Diz-se que Neymar é indispensável quando está em campo. A convocação para a Copa do Mundo de 2026, porém, está provando o contrário — e o motivo importa muito mais do que o número de minutos jogados. Até aqui, o camisa 10 acumula exatos 14 minutos em campo, todos eles na vitória sobre a Escócia na fase de grupos. Zero gols, zero assistências, zero titularidades. E, paradoxalmente, esse pode ser o maior serviço que Neymar já prestou à Seleção Brasileira numa Copa do Mundo.
O precedente de 2014 e 2022 que Ancelotti não queria repetir
Para entender o valor desses 14 minutos, é preciso voltar a duas Copas anteriores. Em 2014, no Brasil, Neymar era o centro gravitacional de tudo — da campanha, da pressão e, tragicamente, da eliminação após a fratura na vértebra lombar sofrida diante da Colômbia. Em 2022, no Catar, mesmo sem lesão grave, a preparação foi contaminada por episódios extracampo: familiares e amigos próximos circulando pela concentração, gerando desgaste interno documentado por jornalistas que cobriam o torneio. O Brasil caiu nas quartas de final para a Croácia nos pênaltis, com Neymar entre os que converteram, mas com o grupo claramente desgastado.
Carlo Ancelotti, técnico com quatro títulos de Champions League e vasta experiência em gestão de egos no Real Madrid, leu esse histórico com precisão cirúrgica. Segundo análises de bastidores, o plano desde o início era usar Neymar como elemento de coesão interna — não como protagonista tático. Seria injusto chamar de estratégia de marketing — mas é uma estratégia de marketing em escala de Copa do Mundo.
Como a recuperação de Neymar blindou o elenco nos treinos
Durante a fase de preparação para o torneio, enquanto Neymar ainda se recuperava de lesão muscular na panturrilha direita, algo inesperado aconteceu: o holofote da imprensa ficou colado nele. Cada boletim médico, cada treino com bola, cada aparição nas redes sociais do jogador consumia o espaço que normalmente seria ocupado por cobranças ao restante do elenco. Raphinha, Vinicius Jr. e Rodrygo trabalharam sem o peso habitual da análise minuciosa que acompanha cada treino da Seleção.
O resultado apareceu em campo. O Brasil encerrou a fase de grupos com desempenho sólido, sem a instabilidade tática que marcou campanhas anteriores. Quando Neymar voltou a ficar disponível — já sem condições de competir no nível exigido por uma Copa do Mundo —, aceitou o banco sem resistência pública. Nada de declarações inflamadas, nada de familiares na concentração, nada de polêmicas paralelas que desviassem a atenção da comissão técnica.
"Os jogadores da Seleção adoram Neymar e sua liderança interna é positiva", observou análise publicada pela ESPN, que avaliou o impacto do camisa 10 além das estatísticas individuais.
A vaga aberta por Paquetá e o que muda contra a Noruega
O cenário das oitavas de final, marcadas para domingo, 5 de julho, contra a Noruega, trouxe uma variável nova: a lesão de Lucas Paquetá. O meia do West Ham, que havia se consolidado como peça central no meio-campo de Ancelotti ao longo da temporada 2025/2026, saiu de campo com problema muscular e está fora do confronto. A vaga está aberta.
Matematicamente, Neymar é candidato. Mas os dados do torneio até aqui não sustentam uma titularidade. Nos 14 minutos contra a Escócia, o camisa 10 tocou a bola 11 vezes, acertou 8 passes e não criou nenhuma chance clara de gol — números que refletem um jogador em processo de readaptação ao ritmo competitivo de alto nível, não um titular de mata-mata de Copa do Mundo. Para comparação, Raphinha, que deve ocupar posição avançada contra os noruegueses, acumula 3 gols e 2 assistências em 3 partidas na fase de grupos.

A Noruega, comandada por Erling Haaland — 8 gols em eliminatórias europeias na campanha que classificou a seleção escandinava —, representa o adversário mais físico que o Brasil enfrentará até aqui. O estilo de jogo nórdico, baseado em pressão alta e transições rápidas, exige jogadores com alto volume de corrida e recuperação de bola. Neymar, aos 34 anos e com histórico recente de lesões, não se encaixa nesse perfil para 90 minutos.
"Talvez o plano de Ancelotti fosse este mesmo: Neymar ser a grande sacada da sua convocação, mas jogando o mínimo possível", avaliou colunista da ESPN em matéria do SportNavo reproduzida amplamente no ambiente esportivo.
O que os 14 minutos revelam sobre o Brasil de Ancelotti
Há um dado que resume bem a gestão de Ancelotti nesta Copa: dos 23 jogadores convocados, apenas 14 foram utilizados nos três jogos da fase de grupos. O técnico italiano preservou o núcleo tático e usou as substituições de forma cirúrgica, sem experimentos desnecessários. Neymar entrou nessa conta como a última substituição do terceiro jogo — um recado claro sobre sua hierarquia atual no grupo.
Esse modelo de gestão tem precedente no próprio currículo de Ancelotti. No Real Madrid da temporada 2021/2022, Gareth Bale acumulou minutos mínimos durante a campanha do título da Champions League, mas sua presença no vestiário foi descrita por companheiros como fator positivo para a coesão do grupo. A analogia com Neymar não é perfeita — Bale estava em declínio técnico declarado, enquanto Neymar ainda demonstra lampejos de qualidade —, mas o princípio de gestão é semelhante.
Para o confronto com a Noruega, a tendência é que Ancelotti opte por Bruno Guimarães ou algum jogador de perfil mais físico para cobrir a ausência de Paquetá no meio-campo. Neymar deve permanecer como opção para os minutos finais, caso o Brasil precise de criatividade individual para desempatar ou ampliar o placar. A bola começa a rolar às 17h do domingo, no MetLife Stadium, em Nova Jersey — e os 14 minutos de Neymar já valeram mais do que muita titularidade nesta Copa.










