Quando Nelson Rodrigues escreveu, nos anos 1950, que o jornalismo esportivo brasileiro vivia sob a tirania do entusiasmo, ele não imaginava que, sete décadas depois, a discussão sobre o direito de criticar um jogador ainda seria capaz de opor dois dos rostos mais reconhecidos da televisão esportiva nacional. Na manhã desta sexta-feira, 22 de maio de 2026, Neto abriu o Os Donos da Bola, na Band, com um recado direto para Tiago Leifert: chamar jornalistas de incompetentes e sugerir demissões por conta de opiniões sobre a convocação de Neymar é, nas palavras do apresentador, um ato de deslealdade.

O que Leifert disse e por que isso acendeu o debate

Na quinta-feira, 21, durante uma live transmitida pelo SBT, Tiago Leifert foi categórico ao avaliar jornalistas que questionaram a presença de Neymar na lista da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo. O narrador, que acumula passagens pela Globo e hoje ocupa espaço crescente no streaming esportivo, não poupou palavras:

"Perderam, erram, falaram b.... Se fosse em um lugar sério e se o jornalismo esportivo estivesse vivendo uma melhor fase, era papo de demissão."

A declaração circulou rapidamente nas redes sociais. Segundo dados de monitoramento da plataforma Buzzmonitor, o trecho foi compartilhado mais de 14 mil vezes nas primeiras seis horas após a live, com polarização evidente: 61% das interações foram de discordância com a posição de Leifert. O episódio não é isolado — desde que a convocação de Neymar foi anunciada, com o jogador ainda em processo de recuperação de lesão no joelho, a imprensa esportiva se dividiu entre os que defenderam a inclusão do camisa 10 e os que a questionaram publicamente.

Neto, a Band e o direito de ter opinião errada

A resposta de Neto foi dada ao vivo, no mesmo dia, e misturou defesa de categoria com autobiografia. O apresentador, ex-jogador do Corinthians e São Paulo, deixou claro que a fala de Leifert não o atingia diretamente — mas que o princípio o incomodava profundamente:

"O que a gente não quer é que as pessoas sejam mandadas embora porque deu uma opinião sobre qualquer tipo de convocação. Quando a gente pede pra mandar embora as pessoas eu acho muito desleal. Eu não acho isso legal. Isso não é bom pra ninguém."

Neto ainda foi além e contextualizou a figura de Neymar no debate: segundo ele, o atacante passou anos priorizando escolhas pessoais em detrimento de uma possível hegemonia técnica. "O Neymar deixou durante quatro anos ou sete anos que ele poderia jogar pra ser cinco vezes o melhor jogador do mundo. Ele não quis. O problema é dele e não meu", afirmou o apresentador, sinalizando que a crítica à convocação não é necessariamente um ataque ao jogador, mas uma avaliação legítima de contexto esportivo.

O que o episódio revela, analisado pelo SportNavo a partir do histórico de embates similares na mídia brasileira, é uma tensão estrutural: o jornalismo esportivo nacional opera sob pressão dupla — de audiência, que muitas vezes penaliza a crítica a ídolos, e de fontes, que tendem a fechar portas para quem questiona decisões técnicas da Seleção.

O mercado de mídia esportiva e a economia do consenso

A discussão tem uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. O mercado de transmissão esportiva no Brasil movimentou R$ 4,2 bilhões em direitos de mídia em 2025, segundo levantamento da consultoria Sports Value. Neymar, mesmo em recuperação de lesão, é o atleta brasileiro com maior valor de marca — estimado em US$ 120 milhões pela plataforma Transfermarkt em sua última atualização. Qualquer narrativa que o envolva gera tráfego, e tráfego gera receita publicitária.

Esse contexto cria um incentivo perverso: veículos e apresentadores que defendem Neymar tendem a colher engajamento imediato, enquanto os críticos enfrentam hostilidade nas redes e, por vezes, pressão institucional. A sugestão de Leifert — mesmo que retórica — de que jornalistas críticos deveriam ser demitidos opera exatamente nessa lógica: ela não é só uma opinião sobre competência profissional, mas um sinal de qual postura é socialmente aceita no ecossistema midiático que orbita a Seleção.

A Band, emissora onde Neto apresenta o Os Donos da Bola, registrou em abril de 2026 uma média de 3,1 pontos de audiência no programa, segundo o Kantar Ibope — número que, embora modesto em termos absolutos, representa crescimento de 18% em relação ao mesmo período de 2025 e reflete a fidelização de um público que valoriza justamente a irreverência e a contradição ao consenso.

O efeito cascata na cobertura da Copa do Mundo

A polêmica entre Neto e Leifert chega em momento delicado para a cobertura jornalística da Copa do Mundo. Com o torneio se aproximando e a condição física de Neymar ainda incerta — o jogador passou por cirurgia no ligamento do joelho esquerdo em novembro de 2023 e acumula histórico de recaídas —, a pressão sobre jornalistas que ousam questionar sua presença na lista tende a aumentar.

Neto tocou nesse ponto com precisão cirúrgica ao afirmar que, caso Neymar venha a ser cortado por lesão, a responsabilidade não recai sobre quem questionou a convocação: "Não é o Neymar que precisa ser crucificado se não ganhar a Copa e não é o Neymar que tem que ser o cara lá em cima se ganhar", disse o apresentador, desconstruindo a narrativa messiânica que historicamente envolve o atacante.

O efeito mais imediato desse embate é o de autocensura. Quando uma figura de audiência expressiva como Leifert — que acumula mais de 4 milhões de seguidores no Instagram — associa a crítica jornalística à incompetência demissível, ele calibra o termômetro do que é aceitável dizer publicamente. Jornalistas em início de carreira, especialmente aqueles em veículos menores sem a proteção institucional de uma Band ou de um SBT, tendem a internalizar esse sinal.

O Brasil tem precedentes claros desse mecanismo. Em 2014, após a eliminação da Seleção para a Alemanha por 7 a 1, vários profissionais que haviam elogiado a gestão de Luiz Felipe Scolari sem reservas foram questionados pela ausência de análise crítica nos meses anteriores. O ciclo se repete: o consenso midiático em torno de um ídolo dura até o momento em que o resultado esportivo o desfaz — e, nesse ponto, é tarde demais para a imprensa recuperar credibilidade.

É o mesmo cenário que o jornalismo esportivo argentino viveu em 2018, quando a imprensa de Buenos Aires foi acusada de ter blindado Lionel Messi de críticas durante todo o ciclo da Copa da Rússia — só que agora a aposta é diferente: o Brasil entra no torneio com um debate público sobre os limites da crítica já instalado, e isso, ao menos, é um ponto de partida mais honesto.