Três itens: moradia, segurança e estabilidade política. Tudo o que ainda separa Carlo Ancelotti da assinatura com a CBF se explica por aí — e nenhum dos três tem a ver com salário.
A negociação que avançou mas ainda não fechou
O acordo entre a Seleção Brasileira e Carlo Ancelotti está em estágio avançado. O jornalista Fabrizio Romano confirmou que CBF e o técnico italiano chegaram a um entendimento para que ele assuma o comando do time canarinho ainda neste mês, com previsão de estar no banco já na primeira semana de junho, durante a Data Fifa em que o Brasil enfrenta Equador e Paraguai pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2026. Mas "acordo avançado" não é o mesmo que contrato assinado — e os detalhes que faltam são exatamente os mais delicados.

Segundo informações divulgadas pelo jornalista André Rizek no programa Seleção SporTV, o técnico de 65 anos está colocando empecilhos concretos antes de colocar a caneta no papel. Não é capricho. É lição aprendida da forma mais dura.
O assalto que mudou a postura de Ancelotti sobre segurança
Em 2023, quando o primeiro acordo com a CBF foi desenhado, Ancelotti assinou um termo comprometendo-se a residir no Brasil — exigência da entidade para qualquer treinador da Seleção. Desta vez, a conversa sobre moradia voltou à mesa, mas com um ingrediente novo: a experiência traumática que o técnico viveu quando comandava o Everton, na Inglaterra, quando sua residência foi assaltada. A família carrega essa memória, e o Brasil, com seus índices de violência urbana amplamente documentados, acende um alerta legítimo.
"Há uma preocupação da família dele com segurança no Brasil. E, por exemplo, ele alega que o Scaloni, técnico da Argentina, mora na Espanha. Por que ele não poderia morar na Europa? Isso ainda é discutido", revelou Rizek.
O argumento de Ancelotti usando Lionel Scaloni como referência não é fraco. O treinador campeão do mundo com a Argentina em 2022 conduz a equipe albiceleste sem residência fixa em Buenos Aires — e ninguém questiona sua dedicação ou autoridade. A CBF, que faz questão do técnico morando em território nacional, terá de encontrar um meio-termo ou ceder nesse ponto.
A sombra de Ednaldo Rodrigues paira sobre a negociação
O segundo obstáculo é estrutural e, em certo sentido, mais grave. Ancelotti não esqueceu o que aconteceu em 2023: ele tinha um termo de compromisso firmado com a CBF quando, no momento exato em que precisava decidir entre renovar com o Real Madrid ou vir ao Brasil, a entidade estava acéfala — o presidente Ednaldo Rodrigues havia sido afastado pela Justiça. O técnico ficou sem interlocutor, sem garantia e sem segurança jurídica. Renovou com o Madrid. O Brasil ficou esperando.
"Ancelotti tinha assinado um termo de compromisso e, no momento em que ele se vê na encruzilhada com o Real Madrid para saber se ia prorrogar ou não seu contrato, a CBF estava sem presidente, afastado pela Justiça. Ele está fazendo perguntas sobre o atual momento político da CBF", disse Rizek.
A pergunta que Ancelotti faz agora é direta: o que garante que isso não se repete? A CBF vive, nas palavras do próprio Rizek, "um momento de grande turbulência" institucional. Assinar um contrato de longo prazo com uma entidade que pode trocar de presidente por decisão judicial não é conforto para nenhum profissional de alto nível — e Ancelotti, com quatro títulos de Champions League no currículo, tem poder de barganha suficiente para exigir cláusulas de proteção.
Para entender a dimensão do problema, basta olhar para o que aconteceu na década de 1990 com a CBF: entre 1994 e 2002, a entidade trocou de presidente três vezes em meio a crises políticas e investigações de corrupção, período que coincidiu com o trauma da Copa de 1998 e a reconstrução que culminou no penta. A instabilidade institucional não é novidade na história do futebol brasileiro — mas desta vez, o técnico que está do outro lado da mesa sabe disso e está colocando salvaguardas contratuais antes de embarcar.
O que falta para o acerto ser oficial
Nas negociações de alto nível no futebol mundial, cláusulas de rescisão por mudança de comando diretivo são cada vez mais comuns. A SportNavo apurou que o modelo adotado por grandes ligas europeias — especialmente após os casos de treinadores que perderam seus contratos por instabilidade federativa na África e na Ásia — serve de referência para o que Ancelotti busca garantir por escrito. Ele quer saber o que acontece com seu vínculo caso o presidente atual da CBF seja afastado novamente. Quer saber quem paga a multa. Quer saber quem garante o projeto técnico.
A CBF, por sua vez, tem urgência. O Brasil enfrenta Equador no dia 5 de junho e Paraguai no dia 10, ambos pela décima rodada das Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo de 2026. A Seleção ocupa a terceira colocação na tabela, com 18 pontos em 9 jogos, e qualquer tropeço pressiona ainda mais o calendário de preparação para o torneio nos Estados Unidos. Chegar a esses dois jogos sem treinador definido é um risco que a entidade não quer correr.
O prazo para o anúncio oficial é curto. Se a CBF aceitar as condições de Ancelotti sobre residência e oferecer garantias contratuais concretas contra instabilidade política, o acerto sai antes do fim de maio. Se insistir nas mesmas exigências de 2023 sem adaptações, o técnico tem histórico de saber dizer não — e o Brasil tem histórico de lamentar por meses.









