A última vez que um jogador brasileiro entrou numa Copa do Mundo carregando tanto ceticismo estatístico foi Ronaldo em 2002 — saindo de um ano de lesões graves, com menos de 20 jogos pelo Real Madrid. Sabemos como terminou. O problema é que Ronaldo tinha 25 anos. Neymar tem 34, está voltando de uma ruptura do ligamento cruzado anterior e ainda não jogou um minuto sequer sob o comando de Carlo Ancelotti na Seleção Brasileira.

No último domingo (10), numa live na plataforma Kick com o influenciador Jon Vlogs, logo após a vitória do Santos sobre o Red Bull Bragantino pelo Campeonato Brasileiro, o camisa 10 foi direto:

"Vou ver a convocação para a Copa do Mundo, ver o que vai acontecer... Vai dar tudo certo!"

Quando Jon opinou que haveria 'uma guerra no Brasil' caso o nome de Neymar ficasse de fora, o jogador respondeu com uma risada. A lista final de Ancelotti sai na próxima segunda-feira, dia 18 de maio, no Rio de Janeiro. Até lá, os números falam mais alto que o bom humor.

O que os dados do Santos em 2026 mostram sobre Neymar

Neymar retornou ao Santos em fevereiro de 2026 e acumula 9 partidas no Brasileirão — nenhuma completa, todas como titular ou entrando no segundo tempo. Seu xG (expected goals, ou seja, a qualidade das chances que ele gera e finaliza) no período é de 1.8, com apenas 1 gol marcado. Traduzindo: ele está convertendo abaixo do esperado, o que indica que ou as finalizações são de baixa qualidade ou a pontaria ainda não voltou ao nível ideal.

Os progressive passes — aqueles que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário — somam uma média de 4.1 por 90 minutos. Para referência, Raphinha no Barcelona registra 6.7 por 90 nesta temporada 2025/2026. Rodrygo, no Real Madrid, aparece com 5.3. Neymar ainda está bem abaixo dos concorrentes diretos à sua vaga.

  • xG de Neymar no Santos em 2026: 1.8 em 9 jogos (0.20 por partida)
  • Progressive passes por 90 min: 4.1 (Raphinha: 6.7 / Rodrygo: 5.3)
  • xA (expected assists): 0.9 no período — abaixo da média de um camisa 10 titular de seleção competitiva

O PPDA do Santos — métrica que mede a pressão defensiva pelo número de passes permitidos ao adversário por ação defensiva, quanto menor, mais intensa a pressão — oscilou bastante nas partidas em que Neymar jogou mais minutos. Isso sugere que o time perde organização defensiva quando ele está em campo por mais tempo, o que é um dado relevante para Ancelotti, que cobra equilíbrio tático… e aí vem o problema.

Quem sai perdendo se Neymar entrar na lista final

A pré-lista tem 55 nomes. A lista definitiva terá 26. No setor ofensivo, Ancelotti já tem Vinicius Jr, Raphinha, Rodrygo, Endrick e Estêvão como praticamente garantidos — embora Estêvão enfrente uma disputa regulamentar pela sua participação. Incluir Neymar significa cortar alguém com mais minutos de seleção sob o comando atual do técnico italiano.

Pense nisso como um álbum de estreia: você tem 12 faixas para preencher, e um artista lendário quer entrar com uma música gravada três anos atrás, sem passar pelo produtor atual. O nome vende, mas o produto final pode não ter coesão — e Ancelotti é exatamente o tipo de técnico que prioriza coesão sobre reputação.

Segundo apuração do SportNavo, o técnico italiano acompanhou pessoalmente ao menos três jogos do Santos nesta temporada, incluindo o duelo contra o Bragantino no último fim de semana. Ele quer ver Neymar em movimento real, não em highlights.

O efeito cascata na semana que antecede o dia 18

Com a lista saindo na segunda-feira (18), os próximos cinco dias são decisivos. O Santos enfrenta o Fluminense na quinta-feira (15), e esse jogo pode ser a última vitrine de Neymar antes de Ancelotti bater o martelo. Uma atuação com alto volume de defensive actions — pressão, recuperação de bola — e pelo menos um envolvimento direto em gol mudaria o cenário de forma concreta.

Se Neymar não for convocado, o debate vai além do futebol: a CBF e Ancelotti terão de lidar com uma pressão midiática e popular que, como o próprio Jon Vlogs antecipou, pode ser intensa. Mas se for convocado sem ritmo de jogo suficiente, o risco é chegar à Copa do Mundo como um jogador de 34 anos tentando recuperar forma durante o torneio mais importante do planeta.

O que Ancelotti precisa ver até segunda-feira

A questão não é sentimental. Ancelotti já demonstrou, no Real Madrid, que dispensa lendas quando o momento técnico não justifica a presença — Luka Modric foi progressivamente reduzido de titular a coadjuvante sem drama. Com Neymar, o raciocínio é parecido.

"Vai dar tudo certo", disse Neymar na live — mas 'tudo certo' para quem? Para o jogador, para a torcida ou para a seleção?

O que os dados pedem é simples: mais minutos, mais progressive passes, xG acima de 0.25 por jogo e participação defensiva mensurável. Neymar tem um jogo — quinta-feira contra o Fluminense, no Brasileirão — para apresentar esses números a Ancelotti antes de o técnico entregar a lista definitiva à Fifa no dia 18 de maio, no Rio de Janeiro.