O campo de treinamento estava vazio quando os últimos repórteres saíram. Mas dentro do vestiário, segundo pessoas próximas à delegação, o assunto era um só — e não era a Escócia. Era o número 10. Era Neymar, que pela primeira vez desde outubro de 2023 voltou a trabalhar em ritmo de jogo ao lado dos companheiros, cumpriu todas as etapas exigidas pelo departamento médico e foi relacionado por Carlo Ancelotti para a partida desta quarta-feira, 24 de junho, contra a Escócia, válida pela última rodada do Grupo C da Copa do Mundo.

A cena tem um peso que vai além do futebol. São 980 dias de espera — entre a ruptura do ligamento cruzado do joelho esquerdo sofrida em outubro de 2023, num jogo contra o Uruguai, e este momento em que o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira, com 79 gols em 129 jogos, coloca o colete e treina com bola em campo aberto. No Rio de Janeiro, nas tardes de fevereiro no Maracanã, a torcida costuma empurrar o time mesmo quando a esperança some. Nesta quarta, em Miami, o ambiente tem algo desse mesmo calor irracional — a crença de que um homem de 34 anos pode, com meia hora de bola, mudar o rumo de uma Copa.

Três anos longe e um vestiário que mudou de geração

Nada do que Neymar vai encontrar dentro de campo é igual ao que ele deixou. Quando se lesionou, o Brasil ainda ensaiava um estilo sob Fernando Diniz. Hoje, Ancelotti comanda uma equipe que, nas duas primeiras partidas do torneio, apresentou dinâmicas completamente diferentes entre si — o empate sem gols com Marrocos na estreia e a vitória sobre o Haiti na segunda rodada. O time que entrou contra o Haiti utilizou Rodrygo como referência ofensiva centralizada, com Vinicius Jr. aberto pela esquerda e Estevão pelo lado direito, num 4-3-3 que priorizou velocidade nas transições.

Três anos longe e um vestiário que mudou de geração Neymar disponível contra a E
Três anos longe e um vestiário que mudou de geração Neymar disponível contra a E

Neymar não se encaixa naturalmente nesse modelo sem custo. Historicamente, seu melhor futebol pela Seleção veio em sistemas que giravam em torno dele — os 4-2-3-1 de Luiz Felipe Scolari na Copa de 2014, ou o 4-3-3 mais vertical de Tite entre 2018 e 2022, no qual ele acumulou 20 gols em 31 jogos. Colocá-lo agora como titular exige reposicionar pelo menos dois jogadores que estavam funcionando, e Ancelotti sabe disso melhor do que ninguém.

"O Neymar está disponível. Trabalhou bem nesta semana, preparou-se para a partida. Pode jogar, como outros jogadores. Todos estamos muito contentes que ele está de volta. Com a qualidade dele, pode ajudar o time", afirmou Ancelotti em entrevista antes do jogo.

A frase é diplomaticamente equilibrada — e deliberadamente vaga. "Pode jogar" não é o mesmo que "vai começar". Nos bastidores, a avaliação predominante é que Neymar terá minutos, mas provavelmente não os 90. O próprio Ancelotti, ao ser questionado sobre o tempo que o camisa 10 suportaria em alta intensidade, preferiu não dar números — o que, em linguagem de vestiário, costuma significar que os médicos também não têm uma resposta definitiva.

O que muda taticamente quando Neymar entra em campo

Há um precedente que Ancelotti conhece bem: Karim Benzema no Real Madrid entre 2019 e 2022, período em que o treinador italiano precisou reintegrar o atacante após um longo afastamento e recalibrar o ataque sem desmontar a estrutura que havia funcionado. A diferença é que Benzema voltou a um clube, com tempo de treinamento diário. Neymar volta a uma Copa do Mundo, com uma janela de adaptação de dias.

Se Ancelotti optar por titularizá-lo, a opção mais lógica seria um 4-4-2 em losango, com Neymar na meia-esquerda e liberdade para trocar de posição com Vinicius Jr. Essa formação foi usada pelo Brasil em momentos pontuais na Copa América de 2021, quando a Seleção chegou à final — perdida para a Argentina por 1 a 0, no Maracanã. O problema é que esse sistema exige marcação intensa dos meias laterais, e Neymar, aos 34 anos e em retorno de lesão grave, não está em condições físicas de cumprir essa função por 90 minutos.

O que muda taticamente quando Neymar entra em campo Neymar disponível contra a E
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A alternativa mais provável, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da semana, é utilizá-lo como substituto a partir dos 60 ou 70 minutos, especialmente se o Brasil precisar de criatividade para romper um bloqueio defensivo. A Escócia, sob Steve Clarke, costuma defender com dois blocos compactos e explorar transições rápidas — uma estrutura que, paradoxalmente, pode abrir espaço para um jogador de dribles curtos e passes em profundidade como Neymar.

"Noto que a torcida puxa muito Endrick, mas também temos Neymar. Acho que vão empurrar os dois", disse Ancelotti, em uma das raras vezes em que falou com leveza sobre o assunto.

A liderança do grupo e o que está em jogo além dos 90 minutos

A partida contra a Escócia não é apenas uma questão de classificação — o Brasil já está matematicamente garantido no mata-mata. O que está em disputa é a posição no Grupo C, que define diretamente a chave no torneio eliminatório. Vencer e assumir a liderança coloca a Seleção num caminho potencialmente mais suave até as quartas de final. Um tropeço, mesmo com classificação garantida, pode significar cruzar com seleções mais qualificadas já nas oitavas.

Historicamente, o Brasil nunca foi eliminado na fase de grupos de uma Copa do Mundo — sequência de 22 participações. Mas o desempenho coletivo nos dois primeiros jogos desta edição levantou questões reais sobre a consistência ofensiva do time. Contra Marrocos, foram apenas três finalizações no alvo em 90 minutos. Contra o Haiti, a vitória veio, mas o segundo tempo mostrou uma equipe que perdeu o controle do ritmo quando o adversário recuou.

Neymar, mesmo em 30 minutos, pode resolver exatamente esse problema. Em Copas do Mundo, ele soma 8 gols e 5 assistências em 14 jogos, com uma participação direta em gol a cada 90 minutos em campo. Nenhum brasileiro ativo tem números comparáveis nessa competição. A questão não é se ele ainda tem qualidade — é se o corpo aguenta o que a cabeça já decidiu.

Brasil e Escócia se enfrentam nesta quarta-feira, 24 de junho, às 19h, em Miami, com o Brasil precisando da vitória para garantir a liderança do Grupo C. Se Neymar entrar — titular ou reserva — será sua primeira atuação pela Seleção desde 17 de outubro de 2023, quando deixou o campo de maca em Montevidéu. O que acontece depois disso, a Copa vai mostrar nas próximas semanas.