O maior artilheiro da história da Seleção Brasileira foi convocado para a Copa do Mundo de 2026 com o mesmo joelho que rompeu o ligamento cruzado anterior e o menisco em outubro de 2023, numa noite fria de Montevidéu. Esse é o paradoxo que Carlo Ancelotti escolheu abraçar: convocar um jogador cuja última partida pela Amarelinha terminou com ele sendo carregado para o vestiário, substituído ainda nos acréscimos do primeiro tempo, na derrota por 2 a 0 para o Uruguai pelas Eliminatórias.
A noite em Montevidéu que parou o relógio de Neymar
Era a 4ª rodada das Eliminatórias sul-americanas, 18 de outubro de 2023. Neymar disputava apenas seu quarto jogo desde o encerramento da Copa do Mundo do Qatar, onde o Brasil havia sido eliminado pela Croácia nas quartas de final, nos pênaltis, após empate em 1 a 1 no tempo regulamentar. Naquela noite no Estádio Centenário, uma dividida com De La Cruz resultou na ruptura que afastaria o camisa 10 por quase um ano do futebol profissional. O Al-Hilal ficou sem seu atacante por toda a temporada 2023/2024, e a Seleção perdeu sua referência histórica de gols — 79 em 128 jogos, média superior à de Ronaldo Fenômeno (62 gols em 98 partidas) e de Zico (66 em 72).
Quando retornou ao Al-Hilal, um ano depois da lesão, Neymar disputou apenas dois jogos antes de novas lesões musculares interromperem o processo. Jorge Jesus não o utilizava com regularidade, e o nome do atacante sequer aparecia nas convocações de Dorival Júnior ao longo de 2024. A Copa América daquele ano foi disputada sem ele, assim como todas as rodadas das Eliminatórias que se seguiram à partida contra o Uruguai.
O Santos como laboratório de ressurreição
A virada começou em 2025, quando Neymar rescindiu com o clube saudita e retornou ao Santos, clube que o revelou para o futebol mundial entre 2009 e 2013 — período em que marcou 136 gols em 225 jogos pela equipe da Vila Belmiro. A expectativa era de reencontro com o ritmo, mas 2025 ainda reservou intermitências físicas e ausências nas convocações de Ancelotti, que assumiu o comando da Seleção naquele ano. A virada definitiva veio em 2026: com participação mais regular no Brasileirão e na Copa Sul-Americana, o atacante passou a ser peça importante no esquema santista, distante das lesões que o perseguiram por quase três anos.
Quando atua com sequência, ele recupera o timing de drible e a precisão de passe que o tornaram o jogador com mais dribles bem-sucedidos na história das Copas do Mundo — 52 no total, contra 32 de Messi e 27 de Robben, segundo dados compilados pela FIFA. Quando perde sequência, o corpo cobra a conta com inflamações e rupturas musculares. Esse é o ciclo que Ancelotti decidiu romper ao convocá-lo para o torneio mais importante do planeta.
Ancelotti aposta na memória muscular de um gênio
A decisão do técnico italiano não é ingênua — é calculada. Ancelotti, que ao longo de sua carreira gerenciou Kaká em recuperação no Milan, Ronaldo no Real Madrid com 35 anos e Benzema em temporadas intermitentes, conhece o valor de um jogador que altera o comportamento defensivo adversário apenas pela presença em campo. Segundo apuração do SportNavo, Neymar estará disponível para os amistosos preparatórios contra o Panamá, no Maracanã, e contra o Egito, nos Estados Unidos, antes do início oficial do torneio.
"Neymar vem atuando com mais regularidade em 2026, está longe das lesões e sendo peça importante para a equipe da Vila Belmiro", registrou a cobertura especializada ao anunciar a convocação.
A convocação também representa um marco estatístico: ao disputar a Copa do Mundo de 2026, Neymar igualará Pelé em número de Mundiais jogados — quatro. O Rei participou das edições de 1958, 1962, 1966 e 1970. Neymar esteve em 2010, 2014 e 2018, mas ficou de fora em 2022 por lesão nas quartas de final. Agora, com 34 anos, chega ao quarto torneio numa posição diferente: não mais como o astro incontestável, mas como peça de um mosaico que inclui Vinicius Jr., Raphinha, Endrick e Luiz Henrique.
Rayan e a renovação que a torcida abraçou
Se a convocação de Neymar gerou debate, a de Rayan gerou entusiasmo. O jovem atacante, revelado pelo Vasco da Gama e atualmente no Bournemouth, é um dos destaques da Premier League 2025/2026 e já havia sido testado nos amistosos da Seleção contra França e Croácia, realizados antes da definição da lista final. Nas redes sociais, a confirmação de seu nome entre os 26 convocados gerou reação positiva imediata da torcida brasileira.
"Vai ser", escreveram torcedores nas redes sociais ao verem o nome de Rayan confirmado na lista de Ancelotti, anunciada no Museu do Amanhã, no centro do Rio de Janeiro, na tarde desta segunda-feira (18).
A presença de Rayan na lista ilustra a estratégia dual de Ancelotti: mesclar a experiência de quem já viveu pressão de Copa — Neymar, que marcou 6 gols em três edições do torneio — com o vigor físico e a imprevisibilidade de jogadores que ainda não conhecem o peso de uma eliminação precoce. O Brasil não conquista o título mundial desde 2002, quando Ronaldo Fenômeno marcou os dois gols da final contra a Alemanha, em Yokohama. São 24 anos de espera que esta convocação tenta encerrar.
Neymar se apresentará à Granja Comary antes dos companheiros do Santos, que ainda têm quatro rodadas do Brasileirão e compromissos na Sul-Americana antes da pausa para o Mundial. O atacante vai entrar no campo de treinamento com 34 anos, um joelho reconstruído e 79 gols que nenhum brasileiro jamais superou. Rayan vai entrar pelo outro lado, com a leveza de quem ainda não carrega o peso dessa conta.









