45 minutos. Foi nesse intervalo de jogo — ainda no primeiro tempo da final da Libertadores de 2025, em Lima, no Peru — que o lance envolvendo Erick Pulgar e Bruno Fuchs aconteceu e, segundo o próprio técnico do Palmeiras, deixou uma marca que vai além do placar de 1 a 0 para o Flamengo. O volante rubro-negro acertou as travas da chuteira na canela do zagueiro alviverde em entrada que, pela leitura do clube paulista, deveria ter resultado em expulsão direta. O árbitro não puniu. O VAR não interveio. E o Palmeiras perdeu a taça.
O lance que o VAR da Conmebol preferiu ignorar
A jogada em si durou frações de segundo, mas gerou meses de debate. Pulgar avançou sobre Bruno Fuchs com força desproporcional, fazendo contato com as travas diretamente na canela do zagueiro palmeirense. O árbitro da partida optou por não revisar o lance — decisão que o VAR da Conmebol referendou ao não recomendar a intervenção. Para a comissão técnica alviverde, a leitura foi clara: um jogador a menos mudaria o equilíbrio de uma final decidida por margem mínima.
Na coletiva imediata ao apito final, Abel Ferreira — treinador português que está há mais de cinco anos no Palmeiras — adotou um tom calculado, limitando-se a dizer que o árbitro havia sido "simpático". A contenção durou pouco. Semanas depois, sem câmeras de transmissão ao vivo e com o calor do momento dissipado, Abel abriu o jogo com uma franqueza que revelou a real dimensão da insatisfação.
"Independentemente das incidências que houve no jogo, há um asterisco no jogo, há um asterisco. Cicatrizes ficam, é natural que um ou outro jogador ainda esteja a sangrar, mas sabemos que essa equipe é capaz de se reinventar, é resiliente", declarou o treinador.
Abel usa a Libertadores de 2026 para reabrir a ferida
O assunto voltou ao noticiário em abril de 2026, quando o Palmeiras empatou em 1 a 1 com o Junior Barranquilla na estreia da fase de grupos da edição atual da Libertadores. Após reconhecer o pênalti sofrido pelo adversário — cometido por Mauricio nos minutos iniciais — Abel não resistiu ao gancho e ironizou diretamente a atuação da arbitragem da Conmebol na temporada anterior.
"Parece que, esse ano, o VAR vai funcionar, isso é bom. O ano passado, o VAR da Conmebol não funcionou, e este parece que vai funcionar. Isso é coisa boa", disparou o treinador, em declaração que misturava alívio com provocação velada.
A frase — aparentemente sobre o jogo diante do Junior Barranquilla — era, na leitura de quem acompanha o Palmeiras de perto, uma referência direta ao episódio com Pulgar e Bruno Fuchs. Abel não precisou nomear a final de Lima para que a mensagem fosse compreendida.
O impacto institucional de uma derrota que o Palmeiras trata como injustiça
A narrativa do asterisco tem peso institucional além da frustração esportiva. O Palmeiras encerrou 2025 — ano que Abel definiu como um "ano zero" de reformulação, com 12 contratações e 16 saídas — sem um título de expressão. Chegar à final da Libertadores e perder por 1 a 0, com um lance polêmico no primeiro tempo que poderia ter alterado o equilíbrio numérico, amplificou a sensação de que o clube foi prejudicado em seu momento mais importante.
O próprio treinador reconheceu a complexidade emocional do resultado, separando a questão arbitral da autocrítica esportiva. "Mais do que tudo, perdemos para nós próprios. Quando você tem uma oportunidade de desafiar um rival como nós e tu perdes para ti mesmo, não é a tua versão num jogo que era tão importante para nós", afirmou Abel, numa declaração que, ao mesmo tempo em que aceita responsabilidade, não absolve a arbitragem.
Para o Flamengo, o título permanece intacto nos registros oficiais da Conmebol. A taça está em Gavea. O asterisco, porém — esse símbolo informal que Abel escolheu como bandeira — vive no discurso do principal rival e reverbera cada vez que a arbitragem sul-americana entra em pauta.
O que muda para o Palmeiras na Libertadores de 2026
Com o empate diante do Junior Barranquilla em abril, o Palmeiras iniciou a defesa de sua vaga na fase de grupos da Libertadores de 2026 com um ponto fora de casa — resultado que Abel classificou como insuficiente, lamentando as chances desperdiçadas na segunda etapa. O próximo desafio doméstico na competição será no Allianz Parque, onde o Verdão historicamente apresenta aproveitamento superior ao registrado em jogos fora do Brasil.

A ironia é que, ao manter o tema da arbitragem vivo, Abel Ferreira cumpre dois papéis simultâneos: pressiona a Conmebol publicamente por maior rigor no uso do VAR e mantém o episódio de Lima como combustível motivacional para um grupo que foi profundamente reformulado. O asterisco, afinal, serve tanto como denúncia quanto como combustível — está gravado na memória do elenco, falta a taça para apagá-lo.










