24 passes certos em 45 minutos. Esse é o número que Paulo Nunes usou como argumento para defender Lucas Paquetá como titular da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026 — e que, ao mesmo tempo, expõe uma questão muito maior do que a escalação de um único jogador: o Brasil de Carlo Ancelotti ainda não tem identidade coletiva reconhecível a menos de uma semana da estreia no torneio.
O diagnóstico de Paulo Nunes sobre o ciclo de um ano e meio
A declaração veio no programa Seleção, do SporTV. Paulo Nunes, ex-atacante e ídolo do Palmeiras, foi direto ao ponto ao avaliar o trabalho do técnico italiano à frente do grupo brasileiro ao longo de um ciclo que ele mesmo classificou como acidentado.
"Não acredito que o Ancelotti tenha um time claro. Se não, ele já estaria jogando com essa equipe. A minha questão é: estamos falando de um ano e meio de um ciclo acidentado. Se as outras seleções têm esse tempo de testar jogadores, o Brasil não tem. Precisamos de um time estruturado. Mas não consigo ver o time titular hoje", afirmou o ex-atleta.
A crítica tem lastro empírico. Em dezoito meses de gestão Ancelotti, o Brasil utilizou ao menos quatro diferentes formações táticas em sequência, conforme levantamentos da imprensa especializada, e nenhum onze inicial se repetiu por três partidas consecutivas. Para um torneio que exige consistência sistêmica desde a fase de grupos, essa variabilidade é um dado preocupante — não apenas um sintoma estético.
A comparação com outras seleções é pertinente. A Espanha de Luis de la Fuente, por exemplo, consolidou seu bloco médio-alto com jogadores do Barcelona e do Manchester City ao longo de dois anos, o que lhe conferiu previsibilidade tática e coesão defensiva mensuráveis. O Brasil, ao contrário, chegou ao MetLife Stadium com dúvidas até mesmo sobre o setor ofensivo, onde a ausência de um centroavante de referência clara segue sem resolução definitiva.
O que os 45 minutos de Paquetá contra o Egito dizem de verdade
A Seleção Brasileira empatou em 1 a 1 com o Egito no amistoso pré-Copa, resultado que por si só já sinalizava limitações. Paquetá, no entanto, foi uma das poucas exceções positivas no primeiro tempo: 24 acertos em 27 tentativas de passe, taxa de 88,8% de precisão, além de uma finalização — que saiu pela linha de fundo — como única incursão direta ao gol adversário.
"Acredito muito no Paquetá. Para mim, ele é titular pelo primeiro tempo que fez contra o Egito. É um jogador que preenche o meio campo da Seleção, que era um problema. Agora, lá na frente, tenho dúvidas e questões", completou Paulo Nunes.
A frase final da citação é reveladora. Ao mesmo tempo em que resolve um problema — o meio-campo — Paquetá não resolve o outro. A linha ofensiva continua sendo a zona de maior indefinição do time, e nenhum jogador testado por Ancelotti até aqui demonstrou capacidade de ser o eixo atacante da equipe de forma consistente. Paquetá pode ser o metrônomo; a questão é quem finaliza o que ele distribui.
O meia do Flamengo ocupa uma posição híbrida no esquema — nem volante defensivo, nem meia ofensivo clássico —, o que o torna peça difícil de substituir sem custo tático. Sua ausência no segundo tempo contra o Egito coincidiu com a queda de rendimento do setor intermediário, um dado que corrobora a tese de Paulo Nunes, ainda que um amistoso tenha validade estatística limitada.
A indefinição tática como fenômeno estrutural, não apenas técnico
O que Paulo Nunes nomeia como falta de um time claro pode ser lido, em termos mais amplos, como o reflexo de uma política esportiva que não garantiu ao técnico o tempo e a estabilidade necessários para construir um projeto coeso. Ancelotti assumiu a Seleção em condições institucionais turbulentas — com a CBF sob pressão de governança, com o ciclo anterior encerrado de forma abrupta e com um calendário de amistosos reduzido em relação ao que outras federações oferecem aos seus treinadores.
Há uma analogia pertinente com a música de estúdio: um produtor de alto nível não faz um álbum coeso se cada sessão de gravação tiver músicos diferentes, instrumentos trocados e nenhuma diretriz de som definida. Ancelotti, um dos técnicos mais bem-sucedidos da história do futebol de clubes, encontrou no selecionado uma matéria-prima fragmentada demais para os meses que teve. A crítica de Paulo Nunes, portanto, é menos sobre a competência individual do treinador e mais sobre o ambiente estrutural em que qualquer técnico operaria com dificuldade.
A pesquisa de audiência da Copa também joga papel nessa equação. Torneios mundiais movimentam contratos de patrocínio na casa de bilhões de dólares, e o desempenho da Seleção impacta diretamente o valuation da CBF junto a parceiros comerciais e ao mercado de direitos televisivos. Uma eliminação precoce, especialmente por falta de identidade tática reconhecível, teria consequências econômicas que vão além do campo — algo que a diretoria da entidade sabe e que torna a indefinição pré-Copa ainda mais custosa, conforme registrado por SportNavo ao longo do ciclo de cobertura pré-torneio.
Marrocos na estreia e a pressão sobre Ancelotti por uma resposta
A resposta concreta para todas essas questões começa a ser dada no sábado, dia 13 de junho, quando o Brasil enfrenta Marrocos no MetLife Stadium, em Nova Jersey, às 19h (horário de Brasília). A seleção marroquina, que surpreendeu o mundo ao chegar à semifinal da Copa de 2022 e que manteve boa parte do seu bloco titular, será um teste de resistência sistêmica — exatamente o tipo de adversário que pune times sem organização coletiva definida.
Se Paquetá iniciar jogando — o que a lógica dos dados e o argumento de Paulo Nunes sugerem — a partida contra Marrocos será o primeiro exame real do esquema que Ancelotti finalmente decidiu adotar. 24 passes certos num amistoso são um indicativo; 90 minutos contra uma defesa compacta e bem organizada são uma evidência.
No vestiário do MetLife, Ancelotti terá na lousa táctica um nome sublinhado. Do lado de fora, Paulo Nunes já disse qual é.








