Em uma noite fria de março em Zenica, no modesto estádio Bilino Polje com capacidade para apenas 15 mil pessoas, testemunhamos o capítulo mais sombrio da história recente do futebol italiano. A Itália, tetracampeã mundial e berço de lendas como Roberto Baggio e Francesco Totti, sucumbiu nos pênaltis diante da Bósnia por 4 a 1, selando sua terceira ausência consecutiva em Copas do Mundo – um feito inédito para qualquer campeã mundial na era moderna do futebol.

O roteiro cruel começou promissor. Moise Kean, aos 23 minutos do primeiro tempo, aproveitou um erro grosseiro do goleiro bósnio Asmir Begović para colocar a Azzurra na frente. Parecia o prelúdio de mais uma classificação italiana construída com a tradicional sagacidade tática que marcou gerações desde os tempos de Enzo Bearzot. Mas o destino reservava uma armadilha amarga: aos 41 minutos, Alessandro Bastoni recebeu o segundo cartão amarelo e deixou os azzurri com um jogador a menos.

A resistência heroica que não bastou

Jogando com inferioridade numérica durante 49 minutos, a Itália demonstrou os resquícios da escola defensiva que fez história mundial. Gennaro Gattuso, o antigo pitbull do meio-campo milanês transformado em técnico, organizou uma muralha que resistiu até os 33 minutos do segundo tempo, quando Ermedin Demirović encontrou Edin Tabakovic para o empate que levaria a decisão aos pênaltis.

A prorrogação transcorreu sem grandes emoções, com os italianos administrando o cansaço e os bósnios pressionando sem encontrar espaços. Nas cobranças de pênalti, a frieza abandonou a seleção que já conquistou quatro Copas do Mundo (1934, 1938, 1982, 2006). Nicolò Esposito e Davide Cristante desperdiçaram suas tentativas, enquanto a Bósnia converteu todas as quatro cobranças através de Tarik Tahirović, Tabakovic, Alajbegović e Bajraktarević.

O declínio estrutural de uma potência

A ausência italiana nas Copas de 2018 na Rússia, 2022 no Catar e agora 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México representa mais que uma sequência de azar. Trata-se da materialização de uma crise estrutural que se arrasta desde o triunfo mundial de 2006, na Alemanha. Naquele time comandado por Marcello Lippi, veteranos como Francesco Totti, Alessandro Del Piero e Fabio Cannavaro fizeram sua despedida dourada da seleção.

Os números revelam a dimensão da derrocada: a Itália não disputa uma Copa do Mundo há uma década, desde a decepcionante campanha no Brasil em 2014, quando foi eliminada na fase de grupos com apenas um ponto conquistado. Desde então, acumulou fracassos nas eliminatórias europeias, perdendo classificações diretas para Suécia (2018) e Macedônia do Norte (2022), antes da queda diante da Bósnia neste março de 2025.

Bósnia celebra a classificação histórica

Do outro lado da narrativa, a Bósnia protagoniza um feito memorável ao garantir sua segunda participação em Copas do Mundo, repetindo o feito de 2014 no Brasil. A seleção balcânica, que conquistou sua independência em 1992 e disputou sua primeira Copa apenas em 2014, integra agora o Grupo B da Copa de 2026 ao lado de Canadá, Catar e Suíça.

A estreia bósnia será em 12 de junho contra o Canadá, em Toronto, seguida pelo confronto com a Suíça no dia 18, em Los Angeles, e o encerramento da fase de grupos contra o Catar em 24 de junho, em Seattle. Para uma seleção que na Copa de 2014 perdeu para Argentina e Nigéria, vencendo apenas o Irã, a classificação representa uma oportunidade única de superar a fase de grupos pela primeira vez.

O impacto global da ausência italiana

A ausência da Itália na Copa de 2026 priva o futebol mundial de uma de suas seleções mais tradicionais e vitoriosas. A Azzurra detém quatro títulos mundiais e conquistou a Eurocopa de 2021, demonstrando que o talento individual permanece, mas a capacidade de mobilização em eliminatórias longas se deteriorou.

Com a definição das últimas vagas europeias nesta terça-feira, a Copa de 2026 contará com Suécia no Grupo F (junto a Holanda, Japão e Tunísia), Turquia no Grupo D (com Estados Unidos, Austrália e Paraguai) e República Tcheca no Grupo A (ao lado de México, África do Sul e Coreia do Sul). A Itália, por sua vez, terá quatro anos para reconstruir um projeto que permita encerrar o jejum mais longo de sua história em Mundiais.