18 anos de seleção. Esse é o dado que separa Fofão de qualquer referencial teórico que uma comissão técnica possa apresentar numa preleção. A ex-levantadora, cujo nome completo é Virna Lúcia Foltran Dias, foi anunciada nesta sexta-feira (15 de maio) como nova auxiliar técnica da seleção feminina de vôlei, a convite de José Roberto Guimarães, e se apresenta oficialmente na segunda-feira (18) no Centro de Desenvolvimento de Voleibol em Saquarema, no Rio de Janeiro.

O precedente que o vôlei brasileiro já conhecia

Não é a primeira vez que uma ex-atleta de alto rendimento migra diretamente para a comissão principal de Zé Roberto. O próprio histórico da seleção feminina registra passagens de ex-jogadoras em funções técnicas, mas nenhuma com o currículo de Fofão: ouro em Pequim-2008, bronze em Atlanta-1996 e Sydney-2000, cinco edições olímpicas disputadas e ingresso no Hall da Fama do Voleibol em 2015, ano em que encerrou a carreira nas quadras. O que diferencia esta contratação das anteriores é o estágio de maturidade técnica que ela traz do outro lado do banco — Fofão não chega como recém-aposentada, mas como profissional que já coordenou as seleções femininas de base em 2021 e comandou o sub-17 entre 2023 e 2024, tornando-se a primeira mulher a assumir uma seleção no vôlei brasileiro.

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O que uma levantadora de elite enxerga que outros técnicos não veem

Na análise tática do vôlei de alto nível, a função do levantador é frequentemente subestimada em favor dos ponteiros e centrais que acumulam pontos de ataque. Mas quem entende o jogo sabe que o levantamento de tempo — aquele em que a bola é distribuída no exato momento em que a atacante está no ponto máximo do salto — é a diferença entre um bloqueio duplo neutralizado e um ponto cedido. Fofão foi, durante mais de uma década, a maior especialista do Brasil nessa leitura. Ela sabia quando ativar o pipe, quando forçar a zona de conflito entre os bloqueadores adversários, quando o saque viagem do rival exigia um levantamento mais conservador para preservar a eficiência de ataque. Esse repertório, construído em centenas de partidas de alto nível, não se transmite em vídeo de análise — precisa ser comunicado dentro do ginásio, no calor do treino.

"A minha expectativa é poder contribuir com minha experiência, minha presença com os projetos do time. É uma comissão técnica que eu conheço muito bem, já trabalhei com algumas atletas. Então poder ajudar com minhas vivências de atleta, acrescentar com o que for possível, dar o meu melhor, é o que espero nesse ciclo. Tem muito trabalho pela frente e vamos juntar forças para que a seleção alcance seus objetivos, estou muito motivada com esta nova missão", declarou Fofão à CBV.

A surpresa que virou missão

Segundo apuração do SportNavo, o convite de Zé Roberto chegou quando Fofão já tinha projetos em andamento fora da CBV — o que exigiu uma conciliação de agenda antes da aceitação oficial. A própria ex-levantadora admitiu o espanto com o chamado.

"O convite foi uma surpresa. Como sempre o Zé Roberto surpreendendo com os convites dele. Eu expliquei a minha situação para ele, pois não esperava o convite e já tinha alguns projetos, mas conseguimos conciliar. Fiquei surpresa, mas muito feliz com esse voto de confiança da parte dele, nos conhecemos há muito tempo", afirmou.

Decidiu. E a partir dessa decisão, a seleção feminina passa a contar com uma profissional que viveu cada situação de pressão olímpica que pode surgir num ciclo classificatório. A CBV informou ainda que outras profissionais devem ser incorporadas à comissão técnica nas próximas semanas, o que indica que Zé Roberto está montando um staff com mais camadas de especialização do que o grupo atual.

O que Saquarema vai ver a partir de segunda-feira

A seleção feminina já tem convocações confirmadas para os treinamentos visando a Liga das Nações, divulgadas em 13 de maio pela CBV. Com Fofão integrada à comissão desde o primeiro dia de trabalho em Saquarema, a expectativa é que ela atue diretamente no refinamento técnico das levantadoras do grupo — um setor historicamente sensível para o Brasil em ciclos de renovação. A eficiência de bloqueio adversária contra o sistema de distribuição brasileiro tem sido um dado relevante nas campanhas recentes, e uma ex-atleta com a capacidade de leitura de Fofão pode contribuir para reduzir os erros de tomada de decisão sob pressão. O primeiro grande teste do novo staff deve ocorrer na Liga das Nações de 2026, competição que funcionará como termômetro real para o grupo que Zé Roberto está construindo rumo a Los Angeles-2028.