O jogador que mais vezes foi deixado de fora da Seleção por lesão pode ser exatamente o que a Seleção mais precisa agora — e esse é o paradoxo que Carlo Ancelotti resolve nesta segunda-feira, 18 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, ao anunciar os 26 convocados para a Copa do Mundo de 2026.

Quem sai ganhando quando Neymar entra na lista

Neymar chega a esta convocação com o melhor retrospecto físico desde o Mundial do Catar. Pelo Santos, somou 42 jogos nas temporadas de 2025 e 2026, com 17 gols e oito assistências — números que não alcançava em nenhuma temporada completa desde que deixou o Barcelona em 2017. Para referência: no PSG pós-Copa de 2022, disputou apenas nove partidas. No Al-Hilal, sete, antes de nova lesão interromper tudo. A distância entre o Neymar de 2023 e o de hoje é quase a distância entre Recife e Porto Alegre — não é detalhe, é reconstrução.

Esse volume de jogos importa porque Ancelotti, desde que assumiu a Seleção em maio do ano passado, fez cinco convocações — duas para as Eliminatórias e três para amistosos — e em nenhuma delas Neymar foi chamado formalmente para o grupo principal. Apesar disso, o camisa 10 permaneceu em todas as listas largas elaboradas pelo italiano, o que indica avaliação contínua, não descarte.

Se Neymar entrar, os beneficiados diretos são os jogadores de perfil mais físico e de área, porque a presença do camisa 10 libera os extremos para correr e os centroavantes para finalizar. Neymar não substitui um nove — ele cria para eles. Esse é o argumento tático mais forte a seu favor num elenco onde Raphinha, Matheus Cunha e Luiz Henrique são jogadores de movimentação, não de criação posicional.

Pedro e João Pedro perdem terreno — e os números explicam por quê

A disputa concreta pela nona vaga no ataque coloca Neymar frente a Pedro, do Flamengo, e João Pedro, do Chelsea. Os três têm perfis radicalmente diferentes, e é aí que o debate ganha textura real. Pedro oferece presença de área, jogo físico e poder de finalização — virtudes clássicas de centroavante. João Pedro surgiu como atacante móvel e adaptável, mas a má fase do Chelsea em 2026 afetou diretamente seu desempenho, e ele perdeu espaço na briga.

Segundo apuração do SportNavo, Ancelotti também avalia a hipótese de reduzir o número de atacantes de nove para oito, abrindo espaço para um sexto meio-campista — o que beneficiaria Andrey Santos e eliminaria automaticamente uma das três opções. Nesse cenário, Neymar e Pedro disputariam a mesma vaga, e o critério seria menos sobre gols e mais sobre o que cada um oferece taticamente ao conjunto.

Entre os jogadores mais convocados da era Ancelotti, apenas quatro foram chamados em todas as oportunidades: o goleiro Bento, o defensor Wesley, o meio-campista Casemiro e Matheus Cunha. Richarlison, que chegou a ser convocado quatro vezes e era um dos favoritos do técnico no início do ciclo, perdeu espaço com a ascensão de concorrentes mais em forma. O histórico mostra que Ancelotti não tem apego a nomes — tem apego a desempenho.

Quem sai ganhando quando Neymar entra na lista Neymar convocado para a Copa com
Quem sai ganhando quando Neymar entra na lista Neymar convocado para a Copa com

O efeito cascata que uma convocação de Neymar provoca no elenco

A entrada de Neymar na lista não é neutra para o restante do grupo. Se ele ocupa a nona vaga no ataque, Pedro fica fora — e o Brasil vai para a Copa sem um centroavante clássico de referência, já que Igor Thiago e Endrick, que deixaram boa impressão na Data Fifa de março, têm perfis de atacantes dinâmicos, não de pivôs. Essa escolha muda o sistema: obriga Ancelotti a usar um 4-2-3-1 mais fluido ou um 4-3-3 com falso nove.

Nas semanas seguintes à convocação, o impacto se estende para a preparação. O Brasil tem dois amistosos antes do início da Copa — dia 30 contra o Panamá, no Maracanã, e dia 6 de junho contra o Egito, já nos Estados Unidos. Esses jogos serão o único laboratório real de Ancelotti para testar combinações. Se Neymar for convocado e não render nesses amistosos, o técnico não tem como reverter a lista.

"Na opinião do ex-jogador, Neymar estará presente na lista final desta convocação." — Maestro Júnior, ídolo do Flamengo e da Seleção nas Copas de 1982 e 1986, ao divulgar sua lista pessoal nas redes sociais.

Maestro Júnior, que disputou as Copas de 1982 e 1986 e foi peça no título do Mundial de Clubes de 1981 pelo Flamengo, incluiu Neymar entre os atacantes ao lado de Igor Thiago, Luiz Henrique, Raphinha, Vini Jr., Matheus Cunha, Rayan, João Pedro e Pedro — ou seja, nove nomes no setor ofensivo, o que excluiria um deles da lista final de 26.

O cenário macro e o que a Copa de 2026 cobra de resposta

A Copa começa em 11 de junho, com México e África do Sul no estádio Azteca, na Cidade do México. O Brasil estreia em 13 de junho contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova York, e ainda enfrenta Escócia e Haiti no Grupo C. A final está marcada para 19 de julho, também no MetLife Stadium. São cinco semanas de competição — tempo suficiente para que um jogador como Neymar, se estiver fisicamente íntegro, faça diferença em jogos de mata-mata onde criatividade individual pesa mais do que sistema.

Cinco atacantes estão garantidos na lista: Vinícius Júnior, Raphinha, Matheus Cunha, Luiz Henrique e Martinelli. Endrick e Igor Thiago estão muito próximos. A partir daí, cada vaga que sobra é disputada com dados concretos — e os dados de Neymar no Santos em 2026 são os mais sólidos que ele apresentou desde que saiu do Barcelona. O problema é que Ancelotti não convoca o passado. Ele convoca o presente.

Neymar tem os números — falta a certeza de que o corpo aguenta o torneio inteiro.