Quantos jogadores nascidos em 1986 ainda conseguem disputar 35 partidas numa temporada inteira de futebol profissional no Brasil — e ainda acumular quatro assistências no processo?

A pergunta não é retórica no sentido fácil. Ela aponta para uma anomalia estatística que o futebol brasileiro raramente para para examinar com cuidado. O corpo humano de um atleta de campo, submetido a gramados irregulares, calendários comprimidos e viagens de ônibus pela madrugada, costuma entregar a conta bem antes dos 38 anos. Há exceções — e elas quase sempre carregam uma história que vai além do talento puro.

Nino Paraíba, cujo nome completo é Severino de Ramos Clementino da Silva, nasceu em Rio Tinto, na Paraíba, em 10 de janeiro de 1986. Hoje defende o Londrina na Brasileirão Série B, com 40 anos completados ainda no início desta temporada. São 168 centímetros de altura, 62 quilos — dimensões que, em qualquer manual tático convencional, não descrevem um lateral-direito destinado à longevidade. E, no entanto, aqui estamos.

Início de carreira

Rio Tinto é uma cidade de pouco mais de 60 mil habitantes encravada no litoral norte da Paraíba, a menos de 30 quilômetros de João Pessoa. Não é um polo formador de futebol — não tem a tradição de Recife, Salvador ou Fortaleza no Nordeste. Nino Paraíba saiu de lá carregando o nome da terra como sobrenome artístico, uma prática comum no futebol nordestino que funciona como cartão de visita e declaração de origem ao mesmo tempo. Pelo Sousa, clube do interior paraibano, conquistou o Campeonato Paraibano de 2009 — seu primeiro título profissional, numa era em que o futebol regional ainda resistia com mais força à centralização dos grandes centros.

A virada real de trajetória aconteceu no Vitória, clube baiano que nos anos 2000 e início dos 2010 construiu uma das bases mais sólidas do futebol nordestino. Por lá, Nino levantou a Copa do Nordeste de 2010 e os títulos do Campeonato Baiano de 2010 e 2013 — três troféus que consolidaram sua reputação regional e abriram portas para clubes de maior envergadura. O Bahia, arquirrival do Vitória, reconheceu o valor do lateral e o contratou: foram três títulos estaduais consecutivos, em 2018, 2019 e 2020, mais uma Copa do Nordeste em 2021. Seis troféus ao todo numa janela de doze anos — um currículo que poucos laterais da sua geração podem apresentar com essa consistência geográfica e temporal.

Nino Paraíba (Londrina)
Nino Paraíba (Londrina)

Números que importam

Em 2022, pelo Ceará, Nino Paraíba viveu sua temporada mais volumosa em termos de dados disponíveis: 33 partidas pela Série A, mais jogos pela Copa do Nordeste, Copa do Brasil e pela CONMEBOL Sudamericana — competição continental que poucos laterais nordestinos chegam a disputar com regularidade. Marcou dois gols naquele ano, sendo um na Série A e um na Copa do Brasil, e distribuiu duas assistências. Não são números de atacante; são os números de um lateral que entende que sua função ofensiva é complementar, não protagonista.

Na temporada 2026, pelo Londrina, os dados contam uma história diferente em volume, mas coerente em função: 35 jogos disputados, nenhum gol, quatro assistências. A ausência de gols não é surpresa — é consistência com o perfil. As quatro assistências, porém, revelam um jogador que ainda transita com eficácia pelo corredor direito, ainda lê o jogo com antecedência suficiente para servir companheiros em posição de finalização. Para um atleta de 40 anos numa segunda divisão brasileira, isso não é detalhe — é argumento.

Estilo de jogo

Há uma geração de laterais brasileiros dos anos 1990 — Cafu, Leonardo, Roberto Carlos — que redefiniu o que se esperava da posição no mundo. Eram atletas que cobriam 80, 90 metros de campo por jogo, cruzavam, finalizavam, voltavam para marcar. O modelo deixou um legado exigente demais para a maioria dos sucessores. Nino Paraíba nunca foi esse tipo de lateral explosivo. Com 1,68 metro e 62 quilos, seu jogo sempre foi mais cerebral do que atlético — posicionamento, leitura de trajetória, economia de esforço. É o tipo de jogador que parece lento até que você percebe que ele nunca está fora de posição.

Essa característica, que nos anos de ápice físico poderia ser lida como limitação, tornou-se ativo na fase final da carreira. Jogadores que dependem de velocidade pura declinam abruptamente; jogadores que dependem de leitura de jogo declinam em câmera lenta. As quatro assistências na Série B de 2026 sugerem que o declínio, se já começou, ainda não chegou ao ponto de ruptura.

Conquistas e momentos marcantes

O mapa de conquistas de Nino Paraíba é, antes de tudo, um mapa do futebol nordestino. O Campeonato Paraibano de 2009 pelo Sousa, a Copa do Nordeste de 2010 e os Baianos de 2010 e 2013 pelo Vitória, os três Baianos consecutivos de 2018, 2019 e 2020 e a Copa do Nordeste de 2021 pelo Bahia — são seis troféus que descrevem uma carreira construída com paciência regional antes de alcançar os palcos nacionais e continentais. A passagem pelo America Mineiro e pelo Cuiabá, ambos com presença na Série A, e os jogos pela Sudamericana com o Ceará em 2022, completam o quadro de um jogador que chegou ao futebol de alto nível sem ter sido formado nos grandes centros.

Em 2023, o nome de Nino Paraíba apareceu em um contexto que nenhum atleta deseja: a Operação Penalidade Máxima, conduzida pelo Ministério Público de Goiás, que investigou suspeitas de manipulação de resultados no futebol brasileiro. Nino tornou-se réu no processo. O episódio lançou uma sombra sobre sua trajetória que o tempo, sozinho, não apaga — e que qualquer leitura honesta da carreira é obrigada a registrar.

O que esperar daqui pra frente

Projetar os próximos doze meses de um atleta de 40 anos exige mais honestidade do que otimismo. O Londrina disputa a Série B de 2026, e Nino já acumulou 35 jogos nesta temporada — presença que indica confiança do corpo técnico, não gestão de minutagem. O cenário mais realista é o de uma renovação contratual curta, condicionada ao desempenho físico ao longo do segundo semestre. Clubes da segunda divisão raramente planejam com horizontes longos, e laterais de 40 anos raramente recebem contratos de mais de seis meses.

Há, claro, o precedente de outros veteranos que encontraram na Série B um ambiente menos exigente fisicamente do que a Série A — e prolongaram carreiras por um ou dois anos além do esperado. Se Nino mantiver a média de assistências e a regularidade de presença, pode encerrar 2026 com um currículo de mais de 35 partidas numa única temporada aos 40 anos — dado que, por si só, já seria matéria.

Uma carreira como a de Nino Paraíba lembra aquelas receitas nordestinas que levam horas no fogo baixo: não impressionam pela explosão de sabores no primeiro momento, mas constroem, camada por camada, uma complexidade que só o tempo revela. Seis troféus, dois continentes, quatro décadas de futebol — e ainda quatro assistências numa Série B. O fogo, por enquanto, ainda está aceso.