Cresceu. O barulho em torno da Espanha cresceu — e Mikel Oyarzabal não foge disso. Na sala de imprensa de Chattanooga, no Tennessee, o atacante da Real Sociedad encarou câmeras e microfones com a calma de quem já passou por finais, já marcou em finais, e sabe exatamente o que uma Copa do Mundo exige. Não havia nervosismo na voz. Havia método.

O vestiário que não muda quando o mundo muda

O treino de segunda-feira em Chattanooga tinha um calor úmido que grudava na pele. Nico Williams e Lamine Yamal trabalharam normalmente com o grupo. Víctor Muñoz participou pela primeira vez com a equipe completa. E Oyarzabal apareceu com um curativo no joelho direito — sequela de um choque sofrido no amistoso contra o Peru — mas com o semblante de quem não vai desacelerar por causa disso.

Dentro do vestiário, segundo o próprio jogador, nada mudou desde a Copa do Mundo virar realidade. A convivência é a mesma de Las Rozas, a mesma da concentração na Eurocopa de 2024. "Nos llevamos todos muy bien y tenemos una relación muy buena. Es una de las claves del grupo", disse Oyarzabal. A tradução prática: a Espanha não virou um grupo de estrelas. Virou um grupo de amigos que jogam futebol de altíssimo nível.

Luis de la Fuente conhece esses jogadores desde as categorias de base. Não precisa de discurso motivacional. Sabe o que cada um dá em cada momento — e Oyarzabal descreveu isso com precisão cirúrgica: "Luis nos conoce muy bien a todos y sabe lo que cada jugador puede dar en cada momento. Eso es muy importante a la hora de decidir."

Favoritismo sem alarde — a marca desta geração espanhola

O que para o argentino é declaração de guerra, para o espanhol desta geração é quase um fardo que ele prefere não carregar. Oyarzabal ouviu a pergunta sobre ser favorito e respondeu sem recuar, mas também sem inflar o peito:

"No hay que negar que somos uno de los favoritos, pero eso no vale de nada. Hay que demostrar en el verde, que es lo que estamos haciendo."

A postura não é nova. Na Eurocopa 2024, a Espanha entrou no torneio sem o rótulo de favorita — e saiu campeã. Oyarzabal foi direto ao ponto sobre essa virada de percepção: "Nosotros somos los mismos que los de la Euro, lo tomamos igual, con serenidad, con tranquilidad, con confianza." O grupo não mudou porque o mundo passou a respeitá-lo. O grupo simplesmente continuou sendo o que já era.

Quando perguntado sobre os candidatos ao título, Oyarzabal não escondeu os nomes: França, Inglaterra, Brasil e Argentina entraram na lista. Mas a frase que veio depois foi mais reveladora do que a lista em si: "Seguro que hay selecciones que quizás no todo el mundo cuenta con ellas que también van a dar mucho que hablar." Uma Copa do Mundo, ele sabe, não é resolvida por prognóstico.

Os números que ninguém consegue ignorar — e Oyarzabal tenta relativizar

O gol marcado contra o Peru, no amistoso de preparação, não foi apenas mais um. Colocou Oyarzabal num patamar que só David Villa havia alcançado: seis partidas consecutivas balançando as redes pela seleção espanhola. Fernando Hierro e Pirri chegaram perto, mas interromperam a sequência por lesão. Oyarzabal chegou lá sem pausa.

A racha fica ainda mais impressionante quando se incluem as assistências: 11 partidas seguidas participando diretamente de gols da Espanha. É o tipo de dado que coloca qualquer atacante na lista de candidatos à artilharia do torneio — e Oyarzabal prefere desviar o olhar dessa conversa.

Quando comparado diretamente a Harry Kane e Kylian Mbappé, a resposta foi de uma honestidade desconcertante: "Los mejores son ellos porque son diferenciales. Estoy feliz con lo que hago y voy a seguir en el camino de ayudar al equipo de una manera u otra, que es lo que importa." Não é falsa modéstia. É a lógica de quem entende que a Espanha não vence com um herói — vence com um sistema.

O atacante também abordou a ideia de que seja subestimado fora do grupo. A resposta foi curta e definitiva:

"Me siento valorado, querido y respetado por los compañeros, que es lo que cuenta. Si estamos aquí es porque el míster lo ha decidido así y considera que valemos y lo merecemos."

A coletiva teve um momento mais leve quando o companheiro Borja Iglesias declarou, entre risos, que tatuaria o rosto de Luis de la Fuente se a Espanha conquistasse o título mundial. Oyarzabal desarmou a proposta com uma linha: "Yo no, soy más clásico. Que se lo ponga alguno de mi parte." A piada diz mais sobre o ambiente do grupo do que qualquer discurso sobre coletividade.

A estreia da Espanha no Mundial está marcada para esta segunda-feira, às 18h, contra Cabo Verde — conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura da preparação das seleções. Oyarzabal já jogou três finais com a Roja e marcou nas três: na Nations League de 2021 (derrota para a França por 2 a 1), na Eurocopa 2024 (vitória sobre a Inglaterra por 2 a 1) e na Nations League de 2025 (derrota nos pênaltis para Portugal). O sonho declarado é óbvio: uma quarta final, um quarto gol, e desta vez uma segunda estrela no uniforme espanhol. O primeiro passo acontece contra os cabo-verdianos, segunda-feira, às 18h.