O silêncio do Bernabéu pesa diferente quando o time não tem zagueiro para escalar. Essa sensação atravessou a temporada 2025/26 do Real Madrid como uma rachadura que ninguém quis encarar de frente — até José Mourinho aparecer com um relatório na mão e quatro posições marcadas em vermelho.

O relatório que chegou antes do treinador

Mourinho ainda está no Benfica, com contrato até junho de 2027, mas já age como se o escritório no Valdebebas fosse dele. Segundo o jornal espanhol As, o técnico português enviou ao Real Madrid um documento detalhando as carências do elenco para a janela de transferências que se aproxima. A lista tem quatro itens: até dois zagueiros, até dois laterais e dois meio-campistas.

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O movimento é calculado. Mourinho aguarda a reeleição de Florentino Pérez para formalizar o acordo — um contrato de dois anos, com extensão por mais um em caso de título de LaLiga. Mas o clube já deve avançar nas contratações independentemente do resultado eleitoral.

"Apenas o ataque passou ileso", é o diagnóstico de Mourinho sobre o elenco atual, segundo fontes próximas ao técnico citadas pelo As. Mbappé, Rodrygo, Vinicius Júnior e Endrick formam o único setor que não precisa de reforço imediato.

A leitura faz sentido quando você olha os números. O Real Madrid terminou a temporada europeia 2025/26 com um dos piores índices defensivos entre os semifinalistas da Champions League — e as ausências de David Alaba e Dani Carvajal por lesão foram determinantes para isso.

O que os dados dizem sobre as lacunas defensivas e de criação

Vamos ao que interessa. A defesa merengue sofreu com baixo PPDA (passes permitidos por ação defensiva) nas saídas de bola adversárias — o que, em linguagem direta, significa que o time demorava demais para pressionar e dava espaço demais para o rival construir.

O relatório que chegou antes do treinador Mourinho pede 4 reforços ao Real Madri
O relatório que chegou antes do treinador Mourinho pede 4 reforços ao Real Madri

No meio-campo, o problema era diferente: falta de progressive passes consistentes a partir da segunda linha. Progressive passes são aqueles que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário — e o Real Madrid dependia quase exclusivamente de Bellingham e Valverde para isso. Quando um dos dois saía, a equipe perdia fluidez de forma visível.

  • xG (expected goals) concedidos: o Real Madrid teve uma das piores relações xG concedido x gols sofridos entre os grandes da LaLiga, especialmente em jogos sem Alaba — o que indica que a defesa gerava chances de alta qualidade para os adversários, não apenas finalizações aleatórias.
  • Defensive actions por 90 minutos: com Carvajal fora, o corredor direito registrou queda de quase 18% nas ações defensivas por partida, segundo dados do Sofascore para a temporada 2025/26.
  • xA (expected assists): nenhum meio-campista do elenco atual, além de Bellingham, ultrapassou 0.15 xA por 90 minutos — número baixo para um clube que quer dominar a LaLiga.

Mourinho conhece esses números. Sua carreira inteira foi construída sobre a obsessão por estrutura defensiva sólida e transições rápidas. Pedir dois zagueiros e dois meias não é capricho — é diagnóstico.

A contra-leitura que o mercado ainda não absorveu

Aqui mora a tensão real da história. A narrativa dominante é que Mourinho chega para consertar uma defesa quebrada. Mas há uma leitura alternativa que merece atenção.

O Real Madrid não terá nenhum lateral na Copa do Mundo de 2026. Trent Alexander-Arnold ficou fora da lista de Thomas Tuchel na Inglaterra. Ferland Mendy, Fran García e Álvaro Carreras também não foram convocados por suas seleções. Dean Huijsen, Fran García e Gonzalo García apareceram na pré-lista espanhola, mas caíram no corte final divulgado nesta segunda-feira, 26 de maio — o que significa que o Real Madrid será o único grande clube europeu sem representantes em La Roja.

Isso tem dois lados. O negativo: prestígio abalado, sinal de que o nível individual do elenco caiu. O positivo — e menos comentado — é que Mourinho terá todos os seus jogadores disponíveis durante o Mundial, podendo trabalhar com o grupo completo enquanto rivais perdem peças por semanas.

"O Real Madrid não terá representantes na seleção espanhola pela primeira vez", destacou a publicação espanhola As ao noticiar a lista de De la Fuente — um dado histórico que mede a queda de influência do clube no futebol ibérico.

A síntese honesta é esta: o elenco tem problemas reais, confirmados pelos dados. Mourinho tem razão no diagnóstico. Mas a solução não depende só de quem chega — depende de como ele vai usar o período sem Copa do Mundo para construir uma identidade tática que o Real Madrid claramente perdeu nesta temporada.

Os dois zagueiros e os dois meias pedidos no relatório precisam ter perfis complementares ao estilo que Mourinho quer implantar — jogadores com alto volume de defensive actions na zaga e capacidade de progressive passes no meio. Nomes como Joško Gvardiol (Manchester City) e Manu Koné (Roma) circulam nos bastidores europeus como possíveis alvos, mas o clube ainda não confirmou nenhuma negociação oficialmente. As eleições de Florentino Pérez, previstas para as próximas semanas, devem destravar o processo.

O silêncio do Bernabéu pesa diferente quando o time não tem técnico para escalar — e isso, pelo menos, está perto de mudar.