uma equipe diferente da que enfrentamos no amistoso, mas nós temos uma motivação muito grande. Nossa intenção é garantir a vitória", disse o treinador. A cautela é a de quem sabe que amistoso e mata-mata são universos paralelos — a Alemanha goleou o Brasil por 5 a 1 em Berlim em 2002, mas o Brasil levantou a taça naquele mesmo ano.
Como o Japão chegou às oitavas e o que preocupa Moriyasu
A campanha japonesa na fase de grupos foi funcional, não brilhante. Empate por 2 a 2 com a Holanda na estreia, goleada de 4 a 0 sobre a Tunísia e novo empate, 1 a 1, com a Suécia na última rodada. Seis pontos, segundo lugar no grupo, classificação garantida — mas dois empates que acendem uma luz amarela específica: os pênaltis. Em 2022, no Catar, o Japão eliminou a Alemanha e a Espanha na fase de grupos, chegou às oitavas com moral histórico e caiu para a Croácia justamente nas penalidades máximas. Moriyasu admitiu a preocupação e revelou que, desta vez, pretende definir previamente a ordem dos cobradores — diferente de 2022, quando deixou a decisão para os próprios jogadores no calor do momento. Decidiu.
Do lado brasileiro, a chegada às oitavas foi mais convincente em termos de placar. Mas o que interessa a Moriyasu é o padrão defensivo japonês: um bloco médio-baixo que sufoca transições, pressiona a saída de bola adversária e explora contra-ataques velozes pelas alas. É um modelo que a Espanha de Guardiola levou três temporadas para decodificar quando encontrou equipes asiáticas em amistosos pré-temporada entre 2009 e 2011 — e que hoje está muito mais refinado do que estava naquela época.
O paralelo histórico que Moriyasu não citou mas existe
Quem acompanhou a Copa de 2002 na Coreia e no Japão lembra da sensação de que o torneio havia saído dos trilhos. Senegal eliminou a França campeã, a Coreia do Sul chegou às semifinais, a Turquia ficou em terceiro lugar. Foi a Copa das surpresas sistêmicas — não acidentes isolados, mas uma ruptura de paradigma. Naquele torneio, como escrevi em matéria do SportNavo ao longo desta Copa, a diferença entre as seleções europeias e asiáticas ainda era abissal em termos de preparo físico e leitura tática. Hoje, essa distância encolheu a ponto de ser quase irrelevante em jogos específicos.
O Japão de 2026 tem algo que o Japão de 2002 não tinha: coletivo europeu. Pelo menos oito titulares jogam em ligas do Velho Continente, com ritmo de Champions League e Europa League no currículo. Isso não garante vitória, mas garante que o nível de intensidade e leitura de jogo estará à altura de qualquer adversário por 90 minutos — e, se necessário, por 120.
Houston como palco e o que esperar desta segunda-feira
O NRG Stadium, em Houston, tem capacidade para cerca de 72 mil pessoas e estará lotado. A cidade tem uma das maiores comunidades brasileiras do Texas, o que significa que a torcida verde-amarela deve ser numericamente superior — mas o futebol japonês ganhou admiradores nos Estados Unidos justamente pela organização e pela disciplina tática que contrasta com o estilo mais improvisado de outras seleções asiáticas. O ambiente não será hostil ao Japão.
Moriyasu tem à disposição um time que sabe o que quer dentro de campo. A dúvida real é se o Brasil, com Vinicius Júnior e Raphinha em alta, conseguirá criar espaços contra um bloco que se fecha com eficiência e transita com velocidade. Se o placar estiver empatado após os 90 minutos, a prorrogação e os pênaltis entram como variáveis concretas — e aí a preparação específica que Moriyasu prometeu para as cobranças pode fazer diferença real. O Brasil joga nesta segunda-feira, 29, a partir das 22h (horário de Brasília), e o vencedor enfrenta o classificado do confronto entre Espanha e Marrocos nas quartas de final.
É o mesmo cenário que a Croácia viveu em 2022 diante do próprio Japão — só que agora a aposta é diferente: quem chega com o histórico de nunca ter vencido quer provar que a história, como disse o próprio Moriyasu, evolui.










