As arquibancadas do Castelão já cantavam a classificação quando a bola morreu no fundo da rede atleticana pela segunda vez. Eram apenas 22 minutos do primeiro tempo, o Ceará vencia por 2 a 0 e o Galo jogava com dez homens desde os quatro minutos — depois que Cissé derrubou Fernandinho dentro da área e viu o árbitro sacar o vermelho direto. Quem estava do lado mineiro da Arena, em Fortaleza, naquela quarta-feira (13), encarava o que parecia ser o fim da linha. Foi nesse instante que Everson começou a escrever mais um capítulo da sua história com a camisa alvinegra.
O vestiário que resistiu quando o campo dizia para desistir
A expulsão de Cissé não foi apenas um revés tático — foi um terremoto emocional. O jovem volante cometeu pênalti em lance de gol, e Alex Silva não desperdiçou: abriu o placar aos oito minutos. Menos de 15 minutos depois, Renan Lodi tentou um carrinho salvador em cima da linha, mas a bola desviou nas costas do próprio Everson e entrou — um gol contra que colocava o Ceará em vantagem no agregado. O time comandado por Eduardo Domínguez precisaria de dois gols para avançar, jogando com dez, em um estádio hostil. A lógica mandava entregar. O Atlético não obedeceu.
Na segunda etapa, a equipe mineira comprimiu os espaços, apostou na disciplina tática e esperou sua chance. Everson, enquanto isso, foi o muro que impediu a sangria: aos 30 minutos do segundo tempo, ele espalmou uma cabeçada de Giulio que parecia destinada ao gol. Aos 45, quando tudo parecia perdido, o jovem Kauã Pascini — criado nas categorias de base do clube — recebeu dentro da área, limpou o marcador Éder e bateu forte para diminuir. O placar agregado chegou a 3 a 3, e a decisão foi para os pênaltis.
Vinte e dois pênaltis defendidos e um recorde que pertencia ao ídolo
Há uma cena que os atleticanos mais velhos guardam com carinho: Victor voando para defender cobranças em noites de Copa Libertadores, nos anos em que o Atlético conquistou o tricampeonato mineiro e chegou às finais continentais. Entre 2009 e 2019, o goleiro gaúcho defendeu 20 pênaltis com a camisa do Galo — uma marca que parecia intocável, gravada na memória afetiva da torcida como se fosse esculpida em pedra. Quando Everson chegou ao clube, em 2020, ninguém apostaria que aquele número cairia tão cedo.

Na disputa desta quarta-feira, Everson defendeu as cobranças de Fernando e Rafael Ramos, e depois caminhou até a marca do pênalti para bater a última cobrança do Atlético — convertendo com frieza e encerrando a série em 4 a 2. Com isso, chegou a 22 pênaltis defendidos com a camisa alvinegra, superando Victor. O SportNavo apurou que a marca também inclui outro recorde: Everson chegou a 36 partidas disputadas pelo Atlético na Copa do Brasil, deixando Victor — que fez 35 — na segunda posição da lista histórica da competição.
O paralelo com Victor não é apenas estatístico. Os dois goleiros chegaram ao clube em momentos de reconstrução, tornaram-se pilares defensivos e construíram idolatria justamente nos instantes em que o time mais precisava de alguém para segurar o resultado com as próprias mãos. Victor fez isso em 2013, quando o Atlético ganhou a Libertadores pela primeira vez. Everson vem repetindo o feito em doses regulares desde 2021, quando o Galo conquistou o bicampeonato da Copa do Brasil.
O que a classificação significa para o Atlético no resto da temporada
A vitória nos pênaltis garantiu ao Atlético-MG uma vaga nas oitavas de final da Copa do Brasil 2026, onde o clube busca o tricampeonato — tendo erguido o troféu em 2014 e 2021. A fase seguinte está marcada para agosto: os jogos de ida acontecem nos dias 1º e 2, com a volta prevista para 5 e 6. Na disputa pelo título, a novidade desta edição é que a final será decidida em jogo único, no dia 6 de dezembro. Entre os classificados já confirmados estão Internacional, Cruzeiro, Fluminense, Vasco, Juventude, Santos, Mirassol, Palmeiras e Remo.
Antes disso, o Atlético volta a campo neste sábado (16), às 18h30, na Arena MRV, para receber o Ceará — não, espera: para receber o Mirassol, pela 16ª rodada do Campeonato Brasileiro. A pressão acumulada pelas atuações irregulares na Sul-Americana e no Brasileirão torna cada resultado uma resposta necessária à torcida. E se Everson tiver que defender mais um pênalti, o Castelão já sabe o que esperar.
As arquibancadas do Castelão já cantavam a classificação quando Everson caminhou até a marca dos 11 metros para converter — e transformar o fim da linha em começo de passagem.









