É um relógio suíço com pavio curto.

Muricy Ramalho, 60 anos, quatro títulos do Campeonato Brasileiro como treinador, dois pelo São Paulo (2006 e 2007) e dois pelo Santos (2002 e 2004), acaba de ser confirmado pelo SBT e pela N Sports como comentarista convidado para a Copa do Mundo de 2026. A imagem do relógio não é gratuita: Muricy é preciso na análise tática, pontual no diagnóstico — e explode quando a situação exige. Quem já o viu trabalhar sabe que o microfone não o domestica.

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Muricy na cabine do SBT e o que ele traz de diferente

A função não é nova para o ex-treinador. Em 2018, durante a Copa do Mundo da Rússia, Muricy integrou a equipe de comentaristas da Globo, mais especificamente pelo SporTV, e deixou marcas. Não pela eloquência — nunca foi esse o seu forte — mas pela objetividade cirúrgica que poucos ex-técnicos conseguem sustentar diante de uma câmera. Enquanto outros comentaristas recorrem ao eufemismo para não desagradar, Muricy tem o hábito inconveniente de dizer o que vê.

Dessa vez, a missão é cobrir os jogos da Seleção Brasileira ao lado de um elenco que mistura narradores de peso e vozes do futebol: Galvão Bueno e Tiago Leifert dividem os microfones de narração, enquanto Alexandre Pato, Juninho Paulista, Mauro Beting e Raphael Rezende completam o time de comentários. Não há tragédia: há contabilidade. Cada nome tem um papel específico, e Muricy entra como o analista de campo — o homem que passou décadas desenhando esquemas táticos em quadros brancos e que agora precisa traduzir isso ao telespectador em tempo real.

"Técnico de currículo vitorioso", como o próprio SBT o apresentou no comunicado de anúncio desta segunda-feira, Muricy carrega consigo uma autoridade que nenhum curso de jornalismo esportivo é capaz de fabricar.

O peso do currículo e o que a história dos comentaristas técnicos ensina

A tradição de ex-técnicos na cabine de transmissão é longa no futebol brasileiro. Telê Santana, bicampeão mundial com o São Paulo em 1992 e 1993, foi uma das primeiras vozes técnicas a ganhar espaço televisivo com credibilidade analítica. Vanderlei Luxemburgo, Oswaldo de Oliveira e, mais recentemente, Mano Menezes — que também integra a equipe do SBT nesta Copa — percorreram o mesmo caminho. O que diferencia Muricy desse grupo não é apenas o currículo, mas o temperamento: ele raramente se perde em abstrações.

Ponto.

Enquanto comentaristas formados em jornalismo tendem a construir narrativas, o ex-treinador trabalha com diagnóstico. Em 2018, quando o Brasil foi eliminado pela Bélgica nas quartas de final por 2 a 1, em Kazan, Muricy foi um dos poucos a apontar, ainda no intervalo, a fragilidade da linha defensiva brasileira diante das transições rápidas dos belgas — análise que se confirmaria dolorosamente no segundo tempo com os gols de Fernandinho (contra) e Kevin De Bruyne.

Segundo relatos de bastidores da época, Muricy teria dito aos colegas de transmissão que "o Brasil estava jogando com a linha alta demais para um adversário com a velocidade da Bélgica". O gol de Fernandinho, aos 13 minutos do segundo tempo, foi quase uma ilustração do que ele havia descrito.

A estrutura do SBT e o que esperar da estreia em 11 de junho

A operação do SBT e da N Sports para a Copa do Mundo 2026 é a maior da história da emissora em coberturas esportivas internacionais. Ao todo, serão 32 partidas transmitidas ao vivo, com pré-jogos, programas especiais e produção in loco nas sedes do torneio. A equipe conta ainda com a analista de arbitragem Nadine Basttos, o comentarista Mano, e repórteres como Mauro Naves — outro nome com passagem pela Globo — além de André Hernan, Flávio Winicki e João Venturi. As apresentadoras Carol Barcellos, Wallace Neguerê, Gabi Martins e Renata Saporito completam o time.

O primeiro jogo exibido pela emissora será México x África do Sul, no dia 11 de junho, às 16h, partida que marca a abertura da competição. A estreia do Brasil, no entanto, é o teste real para a dinâmica da cabine — e é nesse momento que Muricy precisará equilibrar o instinto do treinador com a paciência do comunicador. Quando a Seleção entrar em campo, a pressão sobre cada comentarista aumenta proporcionalmente à expectativa do torcedor. Muricy já esteve sob pressão antes — só que, daquela vez, era ele quem escolhia a escalação.